Entrevista com Geraldo Moreira Prado, fundador da Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado
Entrevista realizada por Iuri Rubim e publicada no Blog das Ruas
Entrevista com Geraldo Moreira Prado, fundador da Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado, a maior biblioteca comunitária do mundo instalada em comunidades rurais com até 50 mil habitantes .
É verdade que essa é a segunda maior biblioteca comunitária do mundo?
Segundo uma pesquisa feita na Internet por um jornalista amigo meu aqui do Rio de Janeiro, a Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado localizada no povoado de São José do Paiaiá – Nova Soure – Bahia, é a maior biblioteca comunitária do mundo instalada em comunidades rurais com até 50 mil habitantes.
Quantos livros tem a biblioteca? Existe alguma especificidade que caracterize o acervo?
Calcula-se 48 a 50 mil volumes de livros (científicos, clássicos, didáticos, de referência etc), mas uns 10 mil títulos de periódicos, DVDs etc.
Nesse acervo tem uma média de 2 mil livros raros dos séculos XIX e primeira metade do XX., tais como a Primeira edição de Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, a de Formação da Literatura Brasileira de Antônio Cândido, a primeira edição em espanhol de O Capital de Marx, a edição de 1732 (em francês) da Obra Completa de Molière, La Sage – Gil Blas – em francês, edição de 1876, e muitos outras mais.
Quantas pessoas estão envolvidas diretamente no funcionamento, gestão e manutenção da biblioteca?
Cinco na gestão (diretoria da OSCIP) e umas 15 (varia) como voluntárias no funcionamento da biblioteca.
Como a biblioteca é mantida atualmente?
Tem uma pequena colaboração de pessoas da comunidade que se filiaram e pagam R$ 1 (um real) por mês, eu colaboro com uma outra quantia e de 2007 para cá começaram entrar alguns projetinhos que têm contribuído com alguma ajuda.
É verdade que boa parte das pessoas não sabia o que era uma biblioteca quando ela foi inaugurada?
Sim, algumas pessoas não faziam a menor idéia do que era uma biblioteca.
Teve um caso curioso: um dos caminhões da Viação Itapemirim, que transportou os livros em cortesia, chegou no local na mesma semana que a televisão havia anunciado o roubo dos livros do Arquivo do Itamaraty do Rio de Janeiro.
Uma senhora que estava morando no local e sempre se opôs à idéia da criação da biblioteca, argumentando que ali era um lugar atrasado e que ninguém iria ler - melhor seria criar uma fábrica - saiu espalhando pela comunidade que aqueles livros seriam os mesmos que a televisão dizia que foram roubados do Itamaraty.
Qual a relação de São José do Paiaiá com a biblioteca hoje? E dos distritos e municípios vizinhos?
Acho que está sendo muito positiva. Hoje a biblioteca é caracterizada por uma forte identidade com a comunidade. Isto pode ser notado nas pessoas que migram de lá para outras cidades, inclusive São Paulo.
Elas se orgulham em dizer que no povoado tem uma grande biblioteca onde além de ler livros, revistas e histórias em quadrinhos, pode-se escutar músicas boas e assistir filmes bons e participar de debates sobre vários assuntos.
A própria fachada da biblioteca (citação de Bertold Brecht) sugere um plano mais audacioso de mobilização social. O quanto se avançou nisso?
O poema do Brecht continua lá, o que é muito bom porque tem gerado comentários de algumas pessoas locais que sempre foram protegidos pelos “coroneisinhos”. Claro que os efeitos não vêm imediatamente, mas aos pouco vai se percebendo as pessoas, ao menos, comentarem sobre o poema.
Acho que a fachada da biblioteca precisa ainda ser melhorada para ter uma mobilização maior, tanto local quanto de pessoas de fora.
Já desenvolvemos algumas experiências oferecendo vários cursos: bordado, formação de contadores de história e de produção de textos (financiados pelo BNB), capacitação de professores do ensino fundamental das escolas rurais (BrasilFoundation/Instituto HSBC Solidariedade), tratamento e preservação do Acervo (BNDES), Projeto Sala Verde (Ministério do Meio Ambiente) e Telecentro – inclusão digital (SERPRO).
Quais são os projetos futuros para a biblioteca?
Existem projetos em análise pela Petrobras sobre a instalação de uma escola de formação de padeiros e de capacitação de professores da rede pública em Cultura africana e Afro-brasileira, construção de um centro de produção de brinquedos artesanais, projeto de uma quadra poliesportiva, primeiro seminário de agroecologia do nordeste II da Bahia, baú da leitura para crianças até 12 anos de idade. Esses projetos estão prontos e aguardando a abertura de algum edital para serem inscritos.
Quando você visitou uma biblioteca pela primeira vez?
Tinha 14 anos, foi na primeira vez que fui a Salvador. Nessa mesma época fui com um tio visitar o Colégio Central da Bahia e ele me explicou o que era uma biblioteca.
Lembro que fiquei parado olhando para tantos livros, porque até então eu só tinha um (na Sombra do Arco-Iris de Malba Tahan), presente da então professora Maria Ivete Dias (mãe da cantora Ivete Sangalo) que estava iniciando a sua carreira de professora primária na Escola Rural de São José do Paiaiá.
O meu tio me disse que era naquela biblioteca onde ficavam os livros que ajudavam as pessoas virarem doutores, que na concepção dele eram somente os advogados e médicos, e eu sonhava um dia ser médico, embora minha mãe dizia que isto era apenas sonho de pobre que só pensava naquilo que não podia fazer.
O doutor de pobre, diz ela, era o “doutor pé-de-cama”, o doutor pinico.
E qual foi o período mais difícil que você passou depois que deixou São José do Paiaiá?
Os dois primeiros anos que cheguei em São Paulo, quando só arrumei trabalho como faxineiro e porteiro num prédio no centro da cidade, na zona do baixo meretrício, e os primeiros 10 anos do período da ditadura militar (1964 a 1974).
Você deixava mesmo de tomar cervejas para comprar livros?
Sim, às vezes até de comer. Se passasse por um sebo ou por uma livraria e tivesse um livro que me agradasse, e eu só tivesse o dinheiro da comida ou da passagem do ônibus, preferia ficar com fome e voltar para casa a pé, mas comprava o livro.
Quando resolveu montar a biblioteca? O que o fez levar a idéia adiante?
Em 2002. Primeiro, porque não tinha mais lugar para guardar livros em meu apartamento e achava que não deveria doar para a Universidade porque isto é de responsabilidade do governo. Também não queria vender para sebos porque não adiantava nada.
Aí me veio a idéia de consegui um imóvel no Paiaiá e colocar os livros a disposição daquela comunidade que, como já disse, muito daquelas pessoas que lá vivem não sabiam o que era uma biblioteca.
