Desenvolver é diferente de crescer

Este sonho voltou a ocupar espaço na mídia nacional no início de junho, com a divulgação de documento da Academia Brasileira de Ciências. A proposta, compartilhada por grandes nomes da ciência no país, defende um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia, que transformaria a região em pólo tecnológico, em um projeto que se inspira no exemplo de desenvolvimento da cidade de São José dos Campos, com a criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Em 1950, a cidade era atrasada e tinha 20 mil habitantes; hoje, abriga a quarta maior indústria aeronáutica do planeta. O pólo tecnológico na Amazônia reforçaria a pós-graduação local e formaria 700 novos doutores por ano a partir de 2009. Os pesquisadores acreditam que em três anos o número de profissionais com PhD da Amazônia subiria para 4.700. Tempo previsto para implantação desse pólo amazônico: 10 anos; investimento: R$30 bilhões.
Parece muito? O engenheiro florestal do Instituto Ecofuturo, Paulo Groke, lembra o estudo realizado pelo World Watch Institute e citado pelo físico Peter Russel em seu livro Buraco Branco no Tempo. Para salvar o mundo, diminuindo o fosso entre nações ricas e pobres, bastaria investir US$730 bilhões em seis anos. Quem se espanta com essa quantia deve assustar-se mais ainda ao saber que o comércio mundial de armas movimenta, em apenas um ano, mais de US$1 trilhão.
Crise de percepção
O homem vive hoje, na verdade, uma crise de percepção. A fonte do problema está em nosso pensamento, em nossas atitudes e em nossos valores. É o que afirma Russel. Sabemos o que estamos fazendo com o planeta e com nossas chances de sobrevivência na Terra, sabemos o que fazer para deter essa destruição, mas falta-nos disposição para agir. Por quê?
“Precisamos descer do pedestal de espécie mais inteligente e nos igualarmos a todas as espécies vivas moradoras do planeta, como nós”, diz Groke, que trabalha com restauração de ecossistemas no Parque das Neblinas, reserva da biosfera da Mata Atlântica que fica ao lado do Parque Estadual da Serra do Mar, em Bertioga (SP). A missão do Parque é fazer da área uma “vitrine de práticas sustentáveis”, unindo homem e natureza por meio do aprendizado e do convívio com o ambiente natural. “Sou um fervoroso adepto do plantio de árvores, que é uma atitude meritória por si só, pois tem aspectos benéficos imediatos, como proteção de solos, de recursos hídricos, incremento à biodiversidade e melhoria do microclima, mas me assusta um pouco ouvir discursos que começam e terminam no ato de plantar árvores”, diz ele, referindo-se à tendência de plantio para neutralização das emissões de carbono pelas atividades humanas. Para ele, as pessoas agem como se o plantio fosse um indulto pelo impacto que empresas e indivíduos produzem. “Plantar é sempre bom, mas é fundamental que cada um reavalie a sua forma de se relacionar com o planeta”, conclui.
Sobre a restauração de florestas tropicais, é no mínimo ingênuo achar que uma floresta, uma vez derrubada, voltará a ser como antes – pelo menos em um lapso de tempo menor do que algumas centenas ou milhares de anos.. “Calcula-se que 35% da biomassa da Mata Atlântica seja composta pelas árvores; o resto são organismos (outras plantas e animais) que vivem e interagem entre si neste complexo ecossistema. Por isso é um engano achar que teremos de volta a floresta original, com toda a biodiversidade que havia antes”, afirma Groke. Voltamos ao ponto de mutação. Falta-nos capacidade para ver além do que os próprios olhos mostram.
Século XXI e expansão de consciência
A Amazônia do século 21 não admite mais que ainda usemos as palavras crescimento e desenvolvimento como sinônimos em discursos vazios e dúbios. “O termo crescimento sustentável é uma falácia”, diz Groke. Crescer implica consumir recursos. Se os recursos são finitos, não há como crescer indefinidamente. “Já o conceito de desenvolvimento sustentável é aceitável, desde que levemos em conta que essa meta é um alvo móvel – ou seja, precisamos balizar nossa caminhada rumo à sustentabilidade alimentando-a com informações científicas que indiquem erros e acertos”.
Groke vê como um dos maiores obstáculos para transpormos essa crise de percepção e consciência o fato de não conseguirmos agir como uma coletividade alinhada na mesma intenção. Diz ele: “O homem retira 30% a mais do que o planeta é capaz de recompor. Quando o orçamento doméstico mostra uma conta assim, o que fazemos nós, como indivíduos? Imediatamente revemos nossas contabilidade e hábitos”. Se a conta do planeta está tão deficitária, colocando em risco todos os seus habitantes, por que então não conseguimos agir coletivamente para reverter essa situação?
O fato é que tanto os interesses quanto os interessados divergem bastante. O climatologista Carlos Nobre, integrante do grupo que preparou o documento por uma Amazônia sustentável, disse à Folha de S. Paulo (01/06/2008): “Não queremos vencer o jogo com a pecuária; queremos começar outro jogo”. Na mesma reportagem, a geógrafa Bertha Becker disse o seguinte sobre nossa política de áreas protegidas: “A política de áreas protegidas não está protegendo e não gera riqueza e trabalho (...); a Amazônia vive um crescimento econômico do século 19, destruindo floresta para fazer carvão e destruindo fauna e flora para botar pastagem. Poucas pessoas conseguiram internalizar a realidade atual do século 21”, diz Becker.
É verdade. A ficha ainda não caiu direito para a maioria de nós. Anúncios neste mês do meio ambiente convocam a sociedade para plantar árvores. Tudo indica que o século 21 vai exigir mais de nós. Plantemos, sim, mas ao lado de cada semente real poderíamos começar a exercitar outro tipo de semeadura: a da dúvida. Será que estamos no caminho certo? Será que isso é suficiente? Será que estamos fazendo o melhor que podemos?
Se foram as certezas que nos trouxeram até aqui, não será exagero considerar que a Terra seja merecedora de dúvidas – humanas e honestas dúvidas.
Para ir além:
Para saber mais sobre o documento Amazônia: desafio brasileiro do século XXI – a necessidade de uma revolução científica e tecnológica, acesse www.abc.org.br.
Para assistir a vídeos e saber mais sobre a obra de Peter Russel, acesse http://br.youtube.com/watch?v=2RJxOzxg3dY&feature=related.
Leia também:
- Não somos donos da teia da vida
- Ecologia e literatura com Márcia Ventura Dias