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Aliados da Infância

Há 18 anos foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a maior lei brasileira para o menor. Sob o ponto de vista jurídico, trata-se de uma lei tecnicamente muito boa, que serve de referência para o mundo. Portugal, por exemplo, não se inibiu de copiá-la. Está tudo lá: direito à educação, à alimentação, à convivência familiar, à integridade física, à profissionalização, à liberdade... Porém, a realidade que se vê ainda guarda uma distância cruel com a realidade imaginada pelo estatuto. Um mapeamento da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República sobre a aplicação de medidas socioeducativas mostra que 15 mil jovens infratores cumprem as medidas em meio fechado.    
    Ute Craemer 

De acordo com dados divulgados pelo Instituto São Paulo Contra a Violência (ISPCV), recebidos através do Disque-Denúncia 181, os maus tratos contra a criança ocupam a terceira posição, depois de tráfico de drogas e jogos de azar. Um relatório do Ministério do Desenvolvimento Social revela que, em 2006, os Centros de Referência Especializados da Assistência Social (CREAs) atenderam 63.099 meninos e meninas vítimas de violência. Então estamos todos fora da lei? Sob o ponto de vista da nova ética da co-responsabilidade, sim.

Estamos todos fora da lei, mas que isso não nos desanime; pelo contrário. Voltando o olhar para o que é possível fazer, individualmente, vemos exemplos animadores de pessoas que acordam, todos os dias, dispostas a fazer diferença. É o caso da pedagoga Ute Craemer, representante no Brasil da Aliança pela Infância, movimento internacional de apoio e proteção à infância. Ute nasceu na Alemanha e veio trabalhar como Voluntária da Paz em uma favela de Londrina (PR). Em 1975, começou a atuar com crianças em uma favela na zona sul de São Paulo e em 1979 criou a Associação Comunitária Monte Azul (Acoma), considerada referência de trabalho pedagógico e social no mundo inteiro. A favela Monte Azul existe desde 1965 e hoje possui cerca de 3.500 moradores. Além dos voluntários, cerca de dois terços dos colaboradores e funcionários da Acoma são moradores da própria favela. É lá que Ute Craemer desenvolve atividades educacionais com as crianças carentes, baseada nos princípios da pedagogia Waldorf. Hoje, acompanha cerca de mil jovens, realizando atividades não só pedagógicas, mas também profissionalizantes, culturais, sociais e de saúde. Por esse trabalho, a Acoma recebeu vários prêmios internacionais, sendo inúmeras vezes citada como modelo de sustentabilidade.

“A meu ver, sustentabilidade começa com o exemplo do adulto. A criança imita as ações e os gestos do seu entorno, principalmente do adulto, que para a criança é a meta: ser um SER HUMANO. Por isso é importante que o adulto mostre – sem falar muito – o que é apropriado”, diz Ute. O que é apropriado ensinar às crianças para que aprendam a respeitar a Terra e a percebê-la como um organismo vivo? De acordo com Ute, “é prejudicial colocar o peso da destruição do planeta em uma idade em que a criança quer sentir o mundo como bom e belo”. Ela afirma que “a consciência ambiental no sentido mais racional só pode ser ativada a partir da adolescência”. As crianças que são educadas pelos professores da Acoma ouvem histórias e contos nos quais o respeito à natureza é intrínseco, não moralizante, mas a partir da vida.

Vida com qualidade é pré-requisito para sustentabilidade ambiental, seja para a micro-orquídea, seja para a gigante sequóia. A idéia do homem como centro de tudo não combina com mais nada. Ser antropocêntrico no terceiro milênio é ser totalmente desinformado sobre a interdependência de tudo o que existe. Interdependência e interconectividade – essas idéias explicam e justificam o valor da ação individual. Nesse sentido, a profissão do educador é de uma responsabilidade imensa, e sua influência na vida de um estudante pode ser comparada ao efeito de um farol. Um farol hesitante de seu próprio poder de iluminação tem pouca ou nenhuma utilidade para os navegantes. Auto-estima e consciência de si e do valor do magistério são pontos que ainda não recebem a devida atenção no cenário da educação brasileira. Literatura, para alunos e professores, pode ser um caminho promissor.

“A literatura, uma boa literatura, não moralizante, ajuda-nos a descobrir a nós mesmos e o mundo que nos rodeia. A arte, a beleza é que transforma o mundo, segundo disse Dostoievski. Além da beleza, a literatura traz à consciência aquilo que acontece no mundo, só que, conforme a idade do leitor, é preciso ver o que ele agüenta e como ele próprio pode contribuir para que a situação melhore. Biografias de pessoas que conseguiram vencer obstáculos na vida são muito importantes para adolescentes, pois reforçam o ideal que todo jovem tem em si de querer transformar o mundo”, diz Ute.

O que realmente é sustentável na vida são os valores – valores fundamentais como ouvir para compreender, rejeitar a violência, solidariedade entre diferentes. Precisamos ter em mente as fases de compreensão da criança, do jovem, do adulto. Cada um aprende diferente. Não adianta falar para uma criança ‘aprenda a ouvir’, pois ela só aprenderá a ouvir se o educador ou os pais sabem ouvir suas perguntas. Já o adolescente ou o adulto podem ser conscientizados sobre a importância de ouvir”, diz ela.

Portanto, vamos ouvir ativamente. É simples, mas não tão fácil. A escuta ativa nos obriga a calar o próprio ego, exige que nos deixemos preencher completamente pelo outro. Muitas vezes pensamos estar ouvindo, mas, na verdade, já estamos elaborando a próxima fala. Vamos ouvir o que as crianças têm a dizer. Como arquivo virgem e isento de crenças estabelecidas, a criança capta com mais clareza o que os ventos trazem de mais novo para a nova Terra de que tanto falamos, justa e sustentável para todos os seres.

Para ir além

LIVRO

Transformar é possível, de Ute Craemer (Editora Peirópolis),

POR QUE LER?

Para conhecer o trabalho da Associação Comunitária Monte Azul desde sua criação, em 1979, e descobrir como uma verdadeira transformação social é possível, servindo de fonte de inspiração para muitas outras iniciativas.

FILME

Escritores da liberdade (Freedom Writers, EUA, 2007)

POR QUE ASSISTIR?

Para ver como uma jovem professora não deixa que a chama de sua vocação se apague com os desafios que enfrenta em uma escola de ensino médio nos Estados Unidos. A professora Erin (interpretada por Hilary Swank), faz com que seus alunos, envolvidos com gangues, passem a gostar de literatura e mudem seus destinos.

INTERNET

A Aliança pela Infância é um movimento mundial (Alliance for Childhood) que surgiu no final da década de 1990 na Inglaterra e nos Estados Unidos. Sua maior preocupação tem sido apontar caminhos para a solução dos mais diversos problemas que afligem a infância. O incentivo ao brincar, o consumo consciente, o uso cuidadoso das tecnologias e das novas mídias, a educação, a nutrição, a inclusão e a cultura de paz são alguns dos temas que fazem parte de sua área de atuação.
www.aliancapelainfancia.org.br.

Associação Comunitária Monte Azul (Acoma)
www.monteazul.org.br.

Conheça o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Pérola


"Criança não pode trabalhar por um motivo simples: porque ela está muito ocupada sendo criança".
Aleci da Conceição Santos, 11 anos
Conde/BA

Mais pérolas como esta no livro Inventário do que podia ser bem melhor e será, o melhor lugar do mundo.

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