15 abr

Acervos para cegos: por que e como adquiri-los

Alguma vez você ouviu falar em sebo de livros em braille? Nós também não. E uma ampla biblioteca particular, toda em braille, cultivada por um leitor cego? Não. Ao entrar em um site de qualquer grande livraria e pesquisar por um título, seja ele qual for, já apareceu a opção de adquiri-lo na versão braille ou em áudio? Também não. São muitos nãos às pessoas com deficiência visual, não? E olha que nem estamos abordando outras questões da acessibilidade; apenas de livros estamos falando… O que, aliás, não é pouco, uma vez que a leitura é instrumento fundamental de acesso às instâncias mais diversas do mundo.

 
Saindo então da discussão da leitura no âmbito privado, pensemos no âmbito público: as biblioteca das nossas cidades estão preparadas para receber leitores cegos? Aliás, quantos pessoas cegas nós conhecemos? Poucas? Nenhuma? E não as conhecemos porque são “raras” ou por que o mundo por onde andamos é tão inacessível a elas, de modo que não permite que circulem cotidianamente por aí como todo mundo?

Partindo da ideia de que pessoas com deficiência visual são minoria ou, em determinadas comunidades, “não existem”, muitas bibliotecas ignoram a acessibilidade para esse público, “por falta de demanda”. Ocorre que um serviço de utilidade pública, encarregado de garantir direitos (no caso, direito à leitura) à população, só é acessível de fato se está em conformidade com uma demanda universal: se é direito de todos, deve estar disponível e equipada para todos. Assim como não se deve esperar que uma pessoa com mobilidade reduzida apareça na biblioteca para que nos lembremos de construir rampas de acesso, a biblioteca deve estar preparada para recepcionar leitores com deficiência visual, apareçam eles quando aparecerem: hoje, amanhã ou daqui a um ano.

O último Censo do IBGE (2010) aponta que, no Brasil, 6.500.000 pessoas têm algum tipo de deficiência visual. Dessas, 500.000 são cegas e 6.000.000 possuem baixa visão. Portanto, nem todos as pessoas com deficiência visual são cegas – para cada grau de deficiência há instrumentos de leitura específicos. Segundo Ana Paula Silva, coordenadora do Serviço de Acesso ao Livro da Fundação Dorina Nowill, o Brasil está começando a conhecer melhor esse público e a sensibilização para as suas necessidades é o primeiro passo na soma de esforços para uma sociedade acessível e inclusiva.

Pioneira em ações para a acessibilidade de pessoas com deficiência visual no Brasil, a Fundação Dorina Nowill, localizada na cidade de São paulo, é detentora da imprensa em braille com a maior capacidade de produção da América Latina e uma das maiores do mundo. Através de leis de incentivo fiscal, a entidade tem um programa de distribuição gratuita de livros para deficientes visuais para todo o Brasil, bastando que as escolas, bibliotecas e instituições que atendam a esse público – ou que queiram atendê-lo – se cadastrem.

Além de livros em braille, para as pessoas cegas, outros formatos também estão disponíveis, contemplando pessoas com baixa visão. Livros em áudio, livros digitais em Daisy (que converte as palavras escritas em voz) e livros impressos a tinta com letras ampliadas constam do acervo. A produção livreira da fundação ainda conta com uma novidade: livros infantis que conjugam o braille com a impressão em letra ampliada e ilustração. Ana Paula conta que, neste caso, trata-se de um livro não só acessível, mas inclusivo: “Pessoas que não têm deficiência visual também podem lê-los. Então, alunos e professores, pais e filhos podem ler juntos”, explica. Para esta modalidade, a Fundação Dorina Nowill já tem disponíveis os cinco títulos da Coleção Diferenças, além de O Patinho Feio.

Atualmente, a fundação empreende um programa de oficinas para a capacitação de professores, profissionais de bibliotecas e de outras entidades que queiram aprender a trabalhar com a facilitação de leitura para pessoas com deficiência visual. O programa, que é gratuito, é também de abrangência nacional. Pessoas residentes em São Paulo podem fazer curso de braille na sede da fundação.

Além da biblioteca interna da Fundação Dorina Nowill, a linha editorial dos livros a serem distribuídos parte de pesquisas dos interesses de leitura do público ou do que as organizações interessadas demandam. “A pessoa com deficiência visual quer ler o que o mundo está lendo”, diz Ana Paula. Para ela, muitas vezes as instituições não atendem a uma pessoa com deficiência visual porque não tem o material necessário. “Mas, a partir do momento em que você tem esse acervo e o divulga, vai ter alguém para ter o seu livro. É uma grande oportunidade de ter uma acervo mínimo para poder atender à pessoa, quando ela vier”, conclui.

Profissionais e entidade que queiram se cadastrar no programa de acervo para pessoas com deficiência visual e receber gratuitamente os livros nos formatos adequados a esse público podem fazê-lo pelo e-mail: ci.biblioteca@fundacaodorina.org.br ou pelo telefone: (11) 5087-0960.

 Para saber mais sobre a Fundação Dorina Nowill para cegos, clique:

 

 

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