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Por que forma livre? Primeiro, porque o ser humano nessa fase da vida vive procurando liberdade - nem que sejam migalhas. Segundo, porque aumenta a possibilidade de obter retorno de gente assim:
"Encontre para mim talentos escondidos, apaixonados, adolescentes que, em lugar de se prepararem para os exames oficiais, explorem sem cessar um pedaço ou um mecanismo do mundo. Tudo, menos gente preguiçosa. Eu quero gente trabalhadora, mas gente trabalhadora que só aguente a liberdade." Erik Orsenna, in Dernières nouvelles des oiseaux
A criação nessa forma livre vai partir, porém, de uma IMAGEM escolhida pelo autor, na qual ele identifique que existe BELEZA (e que ele deverá descrever depois do texto criado, para que seus leitores entendam de onde ele partiu). O trecho de Rubem Alves que você encontra no quadro a seguir fala exatamente do poder inspirador das imagens, e também ilustra perfeitamente o tipo de descrição que o jovem depois de criar seu texto em forma livre (parte destacada em azul).
Que tipo de imagem? Qualquer um, sem restrições. Pode ser obra de arte, mas também pode ser foto de gente ou de coisa, desenho, figura abstrata... Afinal, sabemos todos que a beleza está, antes de mais nada, no olhar!
Se a arte é, nas palavras de Bloch, "uma antecipação da morada final do homem - o Paraíso -, conclui-se que a intenção da beleza é a transformação do mundo. Cada obra de arte é uma oração pela volta do Paraíso. Beethoven teria alegremente trocado a beleza da Nona Sinfonia pela beleza de um universo embriagado pela alegria.
Faz dias vi na televisão um anúncio que já vira muitas vezes.
Campos verdes se perdendo no horizonte, riachos de água cristalina, bosques, cavalos selvagens livres, em galope. A imagem era cheia de beleza. Utópica. Impossível não desejar estar lá.
[...]
Não conheço nenhuma pessoa que tenha sido convencida pela verdade da ciência. Conheço muitas, entretanto, que foram mortalmente seduzidas pela beleza da imagem. A verdade fica guardada na cabeça. Mas a beleza faz amor com o corpo. O senhor - a televisão - sabe disto: que as pessoas não são movidas pela verdade; elas são movidas pela beleza.
Imagino que o senhor alegremente trocaria toda a arte e toda a beleza que a Fundação Roberto marinho tem restaurado, preservado e celebrado pela alegria de uma beleza encarnada num povo e num país. Toda a beleza do mundo anuncia o Paraíso. Conclui-se que o Paraíso é bem superior a toda a beleza da arte - porque o Paraíso é a arte tornada vida.
A tarefa de tornar belo um povo e um país, assim, é superior à tarefa (maravilhosa!) de restauração, preservação e celebração da beleza! E é esse o desafio que lhe lanço: o de ser mais que um simples mecenas, protetor das artes: o senhor pode ser um artista que arranca da pedra bruta um povo e um país!
[...]
A beleza pode seduzir o povo a amar a natureza, a preservar a saúde, a se alegrar com as artes, a cuidar das crianças, a viver de forma civilizada, a respeitar a vida...
Rubem Alves, "Caro Sr. Roberto Marinho", in Entre a ciência e a sapiência - O dilema da educação.
Essa ideia se desdobra em pequenas coisas que podem fazer diferença, em ações cuidadosas, porque somos todos coautores de uma vida melhor ou, pelo menos, mais satisfatória.
Não esperamos o retorno na forma de queixas sobre a difícil realidade do nosso mundo, nem acusações a possíveis responsáveis pelos desmazelos que levam tanta gente a apregoar que "o mundo está perdido", proclamar que "este mundo não tem mais jeito" e concluir que "ninguém faz nada, mesmo".
Esperamos, isto sim, um retorno coerente com a ideia de que os seres humanos estão ligados, entrelaçados. Isso faz de nós coautores do "mundo como ele é" e nos compromete com um senso de limites em nossa ação no mundo (em outras palavras: somos malhas da mesma rede, e nenhum mundo em que as ações de uns ferirem os outros pode ser bem-sucedido).
Que venham as ideias sobre cuidar da vida, com toda a diversidade e a liberdade que a criação implica, e que muitas pérolas brilhem para o deleite de todos!
Pérolas...
Pérolas, pérolas, pérolas, pérolas?
Pérolas!
Quando acontece de, num texto, alguma coisa faiscar, brilhar, saltar - por sua originalidade de construção, por uma escolha inusitada de palavras, pela impressão de que a alma de quem escreve se deixou vislumbrar, ou mesmo por um uso gramaticalmente incorreto que produz um efeito interessante, encontramos uma pérola.
Os jurados que leem os textos escritos por você ou pelos jovens e fazem isso com olho de catador de pérolas, e não com olho de censor, e muito menos olho de avaliador de desempenho escolar. Viva a originalidade! Por que não ousar? É arriscando a pôr o pé um pouco além do limite das regras estabelecidas que a humanidade avança...
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede. Cora Coralina
Conversas e experimentos a partir da literatura ajudam MUITO a facilitar e enriquecer a produção de textos. Esmiuçar obras literárias pode ser uma atividade de investigação lúdica - não se trata de « análise literária », e sim de uma olhada carinhosa, gentil, empática no escrito alheio, em busca de seus segredos, iscas, mistérios e achados. Como este, um verdadeiro diamante de um poeta japonês do século XVII:
Casca oca:
a cigarra
cantou-se toda. Bashô
A vinculação intencional e bem feita entre o ato de ler e o ato de escrever, no coletivo e nas bibliotecas, pode conduzir ao aprimoramento e ao aprofundamento de ambos. Quem lê se alimenta de formas, conteúdos e modelos para sua própria expressão escrita; quem escreve experimenta, inevitavelmente, a presença de significados por trás das palavras - uma das chaves mestras para solucionar o grande quebra-cabeça mundial do analfabetismo funcional, com suas multidões de "leitores mecânicos" incapazes de mergulhar no que leem.
Escolha a sua própria lista de livros, contos, poemas, trechos e autores, entre os que já moram no currículo, os que você ama, os que os alunos conhecem e sugerem...
Na falta de livros, vá ao encontro deles nas páginas da grande biblioteca que é a Internet.
A proposta e o material oferecido podem gerar muita conversa gostosa e produtiva no coletivo, muitas trocas de opiniões e argumentos, momentos de descontração e participação. A partir da 6ª edição, passamos a torcer também para que despertem em você a vontade de escrever seu próprio texto para a categoria 6, da qual participam educadores e profissionais de bibliotecas.
Que o concurso seja uma celebração ao ato de escrever com gosto, liberdade e espontaneidade! O ponto de partida, que é a ideia de CUIDAR DA VIDA, foi adaptado a cada categoria para que todo mundo sinta prazer em escrever seu texto e, ao mesmo tempo, tenha uma experiência ajustada à sua fase de vida e ao seu nível de formação.
Escolha a sua própria lista de poemas e autores, e não deixe de lado a boa música, nem o repertório folclórico, que costuma funcionar às mil maravilhas para quebrar barreiras, e nada mais é que poesia cantada e dançada!
Aproveite bem o trabalho de conversa sobre a leitura no coletivo e chame a atenção dos jovens para o prazer que se pode extrair da palavra escrita (pessoal ou alheia) e faça da escolha do título a partir da ideia que é ponto de partida - CUIDAR DA VIDA - mais um ato de criação.
A alma da boa escrita tem raiz na vida concreta.
É no cotidiano das pessoas que a história se concretiza, que a geografia se localiza,
que a matemática se equaciona, que os valores se aplicam, que a grande realidade se revela, que o universo se exemplifica.
"Quando tudo parece sem saída sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo." Caio Fernando Abreu
A poesia é a fala da alma (Stephen K. Levine)
Um leitor que não é o autor do texto identifica imediatamente o que está confuso, repetitivo, cansativo ou incorreto. Os colegas conseguem chamar a atenção do autor da redação para essas "falhas". Com isso, ele tem mais ferramentas para fazer uma nova versão do texto e também para se tornar um leitor atento do que ele mesmo escreve. Paralelamente, continuamos insistindo no aprimoramento dos textos produzidos pelo próprio autor, com apoio dos colegas e dos orientadores sociais – essencialmente, a partir de leitura em voz alta, para tomada de consciência da qualidade da mensagem escrita: ler os textos em voz alta não para dizer "Isto está bom, aquilo não está", e sim para despertar novas percepções e alternativas.
CONSENSO é conformidade, acordo ou concordância de idéias, de opiniões. As pessoas apresentam argumentos para justificar suas preferências para convencer as demais.
Buscar consenso é mais demorado do que votar e escolher por maioria, mas é uma experiência muito mais rica de diálogo e reflexão. Todos têm oportunidade de apresentar suas ideias, escolher argumentos e palavras para defendê-las e ouvir os outros de verdade.
A caminho da sabedoria, o ser humano tem que passar pelo exercício do consenso.
Você, orientador social, conhece melhor do que ninguém o funcionamento de seu coletivo. Como selecionar um dos textos para a etapa seguinte? Voto aberto? As possibilidades são muitas. Nós achamos que a busca de consenso é sempre o melhor caminho e se presta perfeitamente para que os jovens (e também os adultos) aprendam que o mundo pode ser diferente:
Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro... Rubens Alves
O dia-a-dia no coletivo nem sempre tem lugar para uma discussão mais longa. Mais uma vez, confiamos no seu discernimento para decidir o que lhe parecer mais adequado.
Aqui vão três sugestões para tornar os textos conhecidos antes da escolha:
Nesta etapa, sugerimos que os orientadores sociais reúnam e escolham os textos que serão enviadas para o Ecofuturo.
Nós achamos que buscar consenso é sempre o melhor caminho.