18 fev

As espontaneidades

Quando me canso de escrever, às vezes saio para caminhar ao acaso, pelas ruas do bairro onde moro. As calçadas são muito mal cuidadas, como a maioria das calçadas de São Paulo, com exceção das de algumas pouquíssimas avenidas. Em uma dessas caminhadas, me chamou a atenção um matinho desses que crescem pelas frestas do cimento. Era um daqueles com os galhos rosados que formam bolinhas de diversas cores, rosas, amarelas, vermelhas e roxas. Ele me fez lembrar da infância,  de quando eu gostava desse colorido espontâneo nos aliviando da monotonia do cinza do cimento. Às vezes eu até os colhia e levava para enfeitar a casa, colocando-os num vaso.

Então comecei a divagar sobre a espontaneidade. As plantas que crescem sem ter sido plantadas são a melhor expressão da espontaneidade, pois despontam para a luz como e onde querem. Anos atrás eu morava em uma outra casa, onde tive uma experiência incrível sobre essa questão. O quintal era todo “fechado” por lajotas. Depois de muito hesitar, decidi quebrar uma parte do piso e fazer uma jardineira e dois canteiros relativamente grandes. Foi muito trabalhoso pois nesse processo descobrimos que havia uma sobreposição de 3 pisos. Além disso acabamos furando um cano de água, causando muitos vazamentos. Por conta dessa trabalheira toda eu só consegui plantar na jardineira ao longo do muro e em um dos canteiros. Trouxe terra de um sítio de agricultura orgânica e comprei diversas mudas de trepadeiras e de árvores frutíferas, que se desenvolveram lindamente.

O canteiro abandonado era o que tinha a pior terra, cheia de cascalhos. Mas em menos de uma semana ele estava repleto de mato. Eu me surpreendia com sua variedade e me perguntava se eram sementes que estavam voando para lá ou se elas tinham ficado latentes, debaixo do cimento, aguardando durante décadas por uma oportunidade de florescer. De qualquer maneira, o mato estava se desenvolvendo espontaneamente. Aos poucos  as diferentes espécies do que chamamos de mato foram se substituindo, se sucedendo, até que um dia, poucos meses depois, fui olhar mais de perto e percebi que aquele solo duro e cheio de cascalhos formava então uma camada escura, fofa e úmida. Foi incrível a transformação pela qual aquele solo passou; e eu também, pois essa experiência permitiu que eu vivenciasse aquilo que já sabia: a terra é viva e cobri-la de concreto apenas retarda a expressão de sua exuberância e beleza. Foi uma experiência forte, de sentir que debaixo de todo o concreto, de toda construção humana, em qualquer cidade, em qualquer lugar do mundo, a vida aguarda seu momento de florescer, contida silenciosa e pacientemente nas sementes.

Quando estive em Pirapora, MG, fui visitar a ruína de uma igreja que foi totalmente adornada por uma figueira, cujos troncos e raízes formam um rendado bonito e dialogam com o adobe original. Quem será o mais antigo, o adobe ou a figueira? O adobe, claro, a figueira desenvolveu-se depois que abandonaram a igreja, responderia um turista apressado. Eu pergunto: será?

Semana passada estive em São Luiz do Maranhão. Vi tantos prédios em ruínas e tantas plantas encobrindo adobes e azulejos…essa questão da espontaneidade me acompanhando. Tudo no mundo natural é espontâneo. A gente planta jardins, mas se a manutenção não for frequente ele logo perde a forma original e as plantas seguem seu crescimento como bem entendem.  A gente planta imensos campos de monocultura, modifica geneticamente as espécies, se esforça ao máximo para conter a espontaneidade da natureza, para conseguirmos dialogar com ela de um modo que seja vantajoso para nós. Fazemos experiências com ela como crianças que desmontam o brinquedo para ver como funciona. E ele fica completamente desmontado…

Gosto das florestas nativas que ainda existem por todo o mundo, e que se desenvolvem sem nossa intervenção direta (pois indiretamente intervimos ao cercá-las)  são os estoques de espontaneidade que nos ensinam sobre o fluir original da vida; elas estão nos mostrando um modo de ser totalmente livre e espontâneo. A força vital contida nelas é a mesma, mas muito mais intensa que no mato da calçada ou dos edifícios abandonados.

De tanto admirá-las e contemplá-las fico me perguntando como seriam nossos pensamentos se eles germinassem tal qual as sementes sob o concreto, desabrochando espontaneamente em busca de luz? E se eles seguissem o fluxo de uma samaúma ou um cipó da floresta tropical, que pensamentos seriam esses? Alta filosofia? Pura poesia? Como saber?

Termino com as palavras de Bartolomeu Campos Queirós[1], que parece conhecer as respostas:

Há que se ter paciência dos caramujos

visitando veredas e várzeas sem se

ferir. Vagar sem pressa, polindo com

prata e alma o percurso. Sem se

desviar do acaso, vestido de espiral

e compasso, passear desejos em fio

e luz, serenamente. Estar assim, sem

perdas e heranças. Ser sem volta.

Sorvê-la como seiva que inaugura no

homem um destino vertical. Há que

se somar à natureza até o último

sempre.

[1] Bartolomeu Campos Queirós, Minerações, Editora RHJ, 1991

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe seu comentário