Caçar ratos com lagartos pode dar zebra
Por meio de histórias verídicas e curiosas, os 'causos' da natureza relatam os desequilíbrios causados à vida da Terra pelo recente caminhar do Homo sapiens
Uma idéia bem intencionada introduzida em Fernando de Noronha nos anos 50 deu errado e virou um grande problema ambiental
Pouca gente sabe que as espécies exóticas invasoras são a segunda grande causa de perda da biodiversidade mundial. A primeira é culpa da ação direta do próprio homem. As espécies invasoras são assim chamadas porque saem de seu habitat natural e fixam morada em outro ambiente, colocando em risco as espécies nativas. Isso pode acontecer por motivos naturais, mas também por iniciativa do homem.
O engenheiro florestal Paulo Groke, responsável pelos projetos ambientais do Instituto Ecofuturo, conta um caso que ocorreu na ilha de Fernando de Noronha, por volta da década de 50, segundo o GISP (Programa Global de Espécies Invasoras). “Uma decisão impensada e filha de uma lógica reducionista resultou em sério problema ambiental que até hoje preocupa. A palavra mais justa seria dizer que essa atitude gerou uma verdadeira praga, encenada por lagartos teiús (Tupinambis merianae) e ratos”, diz ele.
Os ambientes de ilha são conhecidos por sua alta vulnerabilidade. O fato da ilha estar desconectada da terra do continente dificulta bastante sua recuperação em casos de desmatamentos e outras interferências, em virtude desse isolamento. Até mesmo em nosso imaginário sempre tratamos as ilhas como um local bom para mandarmos aqueles de quem queremos distância. Os criminosos, por exemplo. Foi assim que criamos presídios em Alcatraz, nos EUA, e em Ilha Grande e Fernando de Noronha, no Brasil. Para dificultar a fuga em Fernando de Noronha, os administradores do presídio chegaram a desmatar 90% da cobertura vegetal, fato que explica as grandes áreas descampadas da ilha. “Não será exagero afirmar que os desequilíbrios começaram aí, com um extermínio significativo das vidas que existiam nessa área”, afirma Groke.
Tudo começou com dois casais de teiús...
Mas os teiús não chegaram lá algemados para cumprir sentença, nem como turistas a passeio ou lua-de-mel. Dois casais foram levados pelo homem na década de 50 com o objetivo de combater a gradativa proliferação de ratos. Com o fim do presídio, o aumento de moradores e os freqüentes naufrágios nos arredores da ilha, a população de ratos cresceu a ponto de incomodar bastante a comunidade. A idéia de levar teiús parecia fazer sentido de um ponto de vista simplista e nada sistêmico.
Eles são lagartos vorazes que existem em grande parte do território nacional. Como predadores e onívoros, seriam excelentes caçadores de ratos, exceto por um detalhe que faria toda a diferença: os horários de trabalho e de lazer de cada um. Enquanto os ratos saem das tocas durante a noite e descansam de dia, os teiús fazem o contrário. E assim viveram felizes cada um na sua até os dias de hoje. Os ratos continuam aumentando e os teiús se deliciam com os ovos das aves marinhas, causando mais desequilíbrio.
Sabe-se que a caça de animais nativos é proibida, mas em Fernando de Noronha caçar teiús é tolerado. E sua carne é muito saborosa e saudável. Esse é um típico caso em que uma idéia é posta em prática sem que seja amplamente discutida com profissionais de áreas diferentes, sem que o tema seja analisado sob diversos aspectos, sem que a dúvida sadia faça o bom serviço de questionar se aquilo vai dar certo ou não. Excesso de autoconfiança, lógica reducionista e falta de visão sistêmica. Uma combinação bombástica em qualquer ecossistema. Que o fato nos sirva, pelo menos, de lição. A propósito, alguém é servido de cozido de teiú? Em Fernando de Noronha não falta.
