18 mar

Conhecimento e respeito

É bom começar colocando os pingos nos “is”: não existe empresa sustentável. Pronto, falei! A base teórica da sustentabilidade foi fundamentada no conceito dos recursos da Terra e da manutenção de seus ciclos naturais. Uma empresa, por mais que passe com louvor na prova do Triple Bottom Line, não possui, sozinha, o condão de decretar sua sustentabilidade.

Primeiro, não se pode falar em sustentabilidade em um planeta cuja única espécie que fala, pensa, escreve e joga curling não é capaz de frear seu impulso por domínio e busca material. Essa condição, que direciona os princípios da economia, tem potencial para inviabilizar o ambiente que nos sustenta e o amálgama civilizatório que determina as relações, incluindo as no mundo dos negócios. Aos executivos, sugiro imaginar como administrar uma empresa que por ano gasta 30% a mais do que gera. Exatamente a situação do peculiar ambiente de negócios chamado Terra. E para que uma empresa, seja sustentável, é necessário que a vida no planeta também o seja.

Segundo, porque 99% das espécies que habitaram o planeta já desapareceram. E o destino do Homo sapiens provavelmente não será diferente. As chances de sobrevida não são lá auspiciosas e as estamos esgotando. As possíveis saídas de emergência atendem por conhecimento e respeito.

O conhecimento nos oferece base para compreensão de processos e limites. Permite-nos o que Peter Russel, no livro O Buraco Branco no Tempo, chamou de feedback positivo, um vortex no qual criatividade gera criatividade, encurtando intervalos entre as novas descobertas, criações e desenvolvimento tecnológico. A cada dia, faremos mais com menos, poupando recursos, reduzindo resíduos, elaborando processos menos impactantes e melhorando a qualidade de vida da espécie. Nesse contexto, a chamada “economia verde” não será mais vista como diferencial, e sim como única lógica possível. Não restará ao sistema econômico alternativa a não ser a “cor verde”.

O resgate do respeito pelo ambiente e pelos seres vivos nos permitirá transformar nossos valores e comportamentos, para adoção de um modus vivendi mais equilibrado. Hoje, a visão que temos da biodiversidade e da natureza é majoritariamente utilitarista, por isso os tratamos como meros “recursos”. Assim, para conservar alguns de seus componentes temos de lhe atribuir valor financeiro.

O universo tem 13 bilhões de anos. A Terra, 4,5 bilhões. O Homo sapiens, 180 mil anos. A agricultura, parcos 10 mil anos, e o desenvolvimento industrial, cerca de 150 anos. Daí, é fácil chegar à conclusão de que a mesma espécie que fala, pensa, escreve e joga curling faz, em um momento brevíssimo da história, uma bagunça danada, pondo em risco a complexidade que resultou no período mais rico da vida no planeta e que acabou por possibilitar também o desenvolvimento das relações econômicas, empresas, clientes e stakeholders.

Assim, voltando às empresas e suas boas iniciativas, mais vale fazer direito a lição de casa e incorporar ao ambiente de negócios o conceito da educação para a sustentabilidade, grande promotor da integração entre conhecimento e respeito, do que o esforço frívolo gasto nas festividades da semana do Meio Ambiente.

Autor: Paulo Groke

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