Palavra Cantada com a palavra
O que é que tem na sopa do neném? Goiaba, goiabeira, manga, mangueira... Quem não conhece essa música? Tem gente que já não é mais criança e cresceu ouvindo os sucessos dos músicos Sandra Peres e Paulo Tatit. A dupla Palavra Cantada faz isto: transforma algumas verdades simples da vida justamente em palavra cantada, levando alegria e animação às crianças.

Acompanhem nossa conversa sobre música, ecologia e literatura.
Ecofuturo: O trabalho de vocês é muito especial. A forma cuidadosa como compõem e apresentam suas músicas para o público infantil agrada adultos também e hoje é uma referência na área da música infantil moderna. Como vocês perceberam que havia esse espaço? O que significa ser cuidadoso na hora de criar e compor para a criançada?
Paulo Tatit e Sandra Peres: No início, quando começamos, em 1994, não percebíamos quase nada daquilo que estávamos começando a fazer em matéria de música para crianças. Nossa única preocupação era a de fazer um trabalho original, com canções originais, que tivessem a ver com a criança de hoje em dia. Com o tempo, fomos nos dando conta do envolvimento dos pais e percebendo também que estávamos ocupando um espaço meio vazio dentro da cultura musical brasileira: a música de qualidade para crianças. Ser cuidadoso é compor uma música que tenha alguma coisa de original; procurar fazer uma letra bem casada com a melodia, e que, de preferência, fique na esfera da poesia. Depois, um arranjo instrumental bem casado com a maneira de interpretar, para que a música fique bem acabada. Ainda há a preocupação em gravar bem e mixar com a melhor qualidade de som possível. Somos muito preocupados em fazer um CD com sonoridade moderna, que possa ser tocado ao lado de qualquer outro disco bem produzido. A interpretação é um item de que cuidamos muito, pois sempre privilegiamos um resultado que crie proximidade entre a criança e o adulto, sem estereótipos e modismos.
Ecofuturo: A gente percebe que suas letras trazem recordações para quem já passou por aquilo ou possibilitam identificação para quem ainda está passando pela situação que é cantada. Qual é a receita? De onde vem a inspiração?
Paulo Tatit: Cada letra ou canção vem de um lugar: pode ser que uma criança fale uma frase que te inspire, pode ser que contem um caso que aconteceu de verdade e aquilo dá motivação para compor. No meu caso, preciso estar em fase de criação para que a inspiração aconteça com freqüência. Quando a gente começa a fazer um novo disco, fico mobilizado a transformar todas as minhas experiências cotidianas em música. Algumas composições ficam boas e, de fato, vão parar no disco; outras idéias ficam incompletas e devem permanecer esperando uma nova oportunidade para serem retomadas e concluídas, e outras são simplesmente descartadas com o tempo.
Sandra: Minha inspiração vem da observação diária de tudo o que encontro. Uma árvore, uma palavra, o gesto de uma criança, um bicho. Vale tudo. Quando estou mobilizada para realizar uma criação, sento no piano e fico ali, recebendo informações preciosas. Em geral, consigo aproveitar grande parte delas.
Ecofuturo: Escolas públicas e particulares de muitos Estados têm adotado os produtos do catálogo da Palavra Cantada em suas atividades cotidianas. Como vocês se sentem ao serem apreciados de norte a sul do País por todos, sem distinções?
Paulo: De fato, isso vem acontecendo cada vez mais, e hoje estamos surpresos em verificar como nosso trabalho se expandiu para lugares distantes, mesmo sem o apoio da televisão. Vai indo de mão em mão, de boca em boca. Isso me deixa particularmente muito feliz, pois sinto que o nosso trabalho repercute e faz sentido para as pessoas, para pais e filhos.
Sandra: Foi uma grande surpresa ter nosso trabalho nas escolas. Nunca imaginávamos isso, e fico feliz de perceber que os professores são cuidadosos com seu material. Assim, as famílias que não conhecem nossas músicas ficam conhecendo diretamente com suas crianças cantando em casa.
Ecofuturo: Na opinião de vocês, qual a importância de a criança ter acesso ao livro e à leitura logo nos primeiros anos de vida?
Paulo: Eu acho importante e, principalmente, gostoso, prazeroso a criança ter contato com os livros – claro que com livros infantis, de acordo com a idade dela. A criança poderá aproximar-se espontaneamente de um livro e adquirir o hábito da leitura. Sou contra as escolas ficarem mandando que seus alunos leiam esse ou aquele livro de literatura, pois, em geral, recomendam livros em desacordo com a idade escolar. Lembro que, quando tinha nove ou dez anos, fui obrigado a ler o livro O Tronco do Ipê, de José de Alencar... Foi uma experiência que só me afastou da idéia de leitura.
Sandra: Quando a criança convive espontaneamente com a leitura, essa atividade se torna parte de sua vida, e não um dever de casa.
Ecofuturo: Em que medida a música pode colaborar para despertar na criança o interesse pelo ambiente que a cerca e, a partir disso, fazer com que ela busque conhecer e proteger a natureza?
Paulo: Acho que, para despertar o respeito pela natureza, a música pode não ser o melhor veículo. Aliás, acho que a música não é um bom veículo para tratar de coisas objetivas. A música se dá melhor no campo subjetivo, psicológico, anímico, espiritual, enfim, no terreno das coisas imateriais. No entanto, se a música, mesmo tratando desse tema, for bonita, bem engendrada e conseguir despertar o interesse da criança, ótimo. Eu mesmo acabei de fazer uma música sobre o tema de preservação através da saga de um papagaio. Em breve vou poder responder se ela comunicou certinho ou não.
Sandra: A música é uma grande fonte de inspiração. Tudo o que uma música diz pode ser imediatamente repetido pela criança, e se a mensagem passar por esse assunto, a música pode se tornar um grande veículo.
Ecofuturo: É possível falar/cantar de sustentabilidade para crianças? Como? Qual música vocês elegeriam como transformadora de consciência nesse sentido?
Paulo: Talvez seja possível tratar desse tema e ter uma boa idéia para a que a canção não fique “dura”, mas não conheço nenhuma. Quando compus Ora Bolas, junto com a artista plástica Edith Derdyk, pensávamos em dar uma dimensão abrangente para “menino”, que é o sujeito da história, fazendo com que o ouvinte percebesse que ele faz parte de um todo: sai do menino e sua casa até o planeta. Essa música é um dos nossos sucessos, mas não sei dizer se é por causa dessa mensagem ou porque é uma canção gostosinha... É difícil saber o que faz com que as crianças gostem dessa ou daquela música.
Sandra: A música Ciranda, de minha autoria e de Zé Tatit, é muito especial: fala que o mundo não pertence a uma pessoa só e que o mundo é de todos nós. Acho que esse tema se relaciona com sustentabilidade, pois a participação de todos é fundamental.
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