Ecologia Humana

“Ser mãe é, antes de tudo, ser generosa. Permitir o crescimento de uma vida dentro de seu corpo é um ato de generosidade”, diz o Dr. Carlos Eduardo Corrêa, pediatra e neonatologista.

“Eu queria pedir o favor de deixarem seus calçados aqui fora”. Assim o pediatra Carlos Eduardo Corrêa costuma receber seus visitantes – clientes ou curiosos como nós, que fomos falar com ele sobre gentileza. O costume oriental de tirar os sapatos antes de entrar nas casas, deixando para trás o pó do mundo, é um sinal de respeito, mas também de gentileza, especialmente no espaço colorido em que bebês engatinham e onde se respira infância por todos os lados.
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Muitos estudos científicos ressaltam a importância da primeira infância e seus efeitos na vida adulta, influenciando nossa visão de mundo e a forma como nos relacionamos com os outros. Por isso, procuramos o Dr. Cacá, como é chamado por todos, para ouvir alguém que cuida do ser humano desde antes de seu nascimento e acompanha seus primeiros passos na vida. |
“Ser mãe é ser generosa”, afirma ele, especialista em aleitamento materno e reconhecido pelo trabalho de alimentação complementar. As palavras acolhimento e vínculo estão na base de sua proposta. Defensor de longa data do alojamento conjunto, ou seja, da permanência do recém-nascido no quarto do hospital junto com a mãe, o Dr. Cacá é a favor da aproximação incondicional entre o bebê e seus pais. “O ser humano perdeu o costume de reverenciar os mais velhos, a natureza, a magia de um nascimento; a mulher, nem tanto, porque traz em seu corpo a possibilidade de gerar uma vida, e isso, por si só, constitui um rito de passagem”, diz ele.
Com as mães de bebês prematuros, ele desenvolve o projeto Mãe Canguru, tratamento que começou na Colômbia, na Alemanha e, hoje, consta entre os programas de humanização do parto e nascimento do Ministério da Saúde no Brasil. O bebê é envolvido (gentilmente) por um tecido acolchoado ao redor do tórax da mãe, imitando uma bolsa de canguru, pelo menos uma hora por dia, até que ambos saiam do hospital. O recém-nascido, que chega ao mundo indefeso, faminto e totalmente dependente da mãe, ao ser acolhido em seu peito, logo se recupera com o contato físico, pela força do amor, da gentileza.
O que o Dr. Cacá faz é seguir o fluxo natural de religar mãe e filho, como um maestro que rege a saúde sob a partitura do amor, seja colocando o bebê em redinha ou ninho na UTI, seja na bolsa-canguru ou no sling, seja através de banhos de ofurô com a participação do pai. Métodos e técnicas variam, mas permanece a intenção do vínculo amoroso. “Eu trabalho a relação entre pais e filhos aprofundando o que há de mais primordial nela, que é de natureza animal. O casal só perceberá a complexidade dessa relação se conseguir ir além dos preconceitos”, diz ele. Para os que ousam ir além, ele aconselha que o bebê seja lambido antes de ser massageado. Aqui vale um breve parêntese: o Dr. Cacá sabe o que diz e, não por acaso, está se especializando em Medicina Antroposófica, que ensina a íntima ligação existente entre a língua e o coração – um parentesco embriológico que tem muito a revelar e nos fará entender que o coração e seus 40 mil axônios empreendem algo muito mais sofisticado que o mecanismo de bombear nosso sangue.
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Tudo é uma questão de vínculo. Se nós apoiamos as declarações da Física Quântica de que estamos todos interconectados e somos interdependentes, devemos admitir que pessoas e ambientes se tocam, independentemente de estarmos conscientes disso. Uns se tocam; outros se esbarram, claro... Parede com parede, pele com pele, olho com olho, átomo com átomo; tudo nos rodeia esperando uma chance de contato. A mágica se estabelece quando a ligação consciente acontece. Então, uma rede se configura, o caos encontra a ordem, um sorriso brota no rosto de alguém. |
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As palavras vínculo, brinco e brincadeira têm a mesma raiz: derivam do latim vinculum, que expressa as idéias de atar, unir, cativar, seduzir. Sem vínculo, o mundo acontece em preto e branco. A Dra. Dafne Rattner, técnica da Coordenação da Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, tem uma linha de pesquisa interessante que compara os desenhos feitos por crianças nascidas de cesariana sem tratamento de humanização com os de crianças nascidas de parto normal. É isto mesmo: a criança que teve o vínculo com a mãe faz desenhos coloridos, e a que não teve essa gentileza faz preto e branco. Como diz o Dr. Cacá, “ser cuidado mexe positivamente com nossas emoções”.
Voltemos à frase do profeta Gentileza: “Gentileza gera gentileza". Algumas reflexões merecem nossa atenção full time. Será que dizer ‘bom dia’, ‘obrigado’, ‘por favor’ e ‘com licença’ é o máximo de nossa gentileza? A gentileza polida, filha da boa educação, será a mesma gentileza que aquece a alma de quem a recebe? Como me relaciono com os outros? Eu faço a mágica acontecer passando o calor da gentileza?”. Hora de encerrar tantas perguntas e colocá-las numa bolsa-canguru virtual. Que pena que, para essa humanização diária, o Dr. Cacá não vai poder ajudar...
Para ir além
- O bebê mais feliz do pedaço (The Happiest Baby on the Block)
LIVRO + dvd
Autor: Dr. Harvey Karp, pediatra americano
Editora Planeta
Por que ler: para aprender cinco maneiras especiais de aquietar os bebês. O adulto pode ativar o reflexo da calma na criança através de sons sibilantes. Ela relembra o ambiente que tinha na barriga da mãe e se acalma.
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- Clique aqui para conhecer o livro: "A vida que a gente quer depende do que a gente faz".
- Minisitério da Saúde – atenção humanizada ao recém-nascido – Método Mãe Canguru
- Ecologia Humana: "Gentileza gera gentileza"
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- BLOG do Cacá
http://neonatologiakk.blogspot.com/
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Gentileza gera gentileza? Como? Que atitudes podem irradiar o calor de uma sincera gentileza? Estamos reunindo as idéias e as sugestões mais interessantes. As escolhidas serão publicadas, e o autor ganhará um chaveiro do simpático macaco muriqui (Clique aqui para ver). Envie suas idéias, informando seu endereço, para:


