29 abr

Alfabetização em telas e outros aprendizados eletrônicos

Educadores veem já há algum tempo questionando se os tablets, em especial, além de outros dispositivos móveis devem desempenhar um papel mais importante e estratégico na educação. Não raro são escolas particulares e até públicas que preconizam o uso desses equipamentos, inclusive, para atrair a atenção de pais e alunos, como um chamariz à inovação do ensino.

Uma pesquisa divulgada em dezembro último pelo Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, em Cambridge (Massachussets, EUA), apresentou resultados positivos sobre o uso desses aparelhos eletrônicos em favor da aprendizagem. O estudo revela que o uso de iPads e outros tipos de tablets favorecem o aprendizado de ciências entre estudantes do ensino médio. Para os autores da pesquisa, esses dispositivos são plataformas “perfeitas” para fazer simulações em 3D. Com isso, fica mais fácil aprender temas como a lógica de funcionamento da escala do sistema solar.

Outro aspecto de favorecimento dessa tecnologia aplicada ao ensino é a habilidade dos jovens no manuseio dos tablets, o que favoreceria ainda mais a apreensão do tema pelo estudante do que é apresentado em formato de animação. Entretenimento e dinâmica são igualmente exaltados pelo uso dessas tecnologias. Para Matthew Schneps, um dos autores da pesquisa, “esses dispositivos oferecem aos estudantes oportunidades de fazer coisas que seriam impossíveis de serem feitas em ambientes como a sala de aula tradicional, como a tridimensionalidade”.

Schneps e os demais pesquisadores analisaram os ganhos na aprendizagem entre 152 estudantes do ensino médio que usaram iPads para explorar o espaço simulado, e compararam com 1.184 alunos que utilizaram abordagens de ensino mais tradicionais. Eles descobriram que, enquanto as abordagens tradicionais não produziram nenhum ganho evidente na compreensão dos alunos, as aulas ministradas com o uso de iPads mostraram ganhos significativos. Os estudantes investigados revelaram que também enfrentam dificuldades similares com os conceitos de escala quando aprendem biologia, química, física e geologia, o que sugere que as simulações baseadas em iPad também poderiam ser benéficas para o ensino em muitos outros campos científicos, além da astronomia.

Inteligência coletiva

Mas, apenas o uso de dispositivos móveis garantem o aprendizado? Como fica o papel do professor nesse processo de ensino-aprendizagem? Na educação tradicional, a lógica do ensino-aprendizado de um para um, a exemplo da Grécia antiga, em que um mestre ensinava a um discípulo, e mais tarde de um para muitos, em que o professor protagoniza o instrutor e os alunos apenas os que aprendem, a tecnologia entra somente como adereço. Mas, na perspectiva de uma educação compartilhada, em que os recursos tecnológicos permitem que alunos e professores aprendam e ensinem uns aos outros, surgem novos processos, como o aprendizado adaptável. O ensino adaptativo leva em conta que as pessoas aprendem de modos distintos e, por isso, o conteúdo a ser ensinado precisa ser customizado para cada aluno, sem prescindir da figura do professor. Conforme explica o empreendedor Claudio Sassaki, no ensino adaptativo, plataformas inteligentes usam softwares que propõem atividades diferentes para cada aluno, sob medida, a partir de suas respostas e reações às tarefas. Nelas, os estudantes têm acesso a diversas experiências de aprendizado, tais como games, vídeos, textos, exercícios, atividades em grupo recebendo, em tempo real, feedback sobre seu próprio desempenho. Essa mensuração de desempenho, segundo Sassaki, também é usada para traçar um mapa de conteúdos, que vai cruzar as disciplinas para que ele consiga avançar simultaneamente em cada uma delas.

A Geekie, da qual Sassaki é cofundador, é uma dessas plataformas que oferece soluções educacionais personalizadas, adequando o ensino ao perfil de cada aluno para que ele possa aprender da forma mais adequada às suas características e necessidades.

Outro bom exemplo é o Mocha Live, plataforma digital que permite a professores e alunos ensinar e aprender 38 idiomas de forma colaborativa. Há quem aponte, inclusive, ameaça às escolas tradicionais de idiomas, sobretudo as de formato presencial tradicional.

A tecnologia é, por assim dizer, um amplificador, mas claro, não é salvadora. Ela ajuda professores, pais e alunos a cumprirem melhor seus papéis. Pode aumentar as oportunidades, mas para isso é necessário acesso universal à internet de banda larga, permitindo que usuários no Brasil, nas Filipinas ou em Madagascar tenham acesso à internet em casa, no trabalho ou na escola; além de acesso a um aparelho ligado à internet, pelo menos um smartphone. Essa é uma prerrogativa importante em direção à equidade, sem esquecer dos demais direitos e acessos fundamentais, como saúde, liberdade.

Esse aspecto de inclusão em rede permitiria criar, até nas áreas mais carentes do Brasil, acesso a alguma educação. Poderemos ter escolas de ensino fundamental e médio de qualidade, que mesclem ensino on-line e presencial, com possibilidades de troca e de visibilidade. Usar tecnologia de forma intencional para aprofundar o aprendizado de alunos e professores não significa, necessariamente, prejuízo aos alunos nem tampouco que a profissão da docência esteja em rota de extinção. Menos ainda significa que estamos desvalorizando ou preterindo a educação.

Produção colaborativa

Quem são os produtores de conteúdo hoje? Com a disseminação da internet, que se popularizou no Brasil em 1995, depois de ser um privilégio de acadêmicos e da iniciativa privada por seis anos, consumidores passivos de produtos culturais e de informação estão se transformando em criadores de conteúdo. Hoje, a internet no mundo reúne 2,5 bilhões de pessoas, cerca de um terço da população mundial. No Brasil, são 102,3 milhões de usuários, de acordo com dados do Ibope Media, divulgados em meados do ano passado. Só perdemos para EUA (198 milhões) e Japão (milhões), proporcionalmente em relação ao número de habitantes desses países. Até 2020, deverão ser 50 bilhões de dispositivos conectados em rede.

Essa revolução no modo como compartilhamos o conhecimento impacta e gera mudanças tanto na indústria cultural como na educação e na política, além de muitos outros setores da nossa sociedade. O pesquisador e advogado Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV/RJ, diz que no caso da educação, os alunos deixam de ser passivos no processo de aprendizagem e passam inclusive a ser fonte de informação. Existem sites que compartilham as anotações dos alunos, de forma colaborativa, a exemplo de uma Wikipedia. Com isso, adverte Lemos, “é possível melhorar o conteúdo discutido em sala de aula e até corrigir alguma informação inadequada do professor, por que não?”

Escritor, psicanalista, seminarista, autor de cerca de 50 livros e professor emérito da Unicamp, Rubem Alves afirma que os alunos, sejam crianças ou velhos, devem desenvolver os fascínios pelos caminhos desconhecidos. Para Alves, os professores têm que pensar menos nas tecnologias do ensino e começar a sonhar junto com os alunos. Além disso, ele fala que os educadores devem passar a ouvir mais os estudantes e assumir a função de jardineiros. “A escola deve ser um jardim”, diz. Rubem Alves também conta que, na sua vida, o sucesso veio a partir dos fracassos e destaca que o perigo não é algo a ser temido, mas sim cultivado. “É preciso ter coragem para bater as asas.”

E, se “o futuro é a execução imperfeita do desconhecido no presente”, como descreve o professor e cientista Silvio Meira, as seis ondas de inovação de Hargroves e Smith (2005), que remontam ao século XVIII, com a mecanização e o comércio, passando pela energia a vapor e as ferrovias, o motor e a eletricidade, a aviação e a eletrônica, até 1950, e a partir de 1990, quando surgem os softwares e as redes, vão desembocar na tecnologia, na biotecnologia e na sustentabilidade, com projeções para os sistemas em rede, a biomimética, a nanotecnologia verde, e por aí vai. “A internet é hoje apenas um estágio, já que a infraestrutura sempre está atrás das invenções do futuro. Ela é só uma das redes na rede, que permite que elas se comuniquem entre si, por meio de dispositivos. Estamos vivendo a primeira das três ondas da internet das coisas”, conclui.

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