Seções
Você está aqui: Página Inicial > Publicações > Publicações > Conheça o pensamento de Márcia Ventura Dias
Ações do documento

Conheça o pensamento de Márcia Ventura Dias

 

Márcia Ventura Dias é educadora de crianças que estão nas ruas, presidente da Associação Beneficente Santa Fé, que acolhe e trata meninos e meninas que vivem nas ruas da capital paulista — inclusive suas famílias. Para lidar com a dramaticidade dessas histórias, Márcia trabalha com a ambiento-terapia. Os programas De Volta pra Casa e Mudando a História  refletem o espírito da Santa Fé, de promover o retorno dessas crianças às suas famílias em um novo contexto e prevenir a saída de outras para as ruas. As práticas de leitura no dia-a-dia do projeto Escola Ambulante vão recriando vínculos, curando feridas e iluminando novos desfechos nas vidas dessas crianças. Nesta edição, Márcia Dias nos fala sobre ética, violência, amor e tudo o que envolve a humanidade. Acompanhe o resumo de suas idéias.

 

A LINGUAGEM DO AMOR

Todas as histórias que tenho vivido nesses últimos anos em relação ao meu trabalho são histórias, mas não de transformação, e sim de harmonização frente às novas condições oferecidas. Meninos e meninas que apenas conheciam a violência e a falta, passaram, diante das condições dadas, a ter novas perspectivas de vida, que lhes permitiram buscar a linguagem amorosa do seu ambiente interno.

 

A LEITURA DOMA O CONHECIMENTO

A leitura é um poderoso instrumento para introjetar o mundo externo em toda a sua exuberância: fábulas, mitos, histórias fantasiosas, narrativas realistas; todo o universo da experiência humana está ali presa aos grafismos de um idioma. O domínio da leitura é resolver o enigma da esfinge. Desde que aprendemos a ler, o mundo não poderá mais nos devorar. A leitura doma o conhecimento, libera a fantasia. O mundo do saber e das comoções não são antagônicos, mas se complementam ao decifrar um idioma escrito.

 

PAIS, ESCOLA E MÍDIA

Os pais e a escola são referências fundamentais para o mundo interno e para a ação da criança no mundo externo. A mídia representa os valores atuais da sociedade de consumo em que vivemos: minutos de celebridade, banalização da violência e da miséria, entre outros, e a conseqüência é a deteriorização dos valores coletivos, levando os jovens, sobretudo, a reproduzirem os comportamentos celebrados.

  

O HUMANO SE FAZ NO OUTRO

O olhar que dedicamos ao outro rompe a solidão que nos torna  inúteis ou violentos — ou ambas as coisas. Em um dos  primeiros ensaios que os antigos gregos fizeram sobre o funcionamento dos sentidos, havia uma teoria muito interessante segundo a qual a visão era a percepção do reflexo de um raio lançado pelo nosso olhar em direção ao mundo externo. Fisicamente, sabemos que isso não faz sentido, mas do ponto de vista da percepção do mundo, é uma abordagem totalmente lúcida: o mundo externo é o resultado de nossa capacidade de interagir com ele. 

 

O OUTRO COMO REFLEXO DE MIM MESMO

Se isso vale para os objetos, valerá mais ainda para a percepção de outro ser humano. É nosso interesse por ele — nossa “irradiação” em sua direção — que permite o exercício amoroso, a simples inclusão do outro como reflexo de mim mesmo. Um filósofo contemporâneo, Umberto Eco, coloca essa questão de maneira sintética em seu debate com o Cardeal Carlo Maria Martini, registrado no livro No que crêem os que não crêem: para quem não crê na existência de uma referência absoluta, uma divindade de qualquer natureza, uma idéia ou personalização do absoluto, é a percepção da existência do outro que fundamenta a ética, a possibilidade da construção coletiva. Enfim, a sociedade como um reflexo do nosso olhar, como alguém já intuiu muito antigamente. Nesse sentido, é fundamental preservar a capacidade do olhar e de se comover com o seu reflexo, o outro — o meu diferente.  Se o outro não nos comove, resgatar essa capacidade é a reciclagem que nos tornará férteis outra vez. O exercício amoroso é uma forma de cuidar melhor de nosso meio ambiente interno — cuidar do outro, buscar o encontro com o meu diferente, ajudar na construção de uma sociedade mais justa e solidária. 

 

NATUREZA HUMANA E TRANSFORMAÇÃO

Natureza humana é um conceito complexo, com diferentes definições que têm servido para provar diferentes teses. O debate sobre o quanto ela é permanente e transformável não dá sinais de ter um fim. De minha parte, acho essa discussão não-operacional. O que sei de minha experiência no trato de crianças é que, independentemente de suas histórias dramáticas, por maus tratos, abandono e abusos, as crianças dadas como ‘perdidas para o convívio social’ são permeáveis ao trato amoroso. Se amadas como qualquer criança deve ser amada, tornam-se surpreendentemente iguais em seus desejos e ações a qualquer outra criança que foi amada, que teve suas necessidades e direitos respondidos. Elas se transformaram? Não em sua humanidade subjacente; apenas em sua forma de reagir ao mundo que as cerca. Enquanto cuido delas, eu me transformo?  Não em minha essência; apenas no modo como eu reajo a este mundo novo que elas oferecem para mim. De qualquer modo, se quisermos entender transformação dentro de um sentido mais restrito, comportamental, é nítido que elas mudam: passam a freqüentar escolas e a respeitar as normas sociais que as farão aceitas no mundo, mas o que mais importa é que possam ressignificar suas dolorosas experiências e encontrar no outro uma segurança suficientemente boa que foi perdida e, assim, poder desenvolver sua humanidade e todo o seu potencial.

 

AMBIENTE INSEGURO, TIMIDEZ PARA AMAR

O que é inato, o que é adquirido?  Essa é uma questão que a ciência ainda não resolveu.  O que se tem como importante para o desenvolvimento é o ambiente onde a criança se desenvolve.  O homem é o mais frágil e dependente animal da natureza: leva no mínimo um ano para poder ficar de pé — isso se não tiver nenhuma ocorrência que atrapalhe seu desenvolvimento neuromotor. A ave mais frágil já levanta seu vôo independente após semanas do nascimento. São os cuidados — o carinho, o olhar desejante do outro (a mãe, o pai ou qualquer um que lhe preste cuidados) que formará sua auto-imagem. A criança que não teve no ambiente a segurança devida se tornará tímida para o amor, e a criança que, além de não ter tido os cuidados necessários para seu desenvolvimento amoroso, foi exposta a toda sorte de maus tratos, como crescerá, senão percebendo o outro como seu inimigo e reagindo aos maus tratos sofridos com impulsos de violência?  Lembro-me de um adolescente de 13 anos que passou por trágicas vivências e me disse: “Tia, se minha vida não vale nada, por que a vida do playboy tem que valer alguma coisa? Matar ou morrer não importa”.

 

VIOLÊNCIA E ÉTICA

Discute-se muito a violência, mas não se discute a violência da sociedade que permite que milhares de meninos e meninas cresçam sem as condições mínimas para seu desenvolvimento.  A discussão sobre inato e adquirido, em sua maioria, está a serviço da desresponsabilização da sociedade. A educação define valores, ética. Como diz Gilberto Gil, ética se aprende em casa, ganha a rua, o bairro, a cidade, o país e o mundo. A questão é como podemos errar e fazer autocrítica, ter a capacidade de reciclar nosso comportamento, nossos sentimentos, nos comover diante da mágoa que causamos ao outro. 

 

Leia também:

- Um desenho que diz muito

- O que somos nós?

- Não somos donos da teia da vida

- Desenvolver é diferente de crescer

- Raimundo "poeta", o escrevinhador de rua

- Biblioteca coordena ações coletivas pela paz