Desafios da Educação: melhorar a qualidade sem gerar desigualdade
Com a palavra, Ricardo Paes de Barros, coordenador de avaliação de políticas públicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), economista reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre desigualdade, educação, pobreza e mercado de trabalho no Brasil
Progresso substancial
“A situação é a seguinte: não há nenhuma dúvida de que o progresso na área da educação no Brasil foi bastante acelerado. Minha visão é otimista no sentido de que estamos sendo, educacionalmente falando, capazes de progredir, embora todos concordemos que isso deveria acontecer de forma mais rápida, mas, em comparação com vários países, esse progresso brasileiro é substancial”.
A complexidade da solução ideal
“Continuamos muito atrasados porque partimos de uma condição muito atrasada. Embora os indicadores mostrem que a proporção de jovens na escola parou de crescer, isso não é tão ruim. Na verdade, a escola é um lugar a que se vai apenas durante um período da vida para se conseguir um diploma. O sistema educacional é um pouco parecido com o trânsito de uma grande cidade: se vemos as ruas cheias de carros, não quer dizer que a cidade é rica porque as pessoas têm muitos carros, mas que o trânsito está engarrafado. O sistema educacional no passado tinha muita repetência. Se nós reduzimos essa repetência drasticamente, as crianças começam a conseguir completar o ensino fundamental e o médio. É como se o trânsito da cidade começasse a fluir e os carros desaparecessem das ruas. Nós melhoramos tanto o fluxo educacional com a redução da repetência que os estudantes estão terminando mais rapidamente o período escolar na vida. O número de jovens que completam o ensino médio está aumentando.”
Jovens sem oportunidade
“Contudo, temos um grande problema: ao fazer as crianças andar mais rapidamente, na verdade o que se gostaria é que os jovens, ao saírem do ensino médio, pudessem entrar logo na universidade, mas nós não estamos ampliando as oportunidades para os jovens. Se melhorássemos o fluxo do trânsito em São Paulo, as pessoas chegariam logo às suas casas e aos lugares onde trabalham, ou seja, passariam menos tempo nas ruas. Se, porém, tivéssemos uma intensa programação cultural gratuita, as pessoas sairiam de novo de casa e veríamos os carros na rua outra vez. É mais ou menos a mesma coisa. Aconteceu que corrigimos o fluxo e não expandimos as vagas no ensino médio e superior. As crianças têm dificuldade para conseguir vagas nos ciclos seguintes. Eliminamos barreiras, o fluxo ficou desimpedido, mas não há vagas para o próximo ciclo.”
O obstáculo da pobreza persistente
“Um lado crucial do problema está no fato de que o progresso não chega a 10% da população há pelo menos duas décadas. Reduzimos muito a taxa de analfabetismo, mas não atingimos 100%. Vários indicadores mostram que progredimos até o ponto em que nos deparamos com esses 10% mais difíceis. É um dado importante e precisamos de ter cuidado com isso. No Brasil existe o discurso de que o problema da quantidade de alunos na escola já foi superado e agora se deve priorizar a qualidade do ensino. Para esses 10%, essa afirmação não faz sentido. Há muitas crianças de oito e nove anos que não sabem ler e escrever. Os não-pobres que já têm seus filhos na escola agora fazem o discurso da qualidade na aprendizagem, mas isso é um posicionamento que exclui aqueles 10%. Nos últimos dez anos, o perfil socioeconômico das crianças mudou bastante no Brasil. Tudo indica que a partir de agora o aprendizado vai melhorar. Foi assim no Chile. Depois de um longo tempo investindo em garantir o acesso à escola para todas as crianças, o sistema se estabiliza para melhorar a oferta de qualidade. A grande questão com a qual lidamos atualmente no Brasil hoje é como melhorar a qualidade sem gerar desigualdade.”
Educação para todos
“A política pública para atingir os 10% implica fazer um mapeamento desse segmento, uma vez que o sistema educacional está desenhado para os 90% que vão à escola. Precisamos saber quem são e do que precisam esses 10%, reconhecendo sua heterogeneidade histórica. Um filho de agricultor que precisa ajudar a família na colheita em determinados meses tem necessidades específicas, e sua realidade deveria ser incluída no sistema. Hoje o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e o Ministério da Educação (MEC) estão com foco nos municípios com os piores desempenhos. Isso é muito bom”.
Livros de amigo para amigo
“Dados do Pisa 2000* mostram que, ao contrário do que se pensa, os jovens brasileiros leem mais do que jovens de muitos outros países – leem mais do que os japoneses, por exemplo, que passam mais tempo na internet e nos celulares. O brasileiro tem menos livro e lê mais que o japonês, que tem mais livros e lê menos. Os russos são os que mais leem. Há uma forte tradição de leitura na Rússia. Uma informação interessante é que os livros rodam de forma inacreditável aqui no Brasil. Existe a cultura do empréstimo de amigo para amigo. Nas Bibliotecas Comunitárias Ler é Preciso, uma interessante pesquisa mostra dois grandes doadores de livros: o próprio Instituto Ecofuturo e as famílias da cidade. Muitas nem vão à Biblioteca, mas veem no livro um objeto de respeito. Existe a tradição de tomar cuidado com os livros, que passam de pai para filho como um objeto para ser zelado. Isso explica como uma comunidade pobre tem tanto livro para doar. Portanto, o gosto e a demanda pela leitura existe. A falta de acesso aos meios eletrônicos ainda abre um espaço importante para o sucesso de políticas públicas de incentivo à leitura no Brasil.”
* O que é o Pisa?
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) tem como foco as habilidades e os conhecimentos de jovens de 15 anos com o objetivo de gerar dados de qualidade que possam responder até que ponto estão sendo preparados para terem uma participação efetiva na sociedade.
O Pisa foi desenvolvido em conjunto pelos países integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), órgão internacional e intergovernamental que agrupa os países mais industrializados da economia do mercado. Sediada em Paris, na França, a OCDE visa ajudar os governos-membros a desenvolverem melhores políticas públicas nas áreas econômicas e sociais. Isso inclui investimentos em pesquisas de avaliação e medição de desenvolvimento, especialmente em relação aos indicadores de desempenho educacional.
Os dados relativos à leitura estão contidos no primeiro ciclo do Pisa, realizado em 2000, do qual participaram 32 países. No Brasil, o Pisa é coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação. Participaram da pesquisa 4.893 jovens brasileiros com idades entre 15 e 16 anos. Confira alguns trechos do Relatório Pisa 2000:
Letramento
“O letramento em leitura é a compreensão, o uso e a reflexão sobre textos escritos
para alcançar objetivos pessoais, desenvolver o conhecimento e o potencial individuais e participar plenamente na vida em sociedade.”
Situação do Brasil
“Contextualizada no cenário mundial e vista sob o prisma da desigualdade que marca seu sistema de ensino, a situação do Brasil é preocupante. O ensino médio de boa qualidade para a maioria ainda é um ideal a ser colocado em prática. No entanto, vista sob o prisma da vontade nacional expressa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a situação brasileira é rica de possibilidades.” (Maria Helena Guimarães de Castro – presidente do Inep).
“A tendência positiva observada no período mais recente é o decréscimo do número absoluto de pessoas analfabetas no grupo etário de 15 anos e mais.”
“Especialmente nos anos 80, verificou-se uma expansão significativa no número de crianças matriculadas no sistema fundamental de ensino. A evolução positiva das taxas de aprovação por série foi sustentada pela queda sistemática das taxas de repetência e evasão, derivada, principalmente, das políticas de não-reprovação implementadas a partir dos anos 80.”
“O desenvolvimento recente do ensino fundamental apresenta como indicador positivo o acelerado crescimento das matrículas de 5ª a 8ª série, que reflete o crescimento das taxas de aprovação nas séries iniciais.”
