Educação ambiental: uma questão de amor à Terra e a seus habitantes
| Em setembro e outubro de 2007 foram realizadas Oficinas de Educação Ambiental em diversas Bibliotecas Ler é Preciso com a educadora Rita Mendonça. O relato completo das percepções da bióloga poderá ser lido na próxima edição impressa do jornal Prosa. Confira alguns trechos selecionados para esta newsletter: | ![]() |
Energia em movimento
“Não foram viagens comuns. Enquanto chegávamos a cada lugar, eu imaginava a intrincada malha de roteiros feitos por mim e cada um dos participantes das oficinas. Tantos esforços convergindo para a sua realização. Os anfitriões se desdobravam na organização. Todos sabiam quão especiais seriam aqueles encontros — e foram. Cada lugar com sua própria cor, tom, intensidade. Havia muita emoção pela novidade da situação, viajar, receber, conhecer, renovar. Essa intensa energia em movimentação em muito contribuiu para a qualidade e a profundidade dos encontros.”
Transformando hábitos
“Eu queria que todos fossem comigo nesta viagem maior, na viagem em direção à percepção de que somos todos um, de que estamos relacionados, de que tudo está interligado. Os viajantes toparam, e fizemos grandes excursões. Só que a viagem não terminou com as oficinas; ao contrário, apenas começou com elas.”
“Hoje em dia nos vemos desidentificados com os lugares onde desenrolamos o fio de nossas histórias pessoais, mas podemos resgatar esse vínculo com a terra onde vivemos se expandirmos a noção de ‘nossa terra’ para incluir todas as terras da Terra. Para tornar o lugar onde vivemos o melhor lugar do mundo, precisamos expandir nossa idéia de ‘lugar’. Por isso, as propostas da educação ambiental de avançar na visão de mundo e orientar nas tomadas de decisão precisam fazer sentido para as pessoas; não podem ser normas ditadas por especialistas; precisam tocá-las lá no fundo, para que possam transformar seus hábitos condicionados em hábitos conscientes e enraizados.”
“Muitas vezes, falar da degradação ambiental imobiliza as pessoas, lhes tira a força, o poder e a vontade de transformar, de querer fazer parte. Por outro lado, mudando a percepção e o modo de sentir de cada um, muda-se todo o leque de relações em que ele está envolto: as relações consigo mesmo; as relações com as outras pessoas, na família e no trabalho; as relações com o mundo e suas maneiras de compreendê-lo e interpretá-lo; as relações com a natureza. Ao mesmo tempo em que isso requer muito esforço, tudo aquilo de que se precisa está totalmente ao alcance de cada um.”
“Ao ouvir a Jucineide, de Suzano (SP), contar que, quando vai a algum lugar que tem árvore, costuma parar para ouvir o canto dos pássaros e para contar quantos tons de verde consegue ver, fiquei cheia de contentamento. Nós estamos na Terra, somos da Terra! Não existimos em outro lugar! Estamos juntos, com toda a comunidade de vida terrestre!”
“Quando fizemos a viagem interplanetária, uma viagem imaginária pelo sistema solar, alguns sentiram frio, medo e solidão; outros viram jardins, flores e florestas. Saudades da Terra ou visões da Terra, pois tudo o que conseguimos imaginar está circunscrito à nossa experiência terrena. Nem para imaginar outros mundos conseguimos sair de nossas referências, que são baseadas nas experiências que temos”.
“Incrível pensar que, apesar de todo o conhecimento acumulado por toda a história humana, nossa inteligência não está formatada para entender e pensar questões relativas à Terra e seus habitantes. (...) Trazer essas questões para o cotidiano, para a consciência diária, é a tarefa do educador ambiental.”
“A consciência planetária pode também nos curar da fraqueza que a falta de identidade cultural com um lugar nos provoca”.
“É muito especial fazer essas reflexões nos ambientes das bibliotecas. Os livros podem também nos curar da cegueira de uma visão de mundo limitada pelo imediato, ou pelos repertórios formados pela mídia. Pessoas preparadas para o mergulho em livros estão abertas para o permanente despertar que os textos trazem. (...) A força vital que a homogeneização das paisagens lhes retira pode ser compensada pela riqueza de mundos trazida pelos livros e pela indelével marca que as reflexões calcadas na experiência proporcionam. Os bons livros são parceiros fundamentais para uma educação ambiental que facilite dar às pessoas poder para intervirem de forma consciente e conseqüente em seus espaços de vida.
“Cada biblioteca participante das Oficinas de Educação Ambiental recebeu uma seleção de cinco livros e duas publicações. O livro Saber cuidar, de Leonardo Boff, nos ajudou muito neste esforço de buscar o reencantamento da natureza como base para a formação de uma nova ética. Para recordarmos que cuidar é parte da essência do ser humano, ele conta a Fábula do cuidado:
"Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada.Tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele, o que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão, que pareceu justa: Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ela ficará sob seus cuidados enquanto viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa ‘terra fértil’".
“De forma inspirada e de compreensão tão imediata, aprofundamos nossa auto-percepção e nos posicionamos em direção ao que, de acordo com a fábula, realmente nos cabe: cuidar — cuidar de nós mesmos e cuidar da Terra, duas versões para um mesmo movimento. Precisamos aprender a cuidar”.
Uma ética para o novo milênio
“Uma das formas de nos cuidarmos e cuidarmos da Terra ao mesmo tempo é rever nossos hábitos de consumo. Assim, passamos para o contato com a publicação Consumo sustentável — manual de educação, feita pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Conversamos sobre a necessidade de, associado ao engajamento para reciclar os materiais, no momento de fazer qualquer compra, refletir sobre sua real necessidade, ter discernimento para recusar aquilo que percebemos não ser essencial, reduzir a quantidade daquilo que julgamos necessário, reutilizar de alguma forma aquilo de que já dispomos e retardar ao máximo sua disposição final e, finalmente, dar preferência para produtos e embalagens que possam ser reciclados, nos casos dos municípios que já dispõem de programas para reciclagem. Onde não houver esses programas, há muita coisa para se fazer pelo meio ambiente além de reciclar, se lembrarmos das etapas anteriores. É importante prestar atenção em todo o conjunto de coisas que nos envolvem. No manual há orientação sobre o consumo da água, dos alimentos, sobre a proteção das florestas, sobre os meios de transporte, energia, lixo e também sobre a publicidade. Com ele, as práticas de responsabilidade socioambiental ficam acessíveis a todos. Os participantes vão percebendo que podem tomar atitudes próprias, decorrentes de suas próprias reflexões, e que não há respostas prontas para tudo nem para todo mundo ao mesmo tempo. Aprendem a desconfiar de campanhas massificadoras de comportamentos, que levam as pessoas a uma espécie de adestramento que muitas vezes não colaboram para a resolução de nenhum problema ambiental”.
Cuidar dos corações humanos
“O problema dos erros de percepção, que, é claro, tem graus variados, costuma surgir por causa da nossa tendência de isolar aspectos particulares de um acontecimento ou experiência e vê-los como se constituíssem uma totalidade. Isso leva a um estreitamento da perspectiva e a falsas expectativas. A leitura conjunta de trechos do grande líder tibetano nos ajudou a rever as posturas, a flexibilizá-las e a ampliar a percepção da realidade. Aí, lembramos da citação feita pelo professor Joseph Cornell, autor do livro Vivências com a natureza 1, também recebido pelas Bibliotecas: ‘...Não se trata de cuidar dos rios, mas do coração humano.’ Para conseguirmos cuidar dos rios, precisamos cuidar do coração das pessoas, conhecer como é que elas sentem, de que precisam e como podem sentir-se felizes cuidando de si e dos outros. Só então poderão cuidar do ambiente externo, já que as nossas formas de interferir nele depende de nossos estados mentais e, portanto, afetivos”.
“Além dessas atividades, demonstramos algumas outras, também muito interessantes, publicadas nos livros Paz, como se faz? Semeando cultura de paz nas escolas, de Diskin L., Roizman L.G., e Jornada de amor à Terra — ética e educação em valores universais, de Roizman L.G. e Ferreira E.”
“Nossos encontros foram bastante mobilizadores. Depois da oficina, a Neick, de Turmalina (MG), intensificou certas questões com as quais ela já trabalhava: ampliou o cuidado de trabalhar valores como paz, solidariedade, honestidade e respeito. E teve uma idéia muito bacana: nos encontros para contar a história Pote vazio ou a flor da honestidade, distribuiu sementes de flores orientando os participantes a plantar, a regar com água e carinho e depois a dar o retorno, contando-lhe dos seus jardins. Que idéia bonita! Se a leitura nos ajuda a ler a realidade em que vivemos, nos ajuda a ter senso crítico e a sonhar, plantar flores em decorrência da leitura nos leva a transformar a realidade, a incluir o belo no cotidiano, a dar poesia ao ato de viver.
“Além de conhecer muitas palavras, precisamos vivenciá-las, para que façam sentido para nós. Para isso, é necessário desenvolver a sensibilidade e dedicar um olhar amoroso sobre as coisas. A experiência da Neick de incentivar as pessoas a plantar flores me fez lembrar que o mundo é um enorme jardim, passível de tomar as mais belas formas, dependendo do olhar que temos sobre ele e dos nossos gestos de compreensão e de realização. Imaginem quantas histórias estão nesses livros do acervo das bibliotecas e que podem impulsionar as pessoas a intervir de forma poética no meio em que vivem?
“A Neide, de Salvador (BA), também observou o quanto as pequenas atitudes influenciam e o quanto somos ligados uns aos outros. (...) O simples ato de querer viver com qualidade, modificando as escolhas para construir um modo de vida leve e alegre, já é transformador, pois irradia positividade, amorosidade, bem-estar e tranqüilidade. Esses são sentimentos tão necessários na vida moderna que exercem rápida influência naqueles que nos rodeiam. Como diz a Neide, são atitudes que mudam a mentalidade das pessoas.”
“A Fernanda, de Urbano Santos (MA), fez a Teia da Vida com as crianças, pedindo que elas representassem animais, e ligou-as por meio de um barbante, de forma a que percebessem a interdependência que existe entre todos os seres vivos. O Cícero, de Calçado (PE), enfatizou a importância da educação para a formação da consciência nas pessoas.”
“Olhem só a iniciativa da Cristina, de Barroso (MG): ela organizou um concurso para estimular as crianças à reflexão em torno da questão ambiental. Mobilizando a participação por meio das escolas, o concurso Eu Protejo minha Terra teve três categorias: 1 - desenhos, para creches e unidades de educação infantil; 2 - frases, para o ciclo inicial de alfabetização e PECT; 3 - textos e poesias, para o ciclo complementar de alfabetização e projeto ABC. Foram selecionados três desenhos de cada uma das seis creches participantes para a Categoria 1; 39 desenhos e frases de 12 escolas para a Categoria 2 e 30 poesias de dez escolas participantes. Para mostrar os resultados do concurso, ela preparou uma publicação com os resultados selecionados do III Prêmio Ler é Preciso.” “Nem dá para avaliar quanta gente foi envolvida nesse processo do concurso, que teve um efeito realmente multiplicador! Uma experiência valiosíssima que pode estimular muita gente a fazer o mesmo!”
“Quando nos encontramos para as Oficinas de Educação Ambiental em 2007, senti que muita coisa se modificou ou transformou, tanto em mim como nos participantes. A primeira delas é a percepção de que tudo isso gira em torno dos afetos, do quanto ampliamos nossa capacidade de percepção e ação pelo simples fato de nos deixarmos atuar afetuosamente com os outros e com o ambiente. É uma espécie de relaxamento que expande, nos dá mais autonomia e nos ajuda a tomar decisões mais verdadeiras; nos ensina a querer mais o que temos, dar mais valor a pequenas coisas, que, no fim, são muito mais importantes do que aquelas para as quais nos movemos tanto e dispensamos tanta energia; nos dá o poder de fazer das pequenas coisas um espetáculo.”
“Quem não tem um parque, uma praça, um jardim, um vasinho, tem ainda um universo riquíssimo para conhecer a natureza, que é o seu próprio corpo. Como você o sente, como respira, como o ouve? Sabe reconhecer suas mensagens? Assim como podemos desmatar e poluir a natureza, fazemos o mesmo com nosso corpo. É o mesmo gesto, o mesmo processo de ação, a mesma racionalidade que leva aos dois resultados. Que forças temos para lidar com nosso ambiente corporal? Cada um vai saber o que fazer para cuidar desse ambiente. Ele próprio vai lhe contar, se souber ouvir.
Todos os nossos problemas decorrem, de alguma forma, da falta de consideração ou de percepção da inexorável necessidade de pertencer aos ciclos da vida. Nossas viagens tinham esse sentido: resgatar a sacralidade das coisas — mas não só das coisas: das relações, dos afetos que criamos ao nos encontrarmos. Agora, que estamos cada um em seu próprio lugar, reconheço quão especial foi o nosso encontro. É por isso que os convido a nos escrever mais, a compartilhar os pensamentos, os sentimentos e as ações, como uma forma de dar prosseguimento ao que começamos a fazer: reconhecer que tudo o que fazemos é muito especial e importante e que, quando é compartilhado, é ampliado, é reencantado.”
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