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Fernando Pessoa, entre livros e leitores

“Fernando Pessoa, entre livros e leitores” é o capítulo do livro A vida que a gente quer depende do que a gente faz em que a escritora Marisa Lajolo analisa e convida os leitores a serem “autores do texto que leem”

Fernando Pessoa, entre livros e leitores

Marisa Lajolo

Para Sheila Aparecida de Souza Santos

e Shirley Aparecida de Souza Santos

Vai que, de repente, caiu em suas mãos o poema abaixo de Fernando Pessoa intitulado Liberdade. Você conhece o poeta de nome. Sabe que ele era português e que por vezes assinava seus poemas com outros nomes, os heterônimos. Pode não saber que os versos de Liberdade, por exemplo, são assinados como se tivessem sido escritos por Alberto Caeiro. Mas isso não importa. Importa que você gostou do título, os versos eram curtos, e começavam de uma forma diferente e desafiadora: propunham desobediência!

Marisa Lajolo

Você leu o poema até o fim e depois leu mais uma vez, devagarinho. Na realidade,

b e m   d e v a g a r i n h o ... d  e  v  a  g  a  r  i  n h  o
 
Liberdade ¹

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...

¹ Fernando Pessoa Obra poética em um volume.  (Alberto Caeiro). Rio de Janeiro: Ed. Aguilar, p. 188.

O texto pega: onde já se viu um poema que diz que é bom não cumprir os deveres, que pode não ler o livro que a escola mandou e que ler é mesmo muito chato (é isso que maçada quer dizer)?  Poucas vezes você viu isso.

Naquela re-leitura que você fez bem devagarinho você foi percebendo que o texto parece dar muito mais valor à natureza do que à cultura.

Fala bem das flores, do sol que fecunda a terra (não do sol que queima e mata), do rio que corre e do vento que sopra quando quer...

E critica o estudo, reduz livros a meros papéis pintados com tinta e tem um argumento final contra a cultura escolar e letrada absolutamente fulminante: sugere que Jesus Cristo – a quem as religiões cristãs dão extremo valor - não tinha biblioteca!

Este texto de Fernando Pessoa é mesmo surpreendente: parece ir na contramão do que todos dizem. A solidariedade do poeta aos que abandonam os livros e se desinteressam dos estudos e das edições raras é incomum, não é mesmo?ilustração_Sol

O poema também adere a um certo misticismo, ao aludir ao retorno de D.Sebastião, um rei português que desapareceu numa batalha e que, ao longo da história de Portugal, simboliza – na crença popular de sua volta -  a esperança de um tempo melhor, da realização de um futuro cheio de promessas.

Por se tratar de um poema tão surpreendente, talvez seja interessante pôr em prática, a propósito dele, nossa liberdade máxima de leitores.

Nossa liberdade de leitores permite-nos entender literalmente o poema Liberdade, isto é, tomá-lo ao pé da letra, acreditando que ele diz exatamente o que está escrito.

Mas

nossa liberdade de leitores também nos permite entender o texto de outra forma, supondo que o poema pode ter um segundo sentido, que, nas suas entrelinhas, desmancha seu sentido literal.

Ou seja: podemos imaginar um poeta malicioso, que critica livros, escola e estudo como mera estratégia. E o resultado de sentido dessa estratégia pode ser levar seus leitores – talvez estranhando o que o poeta diz – a pensarem melhor no assunto.

O que é que você pensa sobre o assunto?desenvolvimento sustentável

Eu, por mim, fico com os dois sentidos.

Gosto de pensar que quem não gosta de ler, quem acha que ler é das coisas mais chatas do mundo, tem direito a essa sua opinião, tem direito fechar os livros –  este, por exemplo - e ir ao mundo, cuidar da vida.

Mas, outras vezes, também gosto de pensar que a ironia é uma faculdade humana muito fina, e que, muitas vezes, os poemas, dizendo talvez o contrário do que parecem dizer, deixam aos leitores a gratificante sensação de serem autores do texto que lêem, na medida em que constroem significados para eles.

Você, por exemplo.
Que significado você constrói para este texto?