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Dona Canô : 100 anos de idade e muita história boa pra contar

Ela é mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, mas sua fama em Santo Amaro da Purificação e em todo o Estado da Bahia – e já muito bem espalhada por outros cantos do Brasil – não está ligada apenas a esse fato. Dona Canô conquistou o carinho e o respeito do povo brasileiro por sua bondade, seu carinho pela cultura de nosso país e sua influência com os políticos baianos, sempre em prol das comunidade da região na qual reside.  Por sua ligação à cultura, tornou-se madrinha das Bibliotecas Comunitárias Ler é Preciso, do Ecofuturo, inauguradas na Bahia.

Para inaugurar nosso espaço de entrevistas nesta newsletter, resolvemos homenagear Dona Canô por seus 100 anos de idade e pelo apoio ao Programa Ler é Preciso, reeditando uma deliciosa entrevista realizada em 2004, na casa de Dona Canô, em Santo Amaro da Purificação. A conversa permanece atualíssima, bem a exemplo dela (por Marcus Augusto Ferreira). 

Recôncavo Baiano

O termômetro em Santo Amaro da Purificação registrava 30ºC quando chegamos em frente à casa de fachada simples e estreita, de janelas contornadas de azul, no centro da cidade. Já no corredor de entrada, fotos, objetos e, claro, a música que soava baixo (“A tristeza é senhora/Desde que o samba é samba é assim...”) revelam as figuras ilustres que o endereço abrigou – e ainda abriga.

A matriarca nos recebe com simplicidade e bom humor. Claudionor Viana Teles Veloso é referência para os baianos, no mundo da música e no universo dos cidadãos de Santo Amaro. Dona Canô – é assim que a conhecemos – ri das honrarias que lhe são conferidas e zomba ao admitir “que entrou para a história”. Nega que seja influente, mas fala com intimidade de figurões da política, como o senador Antônio Carlos Magalhães, que não costumava faltar às suas festas de aniversário. É Dona Canô, também, que o povo procura para pedir ajuda, oferecer mercadorias e até saber das suas opções eleitorais. Na Bahia, é ela a madrinha do Projeto Ler é Preciso, do Instituto Ecofuturo, do Grupo Suzano, que já implantou 19 bibliotecas comunitárias no estado.

Tornou-se famosa, e sua fama mistura-se com a de seus ilustres filhos. Ao lado de Zeca (José Teles Veloso), criou uma prole de oito. Dois freqüentam os palcos do mundo: Caetano Veloso e Maria Bethânia. Outra, Mabel, é poetisa. Os demais puseram os pés nas artes, mas acabaram por outras veredas: Maria Clara, Nicinha, Rodrigo, Roberto e Irene, a caçula. É, literalmente, uma vida com arte.

Com sorriso maroto e extraordinária memória, Dona Canô recria diálogos e fala do seu “cantinho” – Santo Amaro –, dos filhos, do marido (que faleceu em 1984), da vida. Uma prazerosa conversa, com pequenas interrupções pelo toque de campainha: um veio vender peixe, outro queria conversar, outro pedia conselho; Maria Clara chegou para que o irmão Rodrigo pudesse seguir para Salvador. A gentileza das pessoas que ajudam a anfitriã, transitando entre a cozinha e o comprido quintal. Um pé de fruta-pão. Nicinha cosendo, indiferente às fotos. O riso de Clara, a música.... Dona Canô é história.

A senhora já falou que Santo Amaro da Purificação é o seu cantinho. Como vê as mudanças pelas quais a cidade passou?

Mudou para ruim. Santo Amaro era uma terra que tinha onze usinas de açúcar; hoje não tem nada. Já pensou o que é isso? A baixa que deu numa cidade que vivia do açúcar e do álcool. Acabaram com a destilaria de álcool, onde tinha não sei quantas pessoas trabalhando, noite e dia.

É, meu filho, a coisa não foi boa, não – e não está sendo.

Ao chegar à cidade, passamos pelo rio Subaé, e a imagem é bem diferente daquela que se faz quando se ouve a música Trilhos Urbanos, cantada por Caetano...

Por aí se vê a decadência de minha terra. Era um rio que recebia barco – não era canoa, não; era barco, que carregava de tudo, encostava no cais. Hoje, não entra uma canoa. Está sujo. O que tem dentro do rio é lixo. O rio Subaé nasce em Feira de Santana, e lá é uma imundice. Fizeram uma festa e foram para a nascente do rio para ver se conseguiam fazer campanha para limpar, mas o povo está pouco se incomodando; o lixo é ali. Prejudica a gente também.

Os moradores mais antigos tentam de alguma forma melhorar a cidade?

A população não tem direito a nada. Quando tem um governo que se interessa pelo lugar, a coisa progride, mas eles não têm interesse. Pouco se incomodam que esteja sujo, que esteja limpo, que esteja sem nada.

A senhora sempre foi muito influente, sua casa sempre é referência...

Não, nada. Influente nunca estive, não, porque não suporto política. Se eu tivesse influência, tanta coisa, muitos prefeitos não subiam lá. Agora, nessa última eleição foi engraçado. Vinham para a minha porta, perguntavam em quem eu votei. Não voto em ninguém, já passou meu tempo de votar. Fui votar por causa de meus amigos de Salvador, mas para prefeito, não.

As pessoas visitam a senhora todos os dias. Então, é uma referência...

Aí é um caso sério. Já atendi quatro pessoas hoje. Eu preveni até umas duas que vieram me pedir qualquer coisa. Eu digo: “Olha, minha filha, estou para receber um pessoal de São Paulo e não vou lhe atender”. Ela mandou saber se vocês já tinham chegado! (risos)

O que eles vêm pedir?

Conselho, não. Eu não dou conselho a ninguém. É a necessidade. Um vem pedir para comprar farinha; outro, para comprar carne, cesta básica, para pedir colchão. Eu vou até telefonar para Dona Isabel (primeira-dama da Bahia, esposa do governador Paulo Sato). Ela me prometeu uns colchonetes e não mandou. Eu distribuo colchonete, cadeira de rodas, cobertores, roupas para crianças, filtro, óculos, tudo isso, mas ela suspendeu, não sei por quê. Prometeu vir almoçar comigo; estou esperando até hoje. Mas não perco a esperança. Vou falar com ela de tarde e vou falar direitinho. Eu vou chamar. Ela é muito simpática, muito tratável. Agora, a Tércia, a de doutor César (César Borges, ex-governador), é demais comigo. Ela me mandava, todo mês, um caminhão cheio de coisas.

De certa forma, tudo circula em torno da casa da senhora.

Não sei, meu filho. Por exemplo, vem com receita ou exame para fazer: exame de sangue, radiografia ou qualquer coisa. “A senhora me ajuda?” Eu digo: “Você já procurou a Secretaria da Saúde?”. “Não me atendem”. É possível isso? Não atendem? Cinco postos e nenhum atende. Olha, o vigário daqui, padre Edson, é uma pessoa muito distinta. Eu gosto muito dele, porque é uma pessoa simples. Sabe como ele me chama? Mãe Canô da Purificação (risos).

Como dizia tia Maroca, "preto no branco, to sabendo, meu filho, não pode ser nada".

*A senhora sempre fala da importância da leitura, tornou-se madrinha do Projeto Ler é Preciso e tem até biblioteca com seu nome...

Eu fiquei na história, não é? (risos). A biblioteca é uma coisa de grande necessidade e importância, mas precisa ter incentivo; senão, ninguém vai. Quem não lê não sabe o que está perdendo. O que custa pegar um livro? É querer ser gente. Você repara: não querem estudar. Fazem de conta que o estudo não tem valor. Vão lá só para ficarem presentes. Não podem ser gente. Quem hoje não tiver uma educação, por menor que seja, não tem nada. Como dizia tia Maroca: “Preto no branco; tô sabendo, meu filho, não pode ser nada”.

Os seus filhos sempre leram por gosto ou precisava de uns ‘puxões’ de orelha?

Caetano sempre leu muito. Caetano lê, se deixar, a noite inteira. Ele fica lendo aquilo que interessa a ele, então, eu acho que a pessoa e educa, mas não querem acreditar nisso, não. O Caetano nunca me fez coisa para nada com negócio de ensino, a não ser acordar tarde. Ave Maria, meu Deus! Depois, quando ele estava querendo fazer vestibular, não vi Caetano pegar um livro nenhum pra estudar. Aquilo me fazia uma agonia, não por mim, mas por causa de Zeca. “Caetano! Você não vai passar. Não vejo você pegar um livro pra estudar”. “Pra que, minha mãe, naco preciso aprender a estudar, não”. Uma semana ou duas antes do vestibular, ele saiu e voltou com livro deste tamanho, grande assim. “Que é isso menino, é uma bíblia?”. “Não, a senhora quer que eu estude! Eu fui buscar um livro de filosofia para eu ler”. Na véspera do vestibular, eu preocupada que Zeca descobrisse, eu digo: “Ô filho, seu pai vai ficar sentido”. Aquele livro enorme em cima da cama. Quando foi marcado o vestibular, lá foi ele. Eu peguei Nossa Senhora, ai meu Deus! Tome conta, porque não vai sair nada. E eu preocupada com Zeca. Ele passou. Mas porque ele lê muito, tanto em inglês, como francês, como espanhol, lê muito.

A senhora também aprendeu francês, não é?

Aprendi, mas não sei falar nada. Também aprendi com 9, 11 até 12 anos. Não posso me lembrar mais de nada.

E piano?

Não. Os meninos todos aprenderam, mas eu não. Só quem não aprendeu foi Mabel, porque não quis, e o Rodrigo – mas Cininha, Clara, Roberto, Caetano e Bethânia, todos aprenderam música, piano.

A que a senhora atribui essa família de artistas? Havia um convívio grande com arte?

Todos começaram artistas, só ficaram dois (Caetano e Bethânia) e Mabel, que é escritora e poetisa. Até então, Caetano pintava que era um horror! Quadros lindíssimos que pintou. Fez exposição, fez tudo – tanto que nós pensávamos que ele queria fazer Belas-Artes. Quando eu falei com ele, me disse: “Não, não vou viver de pintura, não”. E largou os pincéis. “Mas de que você vai viver?”. “Não sei”. Era cinema, música, pintura e dança. Festa era com ele. Aí, Zeca dizia assim: “Ele não vai ser nada. Ele quer tanta coisa que não vai ser nada”. Aí, eu dizia: “Não é assim, não, a dele chega”. Chegou para a música.

E no caso de Bethânia?

Bethânia foi uma coisa de surpresa. Ela tinha 17 anos, o Caetano fazia uns espetáculos com Gil e esses artistas aí da Bahia. Uns já morreram, outros se afastaram. Inclusive inauguraram o Teatro dos Novos. Fizeram um grupo grande, um espetáculo para inaugurar o teatro, para angariar dinheiro.

Nós, por exemplo era o nome do show. Foi um sucesso. Criaram o dinheiro para organizar o teatro. Caetano disse: “Vamos fazer agora assim: cada um faz um solo. Um solo para cada um. Fazer um espetáculo solo. Vamos?”. “Vamos”. Bethânia tinha 16 anos, cantou Mora na Filosofia. Ela estava ensaiando e Nara Leão veio a Salvador para fazer um espetáculo. Disseram a Nara para assistir, e ela foi assistir à Bethânia. Quando Bethânia cantou, ela disse: “Se eu tivesse essa voz, não queria mais nada no mundo”. Depois, foi para o Rio. Ela estava fazendo o show Opinião, lá em Copacabana. Adoeceu, ficou com a garganta sem poder cantar. Aí, perguntaram qual era a pessoa que ela queria que fosse sua substituta. “Se vocês pudessem mandar buscar uma menina em Salvador, essa podia me substituir”. Vianinha (Oduwaldo Viana Filho), que era o dono do espetáculo, não sabia quem era. “Ela se chama Maria Bethânia, mas eu não sei mais nada”, disse Nara. Telefonaram para Zeca, que disse: “Estão chamando Bethânia para ir para o Rio para substituir Nara”. Eu digo: “Isso é um trote, Zeca. Não está vendo que isso não pode ser?”. Deixamos para lá. Tornou a telefonar, e eu dispensei. Tornou a telefonar, aí eu atendi. Era sério. Eu disse: “Maria Bethânia, Zeca não pode ir, eu não posso ir. Quem vai acompanhar uma mulher que só tem 16 anos?”. Zeca disse: “Então, não tem jeito, não”. Caetano disse: “Eu levo Bethânia”. Ele já conhecia o Rio de Janeiro. Foi quem levou – tanto que ele foi feito por Bethânia lá.

A senhora sempre esteve rodeada pelas pessoas.

São oito filhos. Quando um vai, outro vem. A Clara chegou hoje. Tem Nicinha que vive comigo. Só quando ela viaja com Bethânia, e Nicinha acompanha, é que alguém vem ficar comigo. Eles são compreensivos. Eu, atualmente, não faço nada, porque eu não posso ficar sozinha. Tenho meus empregados bons, graças a Deus, até hoje. Tem muita gente comigo. Se eu disser que estou com dor de cabeça, corre tudo, mas não é parente. Bethânia telefona. Se souber que eu tive alguma coisa, ah! O telefone não pára o dia inteiro. É incrível, o único que é indiferente, mas é da natureza dele, é Caetano – que Caetano vive no ar, minha gente.

De vez em quando a senhora dá uma puxadinha para trazê-lo mais para o chão?

Eu chamo pelo telefone. “Ah! Minha mãe, eu ia lhe chamar”. “Eu sei, meu filho, mas é que eu sei que é essa hora que você está em casa e aproveitei” (risos). Roberto, que mora em São Paulo há 24 anos, me telefona todo sábado. Todos são assim. Eu não sei se foi a forma com que nós criamos ou se é a natureza de cada um. Cada um é sobre si, não precisava ficar apegado comigo, não é isso? A Irene, que é a caçula, nesse instante telefonou. Clara veio hoje, depois Rodrigo foi. Todos são apegados. Esses meninos, na situação em que vivem Bethânia e Caetano, podiam ser afastados, mas não são.

E o futebol, Dona Canô? O Zeca gostava muito, não é?

Bethânia jogava bola. Era ela que fazia coisa de menino, era bandeirante, tudo; eles não. Zeca é que jogava bola com Bethânia, mas os meninos, nunca; nenhum suportou bola. Bethânia, até hoje, quando o Corinthians joga, fica doida. Ela é Corinthians. O pai era Fluminense e Bahia. Eu não sou nada. O futebol, para mim, morreu completamente. Eu deixei porque Zeca morreu. Zeca era louco por futebol.

Como a Dona Canô viveu o período do Tropicalismo? Como era sua casa?

Até hoje não entendo o que é isso (risos). Sabe o que é isso? Assim como está entrando o pagode, como estão entrando essas bobagens aí, essas molequices que tocam aí, o Tropicalismo entrou, sendo que era uma coisa mais fina, mais bem-feita. Esses pagodes, essas coisas, se pegar as letras são inconvenientes; é rara a letra que seja uma coisa interessante. Não vejo nada, não contribui para nada.  Eles não; eles fizeram uma coisa que, aliás, está sustentando até hoje.

Opinião de mãe e fã.

Não, não sou fã. Se fosse outro, como Chico, como outro qualquer que faz uma obra bonita, eu reconheceria. A Bossa Nova foi tão bonita. Ainda resta João Gilberto, que também pegou e continua até o dia de hoje.

A senhora ouve bastante música ainda hoje?

Bom, eu tenho até um aparelho que Bethânia me deu para ouvir quando quisesse. Quando eu tenho vontade, eu boto aquelas que eu gosto. Eu tenho disco que vou botar para ouvir e pergunto: “Meu Deus, teve coragem de fazer essa música, mesmo?” Não tem nada.

A senhora já brigou com Caetano ou Bethânia por uma música que não gostou?

Briguei não. Não gostei quando ele parou de fazer música para Carnaval, porque todo ano, quando ele fazia música para Carnaval, vinha me mostrar. Quando foi um dia: “Está todo mundo fazendo; eu não vou fazer mais, não”. Nunca mais fez. E a música que eu não gosto dele, e disse a ele, é Cajá. Não suporto, não sei onde Caetano estava com a cabeça para fazer aquilo. Agora, tem muita música bonita de Caetano que eu gosto. Força Estranha é uma coisa demais, que eu acho que Caetano se aprofundou demais naquilo. É muito pesada, mas é muito bonita e é a verdade. Luz do Sol tem uma letra de uma pessoa de... não sei, é linda. Em Trilhos Urbanos, ainda estava menino. Onde Eu Nasci Passa um Rio Bethânia gravou agora, em Brasileirinho; é uma coisa linda.

A senhora acompanha o trabalho mais recente deles?

Claro, meu filho. Me chamam para dizer, para dar minha opinião. Se não chamassem, não saberia de nada.

Mabel também chama?

Chama. Antes de fazer, de publicar, ela me mostra. Ainda pede para eu botar uma coisa que eu achei.

Os netos também estão caminhando por vias artísticas, não é?

Moreno (filho de Caetano) está pronto. Tenho meu bisneto que toca todos os instrumentos de percussão. Uma bateria completa, pandeiro, bongô, atabaque, triângulo... Tem quatro anos. Vai para um aniversário, tem que levar o pandeiro para ele tocar na hora dos parabéns. É muito engraçado. Ainda não teve flauta doce. Eu vou dar uma flauta doce para ele começar. João Francisco é o bisneto, tem quatro anos, parece mentira. Ele é filho de Clara. Mabel só teve três filhas: Belo, que também já está lá; Jeovina, que trabalha nesse negócio, e Maria Clara, professora de inglês em Salvador.

A senhora tem uma memória maravilhosa. Lembra diálogos e a história vai aparecendo...

Acho que a memória a gente conserva, porque não procura se martirizar demais, sabe? Procura aliviar as coisas muito pesadas; aí, a cabeça não vai ficando muito cansada. Eu podia ter a cabeça cansada, porque foram oito filhos que eu criei (eu e Zeca), apesar de ter muita ajuda. Nunca fui de ficar encafifada, de ficar com preocupação.