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"Gentileza é respeitar a necessidade do outro."

"Acredito em duas coisas que a escola pode fazer: a clarificação de valores e a qualidade do convívio."
Yves de La Taille

Deixamos o fio da conversa no mês passado enrolado em perguntas nada fáceis sobre o homem e seus relacionamentos. O brilhante educador Paulo Freire dizia que melhor seria se nos chamássemos de “sendo humanos” em vez de “seres humanos”. Seria um jeito prático – e sem dúvida esperançoso – de lembrar que a humanidade não está pronta nem acabada. Nas últimas semanas, estivemos mergulhados em dor e espanto pelo brutal assassinato de uma criança de cinco anos. A própria mídia reconhece a saturação da notícia, mas defende-se alegando que faz sua obrigação ao atender a curiosidade mórbida da audiência.

  A morte é um enigma que paira inexplicável sobre toda a nossa incrível tecnologia. Se cercada de violência, atrai olhares e ouvidos, instaura polêmicas. Uma delas diz respeito à violência como parte da índole humana. Temos ou não uma inclinação natural para a violência?

“Não; definitivamente, não”. Assim pensa o psicólogo Yves de La Taille, especialista em Desenvolvimento Moral. “Quando algo faz parte da índole, é algo inegociável. Em se tratando de violência, os casos são de patologia, como dos psicopatas”, diz. O assunto é polêmico. Enquanto uns enfatizam a violência como algo inato, outros preferem investir na idéia de que precisamos nos educar para não sermos violentos. É como preferir olhar o copo com água pela metade como quase vazio ou quase cheio. De qualquer forma, não chegamos até aqui de repente e não será de repente que sairemos dessa. Somos seres em processo de humanização. Assim como aprendemos a ficar de pé, a andar e a falar, também devemos aprender sobre aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: as virtudes.

Segundo Yves, a escola pode atuar na clarificação de valores e na qualidade do convívio. “Não raras vezes valorizamos algo em nós ou nos outros, mas sem clareza ou apreensão racional. O que se pode fazer em educação é clarear essa noção de valores”, afirma ele, fazendo questão de insistir que não se trata de fazer terapia. Cada qual, na sua própria intimidade, é chamado a pensar sobre si. Através da clarificação de valores podemos tomar consciência do que é ser violento. Ele explica a violência como uma forma drástica de dominação do outro. Se quero ser vencedor, o outro jamais será um parceiro, mas uma ameaça, um adversário a ser vencido.

É no convívio que a coerência dos discursos pode ser medida. É também no dia-a-dia que temos a chance de exercitar tolerância, generosidade, paciência e toda a gama de virtudes. Se, porém, não aprendemos, como saber? Se não vemos exemplos em casa e na escola, como cultivar virtudes?  

Daí a urgência de falar em Educação Moral e Ética em nível curricular. “Deixo aos didatas a tarefa de resolver se a melhor solução é a transversalidade ou não, mas Educação Moral e Formação Ética devem ser temas curriculares, sem dúvida nenhuma. Educação Moral diz respeito aos deveres; Formação Ética diz respeito à vida boa, ao sentido da vida, ao sentido que a pessoa atribui à vida e a si próprio”, explica Yves.

O que diz o psicólogo sobre gentileza? Segundo ele, a gentileza liga-se muito à idéia de respeito: “A palavra gentil é ambígua. Você pode ser gentil só com quem conhece ou só naquele dia porque acordou de bom humor. Violência é fazer do outro um meio. O antídoto moral da violência é fazer do outro um fim em si mesmo, ou seja, nunca tratar o outro como meio para se obter alguma coisa, material ou não. Palavras como gentileza e generosidade não têm uma definição muito clara como massa, peso e volume, por exemplo. Algumas virtudes são incontornáveis, como a justiça, de respeitar o direito do outro. Gentileza é respeitar a necessidade do outro. A boa educação é outra virtude incontornável. Um jeito simples de imaginar a importância de uma virtude é imaginar o mundo sem ela”.

“Nossa sociedade atual cultua valores que sustentam a violência, uma vez que uma das grandes ideologias de hoje é a de ser um vencedor – tanto que um dos piores xingamentos é “perdedor”. O que é um ganhador? Não é apenas alguém que se dá bem, mas alguém que se dá melhor do que os outros. Existe a idéia de superação. Não se trata mais de vencer na vida, mas de vencer o outro, visto como alguém que se deve superar”. Essa é uma ideologia insustentável, pois nenhuma espécie se perpetua enquanto um indivíduo considera o outro seu adversário. Também a vaidade é um valor cultuado, lembra Yves. “O vaidoso é diferente do orgulhoso. O orgulhoso se acha ótimo e não se importa com o que o outro acha; o vaidoso precisa do olhar de admiração do outro. Ele compra um carrão para impressionar o olhar do outro. Vivemos numa sociedade que nos exige marcas de vencedores para mostrar ao outro que somos vencedores. Somos reféns do julgamento dos outros”.

Nesse sentido nunca foi tão urgente tratar de Ecologia Humana. Falar, abrir espaço para falar, ouvir, pensar, estudar, sempre com a postura de aprendizes. “Eu diria que algumas virtudes são justamente essenciais em determinados momentos: a coragem, por exemplo. Coragem é superação do medo, hoje muito associada à violência e ao sexo masculino. Ser corajoso é ser forte, poderoso. A criança descobre logo cedo que a coragem não é ausência de medo, mas a superação dele. Violência, força, coragem... A discussão sobre a coragem é muito oportuna hoje”.

“O filme Tropa de Elite fez muito sucesso entre os jovens porque ressalta a virtude da coragem. Inegavelmente, invadir uma favela e enfrentar traficantes é um ato de coragem, mas o objetivo é puramente auto-centrado. A polícia entra na favela para eliminar alguém que matou um membro da polícia. Isso não é polícia; é guerrilha”.

Em pesquisa realizada com meninas e meninos de escolas públicas e privadas, Yves de La Taille perguntou quem é mais virtuoso: o homem ou a mulher? Na classe média (escola privada), deu homem; entre os meninos da escola pública, deu empate – ou seja, os meninos da escola pública não acham que o homem seja mais corajoso que a mulher, provavelmente pela própria experiência de vida de ver a coragem de suas mães.

  “O que me assusta um pouco hoje em dia é essa suspeitíssima assimilação das palavras ética e valor pelas empresas. No sistema capitalista, uma empresa tem, em última instância, o lucro como valor maior.

A empresa é regulada juridicamente – e será ou não regulada moralmente –, pois a moral não é imposta por leis. O fato é que tudo pode ser valor, desde comer no McDonald´s até mesmo matar”, conclui Yves. A questão se resume no seguinte: “Quais são os valores em que acredito, a minha família pratica, a minha escola cultiva, a minha comunidade apóia? Qual o lugar do outro em nossas vidas?”. Entenda-se “o outro” não somente como aquele que se conhece, mas especialmente o que está longe dos olhos e do coração.

 Para ir além...

Faça o download do livro A vida que a gente quer depende do que a gente faz e leia o artigo que Yves de La Taille escreveu sobre a sustentabilidade do planeta

Conheça mais o pensamento de Yves de La Taille:

“Moralidade e violência: a questão da legitimação de atos violentos” em http://www.simpsodes.pro.br/livro/SIMPSODES_Texto_01_Yves%20de%20La%20Taille.pdf . O autor argumenta que a polidez pode oferecer um terreno sólido para a construção do juízo moral das crianças em http://www.scielo.br/pdf/cp/n114/a04n114.pdf.

LIVRO

O pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville. Editora Martins Fontes. Disponível em http://br.geocities.com/mcrost04/index.htm.

Por que ler? Porque aprender sobre virtudes é uma urgência contemporânea. Um tratado de virtudes poderá servir para “tentar compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver, e medir, com isso, pelo menos intelectualmente, o caminho que daí nos separa.”

FILME

A Festa de Babette, 1987 (Dinamarca)

Por que assistir? Para ver a delicadeza do ato de dar prazer ao outro com a preparação ritualística da comida.