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Sustentável por natureza

A equipe de pesquisadores do Parque das Neblinas selecionou alguns exemplos do mundo vegetal e animal que revelam como tudo está em constante equilíbrio na natureza

“Cooperação faz parte de uma estratégia de sobrevivência dos seres vivos. A flor da helicônia oferece néctar em troca do pólen trazido ou levado. A esse escambo naturalista chamamos de co-evolução”, diz Paulo Groke, engenheiro florestal e gestor do Parque das Neblinas, referindo-se ao equilíbrio que existe na natureza.

“A cooperação e o conflito fazem parte dos processos naturais. Ajudar na conservação dos ecossistemas significa reativar muitos desses processos. Esse é o grande desafio da equipe que atua no Parque das Neblinas”, diz Groke.

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Cooperar para evoluir

A julgar pelo que nós, seres vivos humanos, demonstramos entender sobre cooperação, estamos bem atrasados em relação aos seres vivos não humanos, uma vez que provocamos, com nossa ação no mundo, os desequilíbrios que ameaçam nossa própria existência.

dna.jpgEmbora alguns poucos pares de genes nos diferenciem de outros mamíferos, somos marcadamente irracionais ao não aprender a lição universal de que é preciso cooperar para não ser extinto. Avançamos de forma predatória sobre os recursos naturais e estabelecemos relações humanas destrutivas em nome de acúmulo e ostentação, alterando a dinâmica da Terra de forma inédita na história (ver matéria “Paz no trânsito: uma utopia?”, nesta edição).

No livro Alfabetização Ecológica, o autor, Fritjof Capra, explica que podemos criar sociedades sustentáveis seguindo o modelo dos ecossistemas da natureza. Os organismos vivos (folha, célula, músculo, família, escola, etc.) são sistemas vivos e totalmente não lineares. “Quando algo é bom, uma quantidade maior desse algo não será necessariamente melhor, uma vez que as coisas andam em círculos, e não em linhas retas. A questão não é ser eficiente, mas ser sustentável”, diz ele. Os sistemas vivos, portanto, funcionam orientados para a sustentabilidade. A natureza nos oferece boas lições; é preciso estarmos atentos para aprender.

A dor que faz parte

Certa vez um grupo de cientistas franceses fez uma experiência com casulos de borboletas. Na tentativa de ajudar as crisálidas a sair do casulo, eliminaram esse estágio estressante cortando o invólucro com uma lâmina, sem machucá-las.

Qual não foi a surpresa quando eles viram que todas morreram? Tarde demais, concluíram que o processo de esforço da crisálida para sair do casulo estimulava a secreção de enzimas essenciais para sua transformação em borboleta. Exemplos assim existem muitos, sempre envolvendo a natureza, sua busca pelo equilíbrio a partir da cooperação e a teimosa interferência do homem baseada em fenômenos que desconhece...

“Dor, mutilação, abandono, inanição e morte. Tudo isso acontece a cada momento, em cada unidade de área de florestas, campos, rios e oceanos”, lembra Groke. “Na natureza não existe tempo livre e muito menos lazer e diversão; apenas exercícios de relacionamento e coesão do grupo”, diz ele. Aprender a observar esses exercícios é encontrar a solução para a sustentabilidade presente, gratuitamente, na natureza.

Fazemos parte desta rede de energias interligadas tanto quanto a helicônia (Heliconia velloziana) e o beija-flor (Phaetornis eurynome). O biólogo Saulo Souza está na equipe do Parque das Neblinas e cita a relação especial entre essa helicônia e esse beija-flor, conhecido como rabo-branco-da-mata.

“Acredita-se que essa helicônia só existe por causa desse beija-flor. A flor amarela que se abre entre as brácteas vermelhas forma um tubo com abertura e profundidade exatas para o bico desse beija-flor, que, atraído pela oferta do néctar enriquecido com os açúcares prediletos e na concentração ideal, encaixa o bico na flor e encosta a cabeça nas anteras cheias de pólen. Esse pólen seguirá na cabeça dessa ave até a próxima flor. Ao encaixar o bico novamente, a flor será fecundada, dando início à formação de sementes”, explica.

O bambu e a ética do equilíbriobambu.jpg

Um belo símbolo para a ética do equilíbrio é o bambu. Tudo nele é uma lição, como o tempo que leva para emergir da terra. O jeito calmo e confiante de crescer lançando, antes e por longo tempo, sua base, para só depois despontar. É vazio por dentro e não oferece resistência ao vento. É flexível e resiliente porque se deixa dobrar e sabe retornar à posição. Nos sistemas vivos, quanto mais rígido, mais morto; quanto mais flexível, mais vivo.

A luz do sol, o clarão da lua, o esplendor do fogo, a pressa do relâmpago, a presteza do vento, a profundeza dos mares e a sabedoria da água que vai pelo caminho mais fácil, sem nunca desistir do sonho de moldar a solidez da rocha. A natureza é assim: um monumental relicário a guardar respostas. Quem tiver ouvidos que ouça, e quem tiver olhos que veja o currículo oculto da Mãe Natureza, repleto de ensinamentos ancestrais sobre o equilíbrio necessário e possível para assegurar qualidade de vida a todas as vidas.


Para ir Além

Alfabetização Ecológica , de Fritjof Capra e outros, Ed. Cultrix, 2006.

Terra Viva, de Stephan Harding, Ed. Cultrix, 2008. O autor é um dos grandes nomes da chamada Ecologia Profunda. Neste livro, ele explica com clareza e elegância o complexo equilíbrio da vida, envolvendo uma indistinta articulação entre geosfera, biosfera e noosfera, esta última sendo a "esfera do pensamento humano" (do grego νους / nous = mente). Por que ler? Para se conscientizar de que fazer a sua parte é uma tarefa indispensável e insubstituível para a conquista e a manutenção do equilíbrio, pois na grande teia da vida, cada indivíduo é um universo de possibilidades.