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Como sair do caos sem embrutecer?

Leia a entrevista com a psicóloga Dra. Susan Andrews que dá dicas de como se organizar no meio do caos

o pensadorNa edição passada do Planeta Gente, tocamos na delicada tarefa de tentar discernir o que é essencialmente humano dentro de nós. “O que faz seu animal ser gente?” continua uma pergunta aberta que pode embalar nossas reflexões. Em que momento do dia deixamos que nossos instintos animalescos dominem nosso ser humano? Inevitável relacionar essa animalidade e o estado caótico em que se encontra nossa humanidade. Como pergunta atrai pergunta, Planeta Gente quer saber como sair do caos sem embrutecer.

Primeira coisa a fazer: admitir que vivemos imersos no caos. Isso é fácil. Basta olhar pela janela, para quem mora em centros urbanos, ou ligar a TV e ler um jornal. É caos para todo lado. Para abordar esse tema amplo, concentramos nossa atenção nas causas e efeitos do caos na mente humana e conversamos com a psicóloga Susan Andrews, norte-americana que se abrasileirou desde que veio para a Eco-92, no Rio de Janeiro, e hoje coordena uma ecovila no interior de São Paulo.Susan Andrews

O trabalho de Biopsicologia feito por Susan Andrews é fundamentado no controle que cada um de nós pode ter sobre a própria saúde física e psíquica através do bom uso do estresse. Por meio de automassagem, relaxamento profundo e outros cuidados, Susan Andrews vem ajudando milhares de pessoas a organizar seu caos particular transformando o estresse ruim em estímulo positivo. Acompanhe o que ela diz sobre nossa paisagem bioquímica, ambiente onde pode estar a solução para sair do caos (ou estar nele) sem embrutecer.

Leia mais sobre o caos que nos rodeia antes de o mundo ser mundo

O caos nosso de cada dia

Planeta Gente – É verdade que existe o bom estresse?

Susan Andrews – Sim. O estresse ruim todos conhecemos, mas, para acessarmos o estresse favorável, precisamos conhecer nossa bioquímica. Os neurotransmissores e os hormônios (polipeptídios) são diretamente influenciados por nossos estados emocionais. Por exemplo, a raiva é o excesso de cortisol (hormônio da agressividade); o amor é a oxitocina; a falta de autoconfiança é a baixa testosterona ou o baixo estrogênio. Quando a adrenalina é secretada de forma curta e rápida, somos tomados por impulsos de ação e foco mental, mas quando a secreção de adrenalina é longa e sem pausa para recuperação, o estresse se torna prejudicial. Além disso, a permanente produção de adrenalina faz o corpo recorrer à secreção de cortisol, que, em excesso, se torna um veneno no nosso organismo. É nessas condições que vivemos nas grandes cidades. O ritmo de trabalho e o caos do trânsito nas ruas, sem falar no estado constante de insegurança por causa da violência, nos levam ao estresse permanente sem pausas para recuperação, enfraquecendo o sistema imunológico e matando as células cerebrais, o que explica a freqüente perda de memória. Outra situação na qual o cortisol é secretado além da conta é na hostilidade. Quando sentimos raiva ou agressividade, o corpo libera 40 vezes mais cortisol que o normal. Excesso de cortisol está diretamente ligado à violência.

PG – O que podemos fazer para não sermos vítimas do estresse ruim?

Susan – Criamos um programa chamado Spa em Casa, que requer 15 ou 20 minutos todos os dias e faz parte do programa Transforma, ministrado por mais de 100 facilitadores em 20 cidades do Brasil para empresas, funcionários públicos e educadores – porque professor é uma das profissões mais estressantes que existem. 

PG – Em linhas gerais, em que consiste esse programa?
Susan –
  O programa pode ser praticado de 15 a 20 minutos regularmente pela manhã, e esse pouco tempo pode mudar nossa atitude por todo o dia. Trata-se de fazer respiração diafragmática, exercícios de biopsicologia, automassagem e relaxamento profundo. A respiração diafragmática, como diz o nome, implica mobilizar de fato o diafragma enquanto respiramos. É esse movimento que estimula o sistema nervoso parassimpático e produz a ”resposta de relaxamento”, que se opõe  à ”resposta do estresse”, ou seja, de “lutar ou fugir”.  Os exercícios de biopsicologia consistem em repetir certos movimentos simples e suaves, com pausas físicas e respiratórias. Essas posturas massageiam as glândulas suprarrenais, recondicionando a secreção glandular. A automassagem e o relaxamento profundo melhoram o funcionamento mental e estimulam a chamada ”coerência cardíaca”, ou seja, modulam nosso estado mental. Assista ao vídeo com o passo a passo dos exercícios

Receitas práticas para controlar seu nível de tensão

Veja algumas dicas para diminuir seu estresse:

• Respire corretamente usando o diafragma

• Faça breves pausas de dez minutos no trabalho. Quando se sentir tenso, pare por alguns minutos e faça uma massagem relaxante em si mesmo

• Faça 15 minutos por dia de exercícios de relaxamento, como meditação, por exemplo.

• Preocupe-se com sua alimentação. Evite ingerir alimentos ricos em gordura e também aqueles que excitam o sistema nervoso (como café, chá preto e refrigerantes à base de cola).

• Não dependa de sua memória. Escreva tudo o que você tem a fazer, o dia em que suas contas vencem e todos os compromissos numa agenda.

• Organize-se! Deixe seu quarto ou local de trabalho em ordem, de modo que você saiba exatamente onde as coisas estão.

• Prepare-se para o dia seguinte na noite anterior. Faça uma lista das coisas que precisa fazer, separe a roupa que vai usar, tire do freezer o que vai precisar, coloque em ordem os pagamentos que vencem naquela data.

• Deixe 15 minutos de tempo extra para chegar aos seus compromissos.

• Exercite-se ou caminhe pelo menos 30 minutos por dia.

• Aprenda a dizer “não” e recuse projetos e convites sociais para os quais você não tem energia.

• Faça amizades com pessoas despreocupadas e pacientes. O estresse é contagioso!

• Todos os dias faça algo que realmente ama fazer.

• Tenha uma atitude misericordiosa com as pessoas e pense positivamente.

PG – Qualquer pessoa pode fazer esses exercícios? Qual o horário ideal?

Susan – Sim, guardadas as devidas proporções relativas a idade e saúde, todos podem se beneficiar dessas práticas. Indicamos as primeiras horas da manhã, logo ao acordar, aumentando a chance de garantir um estado físico e mental positivo para o resto do dia. Na impossibilidade desse horário, os exercícios podem ser feitos depois de um dia estressante, evitando desmoronar em frente à TV e não conseguir interagir com a família. Negligenciar os filhos por estresse é algo compreensível, mas que pode ser superado com boa vontade, considerando os efeitos desastrosos para as crianças e as próximas gerações.

PG – As crianças estão cada vez mais seguindo o ritmo estressante dos adultos. O que podemos fazer para evitar isso?

Susan – Nós desenvolvemos um programa que se chama EduCoração, que é uma educação para a inteligência emocional. Uma pesquisa apontou que 15% das crianças brasileiras já manifestam sintomas de depressão. Nos Estados Unidos, centenas de milhares de crianças estão tomando Prozac na merenda escolar. As crianças estão cada vez mais deprimidas, hiperativas e agressivas – e apenas alterar o currículo escolar convencional não melhorará essa situação. É preciso haver uma educação para o coração, para as emoções. Precisamos ensinar a criança desde pequena a manter seus níveis de cortisol saudáveis e a abrir seu coração para cooperar, amar e compreender. Os pais, por sua vez, precisam aprender a colocar limites sem mobilizar um excesso de cortisol nos seus filhos, prejudicando sua saúde e podando sua inteligência emocional. As pessoas estão sem tempo e energia para amar. Elas precisam resgatar sua capacidade de se conectar. Se uma pessoa não tem muito tempo para estar com os filhos, por exemplo, mas que durante o pouco de tempo de que dispõe com eles despeja uma chuva de afeto e energias positivas, isso ocasiona uma bioquímica saudável nela e nos filhos.

PG – É correto afirmar que aprender a controlar e cuidar das próprias emoções é uma maneira de ajudar a diminuir o caos que nos cerca?

Susan – Certamente. Você não ilumina uma sala escura apenas falando sobre uma lâmpada; é preciso acendê-la. Nós precisamos fazer coisas práticas para acender essa luz dentro de nós, porque ela está coberta pela escuridão das emoções negativas, como a raiva, a depressão, o medo, a falta de fé em nós mesmos. Precisamos dissolver essa escuridão das emoções negativas e realizar a luz que está dentro de cada um de nós. É hora de todo mundo refletir de que lado está. Uma vez que a pessoa harmonizou seus hormônios, equilibrou sua mente e assumiu a responsabilidade por sua própria saúde, ela começa a irradiar uma energia positiva. Cada pessoa no seu campo de ação pode ser uma luz para os demais.

Para ir além:

POEMA EM LINHA RETA (Fernando Pessoa, através de Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe − todos eles príncipes − na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos − mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

A morte devagar (de Martha Medeiros, poeta gaúcha)
Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo. Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção, e sim destino: então, um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Reportagem da revista Marie Claire sobre e as relações tóxicas e  Ecologia Emocional