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Trânsito nas cidades: muita calma nessa hora! É possível estar em paz em meio ao caos?

O caos do trânsito nas cidades aumenta embalado pela crescente quantidade de carros, motos, caminhões e pessoas descontroladas. A maioria de nós reclama e espera políticas públicas eficazes, mas já foi dito e cantado que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”...

transito.jpgLombadas repentinas, câmeras ocultas, buracos em profusão, buzinas ensandecidas. Guardas propensos a punir com multas e motoristas sem educação predispostos a não colaborar. Esse é o cenário de batalha diária nas cidades.

Ao redor dos volantes, vidas. Por trás de um rosto aparentemente calmo, um complexo biossistema tenta sobreviver com um coração superestimulado pelo estresse. Esses cenários inadequados, externa e internamente, favorecem xingamentos, acidentes e prejuízos que vão além do que os olhos podem ver. O que fazer?

Conversamos com Oded Grajew, empresário que coloca tais questões em sua agenda de trabalho. Idealizador do Fórum Social Mundial, Grajew é um articulador de iniciativas em prol da organização da sociedade civil, como o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e o Movimento Nossa São Paulo.Oded.jpg

 “Uma primeira coisa a ser dita é que as pessoas precisam ficar menos tempo no trânsito. Isso significa criar políticas urbanas que diminuam a necessidade de estar no trânsito, ou seja, precisamos ter lazer, educação, trabalho, cultura e saúde perto de casa”, diz ele.


Se todos os bairros fossem uma pequena e bem equipada cidade auto-sustentável, não haveria a necessidade de grandes massas se deslocarem para os pólos geradores de trabalho, por exemplo. Mas os bairros estão aí e só crescem (ou incham) de forma nada sustentável.

Resta ao indivíduo orientar sua própria vida nessa direção, buscando tudo de que precisa perto de onde mora ou morando perto de tudo o que precisa. Quantos conseguem? Do ponto de vista de gestão do governo, segundo Grajew, há que se desafogar o trânsito investindo em transporte público, ciclovias e corredores de ônibus.

“É importante ser rigoroso em relação ao consumo de álcool, pois as estatísticas comprovam que o álcool estimula a violência. Na questão de motociclistas, temos de criar regulamentação a respeito das ‘costuras’ feitas pelos condutores de motos, algo como só andar entre os carros quando a velocidade permitir, por exemplo. O respeito ao pedestre é outro ponto fundamental. Brasília deu um salto grande nesse sentido e é um exemplo a ser seguido”, afirma.


Carona solidária e trabalho em casa

Em relação à sociedade, continua Grajew, “precisamos apoiar as iniciativas de carona solidária nos bairros, nas universidades, nas empresas. As empresas também podem incentivar o trabalho a distância, nas residências”. A idéia do home-office não é novidade fora do Brasil, e, apesar do sucesso com a produtividade e o alto índice de satisfação tanto do empregado quanto do empregador, é preciso disposição, confiança, ousadia e muita boa vontade para quebrar o paradigma do trabalho presencial.

Em todo caso, as mudanças de maior alcance dependem do poder público, dimensão essa que se resguarda na invisibilidade, mas que encarna de forma bem visível nos políticos que elegemos. Quem são eles, de onde vêm, o que fizeram até hoje? Essa curiosidade cidadã precisa ser ensinada desde cedo nas escolas e nos lares, rompendo um ciclo de anestesia. 

Nesse ponto, São Paulo saiu na frente: “Foi a primeira cidade do Brasil a aprovar uma emenda que obriga os prefeitos a apresentarem um programa de metas quantitativas e qualitativas para cada área da administração municipal. As coisas estão mudando e chegaremos lá”, afirma, confiante, Grajew.


Motoboys: tem gente fazendo a diferençamoto.jpg

Em tempos de mudança, vale a máxima “Muito ajuda quem não atrapalha”. Se você, quando precisa de uma entrega rápida, chama a primeira empresa que aparece ou a mais “em conta”, sem fazer nenhuma pesquisa para verificar seus critérios de recrutamento, será que poderá abrir a boca para falar de um motoboy que dirige sem carteira?

Segundo Fernando Aparecido de Souza, especialista em Transporte por Motocicletas do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Regiões (Setcesp), grande parte da clandestinidade nesse setor se deve à falta de ética do tomador de serviços, aquele que chama o motoboy. “É preciso mais conscientização das empresas contratantes desses serviços e uma fiscalização efetiva. Sabemos de casos em que a ‘empresa’ funciona dentro de uma kombi”, diz ele.

Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostram que de cada dez mortes no trânsito em São Paulo, duas envolvem condutores e passageiros de motocicletas. Para estimular atitudes positivas e cidadãs entre os atores do trânsito, foi criado o Selo Trânsito Seguro pela Prefeitura de São Paulo, em 2007. Para serem certificadas, as empresas devem estar em dia com indicadores como Cuidados e Promoção da Saúde, Treinamento e Educação, e Equipamentos de Proteção Individual, entre outros. Desde dezembro de 2006, quando foi lançado o programa, 41 empresas receberam a certificação (frota de 4.200 motocicletas).


Dignificar a profissão

“O que posso fazer para mudar essa carinha triste?”, ela pergunta. “Eu queria um doce. Você tem algum doce?”, diz ele. Vinte minutos depois, ela entra na sala com uma caixa de bombons. Ele é motoboy e enfrenta sérios problemas em casa. Ela é Kátia Ricomini, chefe dele e proprietária da Translig. Os motoboys contratados por Kátia têm carteira assinada, seguro de vida, planos de saúde e odontológico, além de uma série de benefícios, como convênios com faculdades, postos de gasolina e lojas de peças, cesta básica, kit escolar para filhos e adivinhem... uma biblioteca.

Acreditamos que a educação é a porta de entrada para o conhecimento e a leitura, um dos caminhos para o desenvolvimento humano e pessoal. Com essa minibiblioteca, queremos incentivar o hábito da leitura”, diz Kátia, que contou com o apoio do Instituto Ecofuturo na formação do acervo de livros.

Depois de trabalhar em grandes empresas usando muito o serviço de motoboys, Kátia percebeu que os rapazes trabalhavam sem alegria, estressados, sempre correndo, mal vestidos. Conversando com eles, constatou suas precárias condições de trabalho. Em 2006, determinada a dignificar esse trabalho tão procurado e tão pouco reconhecido, Kátia decidiu correr o risco de abrir a Translig, com a mãe e sócia, Jozi Aparecida Del Néri, e o marido, Rafael Bernardes, que, entre outras coisas, ajuda os funcionários a jogar xadrez. O risco virou negócio de sucesso, com 20 funcionários; 17 deles são os motoboys com a hora mais bem paga do mercado.

Motivação é o que mantém Kátia Ricomini sempre disposta a empreender algo para melhorar alguma coisa. No momento, ela articula para que o sindicato adote o modelo de plano de carreira para motoboys que implantou na Translig. “Ter meu próprio negócio é um sonho antigo. Quando era pequena, comprava chocolate e pirulitos com a mesada e revendia na escola”, conta. Hoje, com o sonho realizado, não faz de seu negócio um lucro em si mesmo para si mesma; ela sabe irradiar sua realização trabalhando para que outros também se realizem.

A cidade ideal

carros.jpgNa cidade ideal, as escolas de formação de condutores terão um manual diferente. Os manuais de hoje são a própria incoerência: falam que o ideal é transitar em vias bem projetadas, conservadas e sinalizadas, mas, além de admitirem que isso nem sempre é possível, lembram que reclamar das más condições das vias é um direito do condutor.

Reclamar? Com quem? Com o tal do poder público. Onde? Na boca da urna – mas isso manual nenhum ensina. A cidade ideal é uma construção coletiva. Não cai do céu nem brota do chão. Nasce no coração pensante de cada cidadão.

O coração que pensa faz par com a mente amorosa, e ambos tornam possível estar em paz no meio do caos. Uma coisa é certa: se você não faz parte da solução, com certeza faz parte do problema.

BREVES TOQUES PARA FAZER PARTE DA SOLUÇÃO

EU, ESTRESSADO?! OLHA SÓ QUEM FALA!!!

Alguém duvida de que o trânsito seja um dos maiores causadores de estresse? Nem por isso vamos deixar de sair às ruas. O melhor mesmo é sair preparado para o que der e vier. No livro Stress a seu favor, a psicóloga Susan Andrews ensina como fazer bom uso do estresse e põe abaixo alguns mitos, tais como achar que os homens se estressam mais que as mulheres; acreditar que os workaholics devem desacelerar, senão ficarão doentes, e que o estresse nos torna menos produtivos. Com humor e informação científica, ela dá pistas para reagirmos da melhor forma aos agentes estressores do dia-a-dia. O segredo está na atitude. Para acabar com as reações neandertais sem recorrer a calmantes, cafés, cigarros ou doces, devemos reeducar nossos corpos e mentes praticando certos exercícios. Confira alguns deles:

Respiração abdominal ou diafragmática – Respiramos corretamente quando usamos o músculo do diafragma, que fica abaixo dos pulmões. Os bebês e os animais respiram do jeito certo, distendendo o diafragma para baixo e absorvendo o máximo de oxigênio ao inspirar, contraindo e puxando o diafragma para cima para explusar o dióxido de carbono e as toxinas. Isso melhora a digestão e a circulação, harmoniza o batimento cardíaco irregular, alivia a insônia, a enxaqueca, a síndrome do pânico e outros estados de ansiedade. Como se faz? Primeiro, observe como você respira. Coloque uma mão sobre o peito e a outra sobre o abdômen, abaixo do umbigo. Respire. Qual das mãos se mexe mais? Se for a mão sobre o peito, você está respirando errado, privando-se de oxigênio e energia. Se os músculos do seu abdômen estiverem tensos, impedindo que respire profundamente através do diafragma, você não deixa que o oxigênio chegue na região mais baixa dos pulmões, onde flui a maior parte do sangue. Inspire desde o abdômen, sentindo primeiro a parte inferior do pulmão expandir-se, depois a parte média e, por fim, a parte superior. Ao expirar, sinta que a parte inferior do pulmão é a primeira a se esvaziar. Sinta sua mente e seu corpo relaxando cada vez mais. Repita oito vezes. Corrigir apenas isso fará com que se sinta com muito mais energia e bem-estar físico e mental.

Massagem – A massagem estimula o fluxo da linfa, fluido vital que remove toxinas e resíduos das células. Recomenda-se cuidado especial ao massagear os nódulos linfáticos situados no rosto, axilas, pescoço, virilha e joelhos. É possível fazer auto-massagem pelo menos cinco minutos todos os dias.

Relaxamento profundo – Diante de motivo estressante, devemos estimular o cérebro a dar uma resposta de relaxamento. Essa prática pode diminuir os batimentos cardíacos e a freqüência respiratória (de 15 para dez respirações por minuto), baixar a pressão arterial, reduzir os hormônios de estresse no sangue (cortisol e adrenalina), relaxar os músculos e acalmar a mente.  Para saber mais, consulte o livro Stress a seu favor – Como gerenciar sua vida em tempos de crise, de Susan Andrews, Instituto Visão Futuro, SP (www.visaofuturo.org.br)

PAZ – COMO SE FAZ?
Da mesma forma que não dá para criticar motoboys se você contrata motofretes clandestinos, não dá para falar em paz no trânsito se você não cultiva atitudes de paz enquanto está nas ruas, seja como motorista, ciclista, pedestre ou passageiro. A paz começa dentro de nós mesmos.

É a partir de uma postura de calma interna que podemos atrair situações pacíficas e nos desconectarmos das situações de violência. Essas continuarão existindo, mas não para você. Se todos agirmos assim, ações violentas deixarão de existir. Experimente, é matemático! Faça pelo menos uma gentileza por dia.

Dê passagem para um pedestre, deixe um carro passar na sua frente, ceda o lugar a alguém de pé no ônibus ou simplesmente doe um sorriso a um desconhecido por dia. Aos poucos você vai perceber que “gentileza gera gentileza” mesmo.  Comece sendo gentil com seu corpo e mantenha uma garrafinha de água e um pacote de biscoito por perto; vai que o trânsito pára...

Veja o filme A corrente do bem (Pay it Forward), Estados Unidos, direção de Mimi Leder, com Kevin Spacey, Haley Joel Osment e Helen Hunt. Por que ver? Emociona e faz pensar. Um professor de Estudos Sociais desafia seus alunos a criarem algo que possa mudar o mundo; um deles cria um jogo chamado "Pay it forward", em que a cada favor recebido, você retribui a três outras pessoas.

CIDADANIA – Cada um com sua parte
Conhece a história dos quatro agentes do apocalipse social? É assim:

Os quatro agentes do apocalipse social se chamam: TODOS, ALGUÉM, QUALQUER UM e NINGUÉM. Começou assim: num lugar entre o céu e a Terra, um importante trabalho precisou ser feito, e TODOS pensaram que ALGUÉM o faria, isto é, QUALQUER UM podia fazer esse trabalho, mas acabou que NINGUÉM o fez. ALGUÉM se irritou quando soube que o trabalho não tinha sido feito, porque era responsabilidade de TODOS fazê-lo. Porém, aconteceu o seguinte: TODOS acreditaram que QUALQUER UM o faria, sem perceber que, assim, NINGUÉM o faria. Como termina a história? ALGUÉM culpou a TODOS, porque, na realidade, NINGUÉM fez o que QUALQUER UM poderia ter feito.

Ser cidadão é fazer a parte que lhe cabe. Participar, portanto, é fundamental! Comece agora conhecendo mais sobre:

Movimento Nossa São Paulo – Emenda nº. 30 à Lei Orgânica do Município de São Paulo – Conheça a emenda da lei que obriga prefeitos a apresentarem programas de metas para cada região em http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/emenda.

Selo Trânsito Seguro 2008 – Para saber o que é e como se faz para obter o selo: http://cetsp1.cetsp.com.br/pdfs/selo/selo.pdf

Para ver a lista das empresas já certificadas:
http://www6.prefeitura.sp.gov.br/noticias/sec/transportes/2008/01/0035placa.jpg


Saiba mais:

LIVROS

Inventário do que podia ser bem melhor e será, página 220, redação “Trânsito das palavras”, de Marlon Washington Rocha Silva, 17 anos. Por que ler? O autor, de Oriximiná (PA), nos faz refletir sobre a condução de nossa comunicação. Usamos palavras dignas de serem ditas ou engarrafamos esse fluxo falando palavras vazias, metálicas e enganosas?

O livro dos valores e das virtudes, um guia para o cultivo diário e consciente dos valores humanos, de Claudia Boacnin, Ed. Pensamento, 2008. Por que ler? Pelo suporte psicológico que os manuais de trânsito não dão. São 100 virtudes e valores com dicas práticas para o dia-a-dia, além de jogos e atividades para grupos. Mantenha-o ao alcance da mão!

MÚSICA

Som na caixa. Música, maestro!

Rua da Passagem, de Arnaldo Antunes e Lenine. Por que ouvir? Enquanto os fios dessa cidade ideal estão sendo tecidos pelos cidadãos, cada um fazendo sua parte, a gente chama a música para embalar essa construção, pois, como disse Guimarães Rosa, “a música derrete o demorado das realidades”. Rua da Passagem é uma aula de educação para o trânsito. Recuperando a idéia de que a rua é o quintal de todos, eles sinalizam, com bom humor, um jeito humanamente correto de andar pela cidade.

Leia a letra:

“Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamental
Não adianta esquentar a cabeça
Não precisa avançar no sinal
Dando seta pra mudar de pista
Ou pra entrar na transversal
Pisca alerta pra encostar na guia
Pára-brisa para o temporal
Já buzinou, espere, não insista,
Desencoste o seu do meu metal
Devagar pra contemplar a vista
Menos peso do pé no pedal
Não se deve atropelar um cachorro
Nem qualquer outro animal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Motoqueiro, caminhão, pedestre
Carro importado, carro nacional
Mas tem que dirigir direito
Para não congestionar o local
Tanto faz você chegar primeiro
O primeiro foi seu ancestral
É melhor você chegar inteiro
Com seu venoso e seu arterial
A cidade é tanto do mendigo
Quanto do policial
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Travesti, trabalhador, turista
Solitário, família, casal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Sem ter medo de andar na rua
Porque a rua é o seu quintal
Todo mundo tem direito à vida
Todo mundo tem direito igual
Boa noite, tudo bem, bom dia,
Gentileza é fundamental
Pisca alerta pra encostar na guia
Com licença, obrigado, até logo, tchau.