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Crochê literário



O Instituto Ecofuturo está realizando uma grande pesquisa para conhecer os impactos  de seus projetos nas cidades onde existem Bibliotecas Comunitárias Ler é Preciso. Como as pessoas e a Biblioteca se relacionam? A Biblioteca é um espaço vivo para a comunidade local? Que atividades a Biblioteca promove, dentro e fora de suas fronteiras, com o objetivo de valorizar a leitura e ressaltar o papel do livro na formação da cidadania?

Ouviremos os responsáveis pelas 71 Bibliotecas Comunitárias Ler é Preciso do País e também os líderes comunitários envolvidos com leitura em geral. São muitas pessoas, cidades e histórias diferentes que anseiam por serem conhecidas. Realizar esse levantamento é como fazer um crochê de várias cores, fios e motivos. Aos poucos e continuamente, poderemos acompanhar o mágico crescimento de uma rede e confirmar que na vida, assim como nas malhas tecidas pelas mãos, um fio, literalmente, puxa outro. Cada história que vier à tona acrescentará sua identidade original e única nesse trabalho coletivo, criando uma realidade cada vez mais ampla e mais rica.  

Queremos conhecer o que está sendo tecido em cada Biblioteca. De cada história desvendada, queremos achar a atitude inicial e o autor da ação que desencadeou o processo e a sucessão de fatos. Queremos saber o que veio depois do primeiro passo e trabalhar pelos próximos movimentos para que essa ação, ao conectar-se com muitas outras, faça sentido na construção do melhor lugar do mundo aqui e agora.

O que acontece na Biblioteca Comunitária Ler é Preciso de Vassouras (RJ)?

Para conhecer o que se passa na Biblioteca Comunitária de Vassouras, no Rio de Janeiro, convidamos a professora Maria Teresa Paliologo de Britto, jurada veterana dos Concursos de Redação Ler é Preciso. Marilene Caldas de Faria, responsável pela Biblioteca, agendou uma entrevista da professora com a líder comunitária Maria de Lurdes, de 78 anos. Leia o depoimento de Maria Teresa sobre sua visita à Biblioteca de Vassouras e a conversa que teve com D. Lurdes, Marilene e o Sr. Damião Pereira, agricultor, marido da D. Maria Deoléria Pereira, uma das protagonistas desta história.

              


“Mesmo funcionando dentro da Escola Municipal José Carlos Vaz de Miranda, a Biblioteca de Vassouras é comunitária. D. Lurdes foi uma das pessoas que mais se mobilizaram para sua implantação. Nosso encontro foi cheio de emoção. Percebi o quanto ela estava ansiosa e eu mesma senti a responsabilidade de corresponder às suas expectativas. Além do leve aroma de talco perfumado de D. Lurdes, pairava no
ar uma certa tensão. “E a vida, D. Lurdes, como está?”, perguntei, estabelecendo uma ponte. Logo a conversa ficou animada. Contou-me que sempre gostou muito de ler, e acredito que isso foi decisivo para que ela demonstrasse compreender bem a diferença entre o que se espera de uma biblioteca comunitária e de uma biblioteca escolar.

Perguntando-me se eu conhecia o livro Meu Pé de Laranja-Lima, D. Lurdes leva-me a passear como ouvinte. Conta-me que a cidade de Vassouras foi palco das gravações do filme baseado nessa obra. A equipe filmava ao lado da sua casa, e ela fez amizade com o elenco, de quem ganhou um exemplar autografado. Com tristeza, ela revela que deu o livro à biblioteca, mas, como o exemplar precisava de reparos, foi para São Paulo e nunca mais retornou.

O trabalho de apoio na Biblioteca ela fazia às sextas-feiras, como se fosse um chá literário. Participavam algumas senhoras, entre as quais uma escritora e jornalista.

Despedi-me emocionada de D. Lurdes. Por coincidência, mas não por acaso, tive em seguida a honra de conhecer o Sr. Damião Pereira, que apareceu na Biblioteca pouco depois de Marilene ter falado dele e de sua esposa D. Maria. Repetindo toda a história com alegria (leia o box), disse que se sentia agradecido pelo fato de a cidade ter um espaço como aquele, com uma pessoa tão atenciosa como Marilene. Comprei um dos crochês de D. Maria para presentear D. Lurdes com um bilhete agradecido. Mais que um presente, era um jeito de consolidar minha conexão com essas mulheres. O que fiquei sabendo em Vassouras me mostrou que as pessoas de lá estão à frente dos projetos. Se a responsável pela Biblioteca ficasse apenas guardando livros, a magia desses encontros não seria possível. Tenho certeza de que essa pesquisa do Ecofuturo encontrará muitas outras Marilenes pelo País”.

Maria Teresa Paliologo de Britto
Professora


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