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Raimundo “poeta”, o escrevinhador de rua
Faça chuva ou faça sol, lá está ele no canteiro da Avenida Pedroso de Moraes, em São Paulo. Raimundo vive há anos nesse espaço, escrevendo palavras que ninguém lê. De onde ele veio? Por que vive assim? Raimundo Arruda Sobrinho parece ser seu nome completo, pois tudo na vida desse morador de rua é incerto, a começar pelos dados de cidadania, como idade e local de nascimento, por exemplo.
Então, Raimundo teria 70 anos e seria natural de Goiânia. Convive em paz com os moradores do bairro há quase duas décadas, sempre no mesmo local, quase mimetizado entre sacos de plástico e pilhas de papel. Linhas e mais linhas assinadas com o nome de “O Condicionado” sob os olhares de 30 mil motoristas que passam por ele diariamente. Cedinho da manhã é possível vê-lo falando com alguém invisível, enquanto toma seu mingau feito por ele mesmo, antes de sentar e escrever sem parar até o dia acabar.
O que é ordem, o que é caos
Sem aceitar dinheiro, ele fornece sua senha de acesso a uns poucos. Em 2005 o jornal Folha de S. Paulo localizou Joana de Assis Porto, em Goiânia, na época com 82 anos, que teria sido sua mãe adotiva até o dia em que ele fugiu para sempre. Passou por um hospital psiquiátrico em 1976, quando teria tido um surto. No sistema de vida de Raimundo, tudo tem seu lugar. Atrás de si, o lixo; à sua esquerda, o lugar de dormir, onde tem garrafas d’água e comida doada protegidos do sol quente. Além do mingau, Raimundo faz suas próprias roupas, com sacos plásticos amarrados como calças, camisa, saiote e uma capa de saco preto por cima. Metódico em sua rotina de escritor, ele também costura os papéis em que escreve, geralmente folhas de sulfite branco dobradas ao meio.
Escrever faz pensar
Mas escreve o quê? Tratados infindáveis sobre o casamento do pensamento com a eletrônica, segundo ele o maior casamento que já houve na ciência. Escreve também relatórios, muitos relatórios. Em geral lista de doações organizadas sob a sigla RDNM (Relação Diária de Números Mantidos). O poeta Ademir Assunção recolheu alguns trechos de escritos que ele chegou a distribuir: “Sua família pode ser sadia 100%, entretanto estar escravizada psiquiatricamente”; “Quanto o Estado gasta em 24 horas para manter o aparato policial? Quanto economizaria se não tivesse que gastar com polícia...”. No meio de tantas incertezas na vida de Raimundo, podemos ver claramente que algumas certezas são inquestionáveis: ele é, sim, um escritor, é também mais um dos milhares de sem-teto da maior cidade da América Latina e, sem dúvida, é um ser humano que ainda consegue pensar — e sabe perguntar quem precisa de polícia. (informações compiladas de reportagem de Sérgio Dávila, Folha de S. Paulo, Cotidiano, 25.12.2005)
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