Ecologia Humana

Convidamos a voltar o olhar para dentro do ser que mais modifica o lugar em que vive: o homem. Não conseguimos dar uma saidinha de casa sem deixar para trás uma pegada ecológica causada pelo uso de um copinho plástico ou de um guardanapo usado ou por queimar combustível. Se agimos assim com o meio ambiente, o que dizer da nossa paisagem interna? Guerras, miséria e violência estão aí fora (e dentro também?!) para mostrar que não cuidamos nada bem de ambientes em geral. Voltar o olhar para dentro de nós implica querer buscar autoconhecimento, o que requer boa dose de disposição pessoal: dá trabalho, cansa, desanima,faltam respostas...
Há pessoas com mentes brilhantes que dedicam a vida a pesquisar o ser humano, como Lia Diskin, inspiradora da coluna deste mês. Ela é jornalista, crítica literária, escritora, pensadora e co-fundadora da Associação Palas Athena, que promove cursos e programas filosófico-culturais. Conversamos com ela sobre este misterioso universo que é a essência humana e suas idéias tornaram-se pano de fundo desta edição (citações):
Quem se nega a seguir pela vida com a humildade de um eterno aprendiz cultiva forças desagregadoras e, se existe uma verdade em nossa evolução, é que “a fila anda”. Alguém já disse que o sonho de quem sonha sozinho não dá em nada. A pessoa não estabelece redes, não se envolve e, portanto, não se desenvolve. Moléculas desagregadas jamais formarão uma célula; pelo contrário. Desagregar é uma atitude cancerígena.

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Talvez a percepção seja de que não, se limitarmos nossas fontes de informação aos telejornais diários. Além dos fatos isolados ganharem manchete, notícia boa ainda não vende jornal. Só que a História é mãe de todos e não acontece da noite para o dia, mas na coleção de todos os dias e de todas as noites, desde os primórdios, sem deletar uma só linha. Lia Diskin nos lembra:

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O escritor Luiz Mendes desafia Lavoisier ao dizer que não acredita em transformação. Como assim? Luiz teve uma infância pobre, cresceu nas ruas de São Paulo roubando pedestres e consumindo drogas até cumprir 30 anos de prisão. Hoje ele é escritor, colunista da Revista Trip e viaja o País todo fazendo palestras e oficinas de leitura. “Nós não deixamos de ser quem somos para sermos outros. Acredito que aperfeiçoamos o que somos ou degradamos. Mas ser diferente do que somos é impossível. No fundo, sei que não somos, vamos sendo de acordo com o que a vida propõe. Não deixei de ser aquele menino a vida toda, mesmo agora, com 56 anos de idade. Sou eu mesmo, com todas as fases da vida que vivi. Isso me compõe e não divide entre um outro ser que supostamente eu possa construir”, diz Luiz, que vai mais fundo nesse relato:
“A violência entrou em minha vida começando pelo alcoolismo de meu pai e os espancamentos a que ele me submetia, alcoolizado. Depois a rua foi uma mãe cruel em que comecei a apanhar dos mais velhos, da polícia, dos comissários de menores, carcereiros e de todo mundo. Eu tenho consciência de sempre estar correndo de alguém que queria me pegar. Não se sai dessa freqüência. A gente vai se disciplinando, aprendendo sobre a dor dos outros, ultrapassando limites, admirando pessoas, amando-as, querendo bem a elas e entrando numa de ajudá-las até o limite de nosso possível. Então, fica incoerente estar assim e ainda deixar rolar a violência que dorme em nós. Estar professor também é algo fortíssimo por conta da responsabilidade de ensinar certo. Não se ensina violência, isso se aprende com a vida”, diz ele.
Antes de falar de violência, Lia Diskin ressalta a diferença de significados entre agressividade, violência e assertividade:

“Estudei Jornalismo na Argentina e minha especialização foi em Crítica Literária. Um dos professores visitantes era Jorge Luis Borges. Lembro até hoje o impacto que provocou em mim uma de suas aulas magnas, na qual discorreu sobre as parábolas de Zenão de Eleia. Estava descrevendo um jogo de xadrez em que as peças se moviam dentro do tabuleiro e de pronto eu fui tomada pelo espanto: como um homem que era cego — Borges perdeu a visão quando jovem — conseguia me fazer ver? Eu estava "enxergando" o que ele desenhava com a palavra! Essa sensação de estar vendo paisagens, personagens, enredos, conceitos que os livros nos oferecem provoca um grande deleite e pode alavancar lembranças que pensávamos esquecidas ou nos catapultar a um espaço criativo nunca acessado antes.”
A palavra é o “meio pelo qual”. Com ela, podemos embarcar em um turismo interno para tentar conhecer e discernir o que é pensamento individual, o que é pensamento coletivo e como nos posicionar com equilíbrio e harmonia nessa dança. Há pesquisas indicando que repetimos milhões de vezes os mesmos pensamentos durante o dia. Falemos, portanto, em pensamentos benevolentes ou amigáveis, aqueles que surgem na mente, mas mantêm uma forte e misteriosa conexão com os sentimentos que despertam no coração.
O ensimesmamento proporcionado pela leitura nos permite fazer contato com aquele algo dentro de cada ser humano que precisa de vínculos reais com o mundo para existir plenamente. Isso faz da leitura um inestimável guia rumo ao ambiente interno de cada um. É lá que a semente do que realmente somos pode estar. Como ela está? Rompeu a casca ou espera uma chance? O que a leitura pode realizar no sentido de trazer à tona nossa essência primeira?
“Além de ser uma fonte de prazer, onde a imaginação quebra os limites que a realidade impõe, a leitura educa o pensamento e permite identificar sentimentos que, vividos por personagens externos a nós, são percebidos com modulações e ritmos que geralmente não conseguimos enxergar em nós mesmos. Os livros nos oferecem os macromapas do humano, que sempre se atualiza com novos olhares vindos de infinitas perspectivas possíveis. Para haver transformação, o leitor tem de se expor à influência daquilo que está lendo, tem de convidar o livro para ingressar no seu mundo particular e estabelecer com ele um diálogo silencioso.”
"O que acontecia comigo era simples: possuía um conhecimento do mundo. Ao aprender a ler e, assim, entender melhor esse mundo, tal conhecimento não se sustentava. Só me restava fazer uma releitura e reinterpretação desse mundo. Simples". (Memórias de um Sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, pág. 461).
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Quando uma linguagem de amor se faz presente, a terra se encanta pela semente, aceita o broto e tudo o que vem com ele. Quem não viu ainda uma semente romper o asfalto? Por isso, muito antes, lá, no cerne mais sutil, a semente é árvore, a lagarta é borboleta e o homem... O que existirá no coração do homem? Haja turismo interno! Para fechar o pacote, uma última deixa para quem quer o passaporte dessa viagem:
“Simplificar os espaços de nossa vida pode ser uma pista: começando pelos mais concretos e visíveis. Não criar necessidades desnecessárias e eliminar o supérfluo. A simplificação é um instrumento precioso para priorizar o que é verdadeiramente significativo. Menos, menos... acaba sendo mais”. (L.D.)
Para ir além:
NA REDE
Carl Sagan apresenta o pálido ponto azul.
LIVROS
Mata — contos do folclore brasileiro; e Terra — Lampião e a Baronesa, de Heloísa Prieto, ed. Companhia das Letrinhas.
Por que ler: porque é preciso não deixar que as histórias da nossa própria terra sejam esquecidas, porque nos significam e contextualizam. Os contos da autora falam de tradição, relembram personagens quase apagados da memória e atualizam tudo com muita graça.
Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, ed. Companhia das Letras.
Por que ler: para mergulhar na realidade de quem surfou de corpo e alma pelo lado mais escuro da humanidade, mas teve coragem de romper a semente e sobreviver tentando ser o que realmente é.
Ética, valores e cidadania, ed. Peirópolis-SP; Uma ética para o terceiro milênio, ed. Mercuryo-SP; O dragão e a borboleta, ed. Axis Mundi-SP; Paz, como se faz, Unesco — autoria Lia Diskin.
Por que ler: pela paz e pela esperança que a autora semeia no coração dos homens.
O jardineiro que tinha fé, de Clarissa Pinkola Estes.
Por que ler: a autora fala que “as histórias que vivemos são carregadas conosco para onde quer que caminhemos”, como sementes que se espalham. “Histórias são parentes vivos”, diz ela, aconselhando-nos a “exercitar músculos de contar histórias”.
FILME
Muito além do jardim (1979), direção de Hal Ashby, com Peter Sellers e Shirley MacLaine
Por que assistir: o roteiro, inspirado em romance de sucesso escrito pelo polonês Jerzy Kosinski, trata da necessidade que as pessoas têm de ver além das palavras e imagens.
Leia também:
- Alfabeto = "o homem em sua casa"
- Não somos donos da teia da vida
- Desenvolver é diferente de crescer
- Ecologia e literatura com Márcia Ventura Dias
