Concurso Cultural Ler e Escrever é Preciso

orientações para o professor

ensino fundamental 26° ao 9° ano
Conteúdo e texto: Maria Betânia Ferreira e Dora Carrasse

Os participantes desta categoria

Muitas mudanças acontecem entre o início e o fim do Fundamental 2. O começo ainda é marcado pela necessidade de completar a construção da ideia de que o mundo é belo; quanto mais perto do 9° ano, mais forte a necessidade de construção da ideia de que o mundo é verdadeiro. Enquanto isso, nosso pré-adolescente ou adolescente...

  • ... continua observando atentamente o comportamento dos adultos;
  • ... fica inseguro por causa das mudanças corporais às quais precisa se adaptar;
  • ... busca mais apoio dos "iguais" que dos adultos;
  • ... tem como preocupação central os relacionamentos;
  • ... começa a busca de uma nova identidade e um modelo "ideal" de adulto;
  • ... começa a ter uma "linguagem de classe" paralela a um constante diálogo interior (pode falar consigo mesmo e também escrever coisas que não quer ou não consegue falar no grupo ou com os adultos);
  • ... forma as bases de seu desenvolvimento ético;
  • ... começa a ter algumas responsabilidades sociais.

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece.
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski

A forma: livre

Procure chamar a atenção dos alunos para diferentes tipos de textos, comentando as características de cada um (tipo de linguagem que se adapta melhor, tamanho, escolha de palavras, relação entre esses elementos e o tema...). Isso facilita a escolha e ajuda a ultrapassar a barreira dos modelos incorporados.


A palavra perfura a carapaça para chegar a descobrir o "eu mesmo".

 

O ponto de partida: a ideia de CUIDAR DA VIDA (Coautoria no Cuidado).

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Cora Coralina

Essa ideia se desdobra em pequenas coisas que podem fazer diferença, em ações cuidadosas, porque somos todos coautores de uma vida melhor ou, pelo menos, mais satisfatória.

Não esperamos o retorno na forma de queixas sobre a difícil realidade do nosso mundo, nem acusações a possíveis responsáveis pelos desmazelos que levam tanta gente a apregoar que "o mundo está perdido”, proclamar que “este mundo não tem mais jeito” e concluir que “ninguém faz nada, mesmo".

Esperamos, isto sim, um retorno coerente com a ideia de que os seres humanos estão ligados, entrelaçados. Isso faz de nós coautores do “mundo como ele é” e nos compromete com um senso de limites em nossa ação no mundo (em outras palavras: somos malhas da mesma rede, e nenhum mundo em que as ações de uns ferirem os outros pode ser bem-sucedido).

Como, então, cuidar da vida, quando se é criança? Que venham as ideias, com toda a diversidade e a liberdade que a criação implica, e que muitas pérolas brilhem para o deleite de todos!

Pérolas...
Pérolas, pérolas, pérolas, pérolas?
Pérolas!

Quando acontece de, num texto, alguma coisa faiscar, brilhar, saltar - por sua originalidade de construção, por uma escolha inusitada de palavras, pela impressão de que a alma de quem escreve se deixou vislumbrar, ou mesmo por um uso gramaticalmente incorreto que produz um efeito interessante, encontramos uma pérola.

Os jurados que leem os textos escritos por você ou por seus alunos fazem isso com olho de catador de pérolas, e não com olho de censor, e muito menos olho de avaliador de desempenho escolar. Viva a originalidade! Por que não ousar? É arriscando a pôr o pé um pouco além do limite das regras estabelecidas que a humanidade avança...

 

A leitura que ajuda a escrever melhor:

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede. Cora Coralina

Conversas e experimentos a partir da literatura ajudam MUITO a facilitar e enriquecer a produção de textos. Esmiuçar obras literárias pode ser uma atividade de investigação lúdica - não se trata de « análise literária », e sim de uma olhada carinhosa, gentil, empática no escrito alheio, em busca de seus segredos, iscas, mistérios e achados. Como este, um verdadeiro diamante de um poeta japonês do século XVII:

Casca oca:
a cigarra
cantou-se toda. Bashô

A vinculação intencional e bem feita entre o ato de ler e o ato de escrever, em sala de aula e nas bibliotecas, pode conduzir ao aprimoramento e ao aprofundamento de ambos. Quem lê se alimenta de formas, conteúdos e modelos para sua própria expressão escrita; quem escreve experimenta, inevitavelmente, a presença de significados por trás das palavras - uma das chaves mestras para solucionar o grande quebra-cabeça mundial do analfabetismo funcional, com suas multidões de "leitores mecânicos" incapazes de mergulhar no que leem.

Na falta de livros, vá ao encontro deles nas páginas da grande biblioteca que é a Internet.

 

Na sala de aula

A proposta e o material oferecido podem gerar muita conversa gostosa e produtiva na sala de aula, muitas trocas de opiniões e argumentos, momentos de descontração e participação. A partir da 6ª edição, passamos a torcer também para que despertem em você a vontade de escrever seu próprio texto para a categoria 5, da qual participam educadores e profissionais de bibliotecas.

Que o concurso seja uma celebração ao ato de escrever com gosto, liberdade e espontaneidade! O ponto de partida, que é a ideia de CUIDAR DA VIDA, foi adaptado a cada categoria para que todo mundo sinta prazer em escrever seu texto e, ao mesmo tempo, tenha uma experiência ajustada à sua fase de vida e ao seu nível de formação.

Exemplos de assuntos de conversa:

  • Coautoria: o que é? Somos coautores do nosso mundo, da nossa vida? Como? É possível escolher o que fazer? É possível escolher como fazer? Isso muda o mundo?
  • Exemplos de entrelaçamento entre ações e reações, entre modos de agir e efeitos desencadeados, entre o mundinho pessoal e o "mundão"...
  • "Subjetividade partilhada": tudo o que fazemos é uma forma de resposta diante do mundo e diante das outras pessoas; somos indivíduos, mas somos "em diálogo", somos nossos relacionamentos, somos nossas ações e nosso jeito de fazer as coisas.
  • As decisões que tomamos ressoam no mundo.
  • O contágio das emoções, das ideias, dos sentimentos.
  • Ter medo de dizer o que sabe X adotar o pensamento e o jeito dos outros para não ser criticado (é mais seguro repetir o que outros falaram).
  • A falsa ideia de que para ser belo e bom o escrito tem que ser complicado.
  • A escolha das palavras para dizer algo que seja melhor que o silêncio.
  • Degustar os ingredientes da leitura e da escrita: a ideia é saborear palavras, frases, expressões, versos, trechos de poemas e poemas inteiros como um tira-gosto que ajuda a descobrir como compor textos em poesia. Degustar é experimentar, provar, saborear, avaliar pelo paladar. Imagine, por exemplo, em sua sala de aula, os alunos mergulhando em ideias como "Um homem entre os homens, só" ou "Geladeira cheia", e depois uma boa conversa bem animada sobre as imagens que lhes vêm à mente, os sentimentos que as palavras despertam, o que é surpreendente, o que é bonito, o que é estranho...
  • Essas conversas, em si mesmas, já fazem nascer poemas coletivos, que você pode ir anotando para mostrar que a boa escrita começa na alma, nas lembranças, nos diálogos, na liberdade no uso das palavras.
 

Um título não deve aprisionar a palavra, e sim abrir-lhe a porta.

O título é de livre escolha, a partir de um (ou mais) destes ingredientes do cuidado com a vida que escolhemos porque, nesta fase da vida, os relacionamentos são a preocupação central:

  • AMAR GENEROSAMENTE.
  • IMPORTAR-SE PROFUNDAMENTE
  • FALAR DELICADAMENTE

Aproveite o trabalho de conversa sobre a leitura em sala de aula para chamar a atenção dos alunos para o prazer que se pode extrair da palavra escrita (pessoal ou alheia) e faça da escolha do título mais um ato de criação, a partir da ideia que é ponto de partida - CUIDAR DA VIDA - e do subtema escolhido (pode ser um, dois ou os três dos ingredientes do cuidado com a vida que listamos acima).

 

O momento sagrado da escrita

E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo, que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras — reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim por tintim. Millôr Fernandes

A alma da boa escrita tem raiz na vida concreta.

É no cotidiano das pessoas que a história se concretiza, que a geografia se localiza, que a matemática se equaciona, que os valores se aplicam, que a grande realidade se revela, que o universo se exemplifica.

Enquanto uma pessoa escreve, está mergulhada em seu próprio mundo. Sua escrita vai possibilitar que outros – os leitores – dividam com ela esse mundo único.

Enquanto uma pessoa escreve, está em jogo muito mais do que preencher uma folha em branco. A imaginação e a percepção se ampliam. Ali sentada no seu lugar na sala de aula ou à mesa da cozinha de sua casa, ela prepara sozinha o que vai se tornar uma atividade social, um ato de comunicação. Ela vai dar um recado que é seu e escolhe estratégias para convencer os leitores de que o que escreve tem qualidade. O que é individual vai se tornar coletivo.

O tema (Cuidar da vida, ou cuidados com a vida) e os três ingredientes que escolhemos para esta categoria (amar generosamente, importar-se profundamente e falar delicadamente) são suficientemente abertos para dar origem a todo tipo de texto, do poético ao dissertativo, do pessoal ao conceitual, do sintético ao derramado... Confiamos no valor dessa diversidade e, na verdade, contamos com ela para compor um retrato do CUIDADO (que é uma teia que se tece com muitas sutilezas e subjetividades).

"Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo." Caio Fernando Abreu

A poesia é a fala da alma (Stephen K. Levine)

 

Releitura

Um leitor que não é o autor do texto identifica imediatamente o que está confuso, repetitivo, cansativo ou incorreto. Os colegas conseguem chamar a atenção do autor do texto para essas "falhas". Com isso, ele tem mais ferramentas para fazer uma nova versão do texto e também para se tornar um leitor atento do que ele mesmo escreve. Paralelamente, continuamos insistindo no aprimoramento dos textos produzidos pelo próprio autor, com apoio dos colegas e dos professores – essencialmente, a partir de leitura em voz alta, para tomada de consciência da qualidade da mensagem escrita: ler os textos em voz alta não para dizer "isto está bom, aquilo não está" e sim para despertar novas percepções e alternativas.

 

A escolha: exercício de consenso

CONSENSO é conformidade, acordo ou concordância de idéias, de opiniões. As pessoas apresentam argumentos para justificar suas preferências para convencer as demais.

Buscar consenso é mais demorado do que votar e escolher por maioria, mas é uma experiência muito mais rica de diálogo e reflexão. Todos têm oportunidade de apresentar suas ideias, escolher argumentos e palavras para defendê-las e ouvir os outros de verdade.

A caminho da sabedoria, o ser humano tem que passar pelo exercício do consenso.

 

Na sala de aula

Você, professor, conhece melhor do que ninguém o funcionamento de sua turma. Como selecionar um dos textos para a etapa seguinte? Voto secreto? Discussão para decidir por consenso? Voto aberto? As possibilidades são muitas. Nós achamos que a busca de consenso é sempre o melhor caminho e se presta perfeitamente para que as crianças (e também os adultos) aprendam que o mundo pode ser diferente:

Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro... Rubens Alves

O dia-a-dia escolar nem sempre tem lugar para uma discussão mais longa. Mais uma vez, confiamos no seu discernimento para decidir o que lhe parecer mais adequado.
Aqui vão três sugestões para tornar os textos conhecidos antes da escolha:

1. O aluno que quiser concorrer lê seu texto em voz alta para os demais;

2. Os textos são afixados num quadro mural para serem lidos por todos;

3. Os textos circulam entre os alunos.

 

Na escola

Nesta etapa, sugerimos que os professores se reúnam e escolham os textos que serão enviados para o Ecofuturo.
Nós achamos que buscar consenso é sempre o melhor caminho.