Profissão Carroceiro: Paulo Aurélio Silva, 55 anos
“Semeio cultura popular, e minha vida será isso até o fim. Ficou claro que sou um ecomissionário, um semeador de leitura”

Paulo, conhecido como um semeador de leitura, faz parte da Rede Cultural Ler é Preciso. Para comemorar o Dia da Leitura em 12 de outubro, ele está organizando um sarau literário com seus colegas alberguistas. Com sua carroça percorre os bairros de São Paulo coletando material para reciclar. Embora ainda viva externamente na dimensão dos excluídos, hoje ele se percebe como um homem que reciclou a si mesmo.
Em poucos minutos de conversa, Paulo logo se desculpa pela empolgação de falar muito e rápido, pois está vivendo um momento especial: nasceu seu primeiro neto, sua carroça e suas idéias participam da I Feira de Arte, Cultura e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e ele próprio nunca esteve tão seguro de sua razão de viver.
Essa empolgação pela vida tem vários nomes para Paulo: auto-estima, maturidade, humildade, gratidão, esperança. Há dois anos, ele mora no Albergue Esperança com muitos outros homens que perderem ou nunca tiveram um lar. Sai às 6h, depois do café coletivo, e passa o dia às voltas com suas duas carroças – e logo com a terceira, já encomendada.
“O rapaz que faz carroças só faz para carroceiros, para quem ele sabe que precisa”, diz.
Catador desde criança, Paulo também ajudava no bar de seu pai, na Baixada do Glicério, em São Paulo, onde conhecia todos os ferros-velhos da região. Estudou até o terceiro ano do antigo ginásio, quando assumiu seu network no mundo da reciclagem e trabalhou sete anos na região da Sé. As páginas seguintes desta história revelam um mergulho profundo no universo sombrio da exclusão social, cercado de drogas e criminalidade. Livre do crack, Paulo tem consciência de que causou danos ao corpo físico. Longe de resignar-se, entusiasma-se ao falar da primazia da saúde espiritual.
“Você pode perder tudo: trabalho, casa, roupa, o respeito dos outros, mas a sua essência você não pode perder. Não importam e não me interessam mais as causas que me fizeram trilhar os caminhos que me trouxeram até aqui. Eu vivia sem saber a razão da minha vida e agora me emociono só de falar desta certeza que tenho hoje de trabalhar pela ecologia humana. Se todo o ecossistema trabalha por você, por que você não pode trabalhar por ele? Hoje sou um homem em transformação, um buscador da cura, e tudo o que sou devo 30% ao Instituto Ecofuturo, 30% à Folha de S. Paulo e 40% à minha força de vontade”.
Cuidando de si mesmo
Paulo mantém uma rotina disciplinada: toma acerola todo dia e come tofu e pão integral sempre que pode. Faz jejuns regulares, meditação e muito exercício com sua carroça, que carrega até 800 kg.
“A próxima vai agüentar uma tonelada”, fala com alegria. Antes de virar alberguista em São Paulo, ele viveu durante um ano na mata de Corumbiara, em Rondônia, coordenando uma agrovila com 24 famílias do Movimento dos Camponeses de Corumbiara (MCC). Enquanto não realiza seu maior sonho, de ter um pedacinho de terra para plantar, Paulo não perde a oportunidade de participar de seminários, cursos e congressos. No evento da USP, ele adorou ouvir o professor Carlos Rodrigues Brandão, da Unicamp, dizer que os catedráticos deveriam aumentar muito mais sua participação nos movimentos sociais.
“É melhor participar da rádio-peão do que ser interlocutor de grupos de gestão”, brinca ele, lembrando ainda o economista Paul Singer: “As lideranças sociais que não se renovam acabam sendo engolidas pelo sistema”. Paulo diz: “O verdadeiro líder não esquece que, além de ir para mesas de negociações, tem de se ocupar em formar novos líderes”.
Sobre o fato de ser um ecomissionário, ele diz que precisamos nos ligar com a inteligência coletiva e nos religarmos com nosso eu interior.
“O problema com os mestres são os mestrinhos que vêm junto querendo fazer igreja. Jesus foi um morador de rua e, quando disse para oferecermos a outra face, era simplesmente para aprendermos a não retribuir uma ofensa. O lado de fora acabou; o homem agora tem de olhar para dentro de si”.
Leitura desde cedo
Paulo adora ler. Precisa ir ao oftalmologista, mas antes está cuidando dos dentes. Quando pequeno, ele tinha um vizinho chamado Abinoel de quem recebeu doação de leitura. O vizinho emprestava clássicos de literatura e depois fazia perguntas para verificar se o garoto tinha lido. Esse garoto de 55 anos que nasceu sob um signo de ar não perdeu o hábito de ler. Devora tudo o que encontra, e as três carroças estão aí para provar que não é pouca coisa. Conta ainda sobre muitas outras idéias e é categórico quando diz:
“Se eu me engajar em um projeto, dou 70% de garantia de que ele não degringola”.
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