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Entrevista exclusiva com o padrinho do Ler é Preciso, José Mindlin

O imortal e irrequieto José Mindlin, otimista incorrigível, apaixonado pelas idéias e fantasias sem fim proporcionadas por uma boa leitura, sem pressa nem pressão.

No dia 11 de dezembro de 2007, Christine Fontelles, diretora de Educação e Cultura, e Maria Betânia, coordenadora pedagógica do Concurso de Redação Ler é Preciso, do Instituto Ecofuturo, visitaram a biblioteca do padrinho do Ler é Preciso, José Mindlin, com quem tiveram uma longa conversa, da qual extraímos alguns trechos para os leitores da Newsletter Ecofuturo desta edição.

Christine Fontelles: Você é organizado?

José Mindlin: Mais ou menos.

CF: Desde pequeno?

JM: É. Eu não me considero ordeiro, não, mas sou organizado, sim – por força de hábito, também.

CF: A Betânia falou de sua neta, Inês. Uma coisa que me deixa muito encantada na sua família é esse desdobramento de um jeito de ser que é do senhor. É bacana essa hereditariedade que fica. Como é que foi isso, Sr. Mindlin?

JM: Isso aconteceu. Contato freqüente. Também nunca impus conduta, não: “Tem que se comportar desse jeito; tem que cumprimentar as pessoas que chegam”. Essa coisa que todo mundo faz com as crianças e elas detestam: “Dá um beijinho aí”... Isso a gente nunca fez com os filhos nem eles com seus filhos. Nós, agora, já temos bisnetos – e leitores. Com seis anos, duas bisnetas são leitoras mesmo.

CF: É esse jeito que parece tão natural na sua família, não é? Isso tem a ver com o jeito como o senhor e dona Guita educaram essas crianças.

JM: É. A Guita é que faz a grande falta aqui. Nós tínhamos três filhos: a Beth, a Diana e o Sérgio. Depois do jantar, Guita e eu sentávamos, cada um com seu livro, e as duas meninas também. Então, as meninas eram muito elogiadas pela família por esse gosto pela leitura, de ficarem sentadas uma hora lendo. O Sérgio, que tinha cinco ou seis anos, ouvia aqueles elogios para suas irmãs e, um dia, explodiu: “Eu também gosto de ler, só que eu não sei”.

(Todos riem na sala.)

JM: Porque as irmãs eram elogiadas por lerem e não sobrava nada para ele…

Maria Betânia: Assim que aprendesse, ele leria.

JM: E passou a ler mesmo. Eu tenho amigos que têm bibliotecas com livros raros e não deixam que as crianças mexam. Então, a biblioteca é intocável. Isso afasta as crianças. Aqui, é claro que eles aprendem como cuidar, como pegar num livro, como folhear, mas têm a liberdade de ler. Eu acho que é uma das formas de incentivar a leitura numa casa: se você quer que a criança leia um livro, você deixa, larga num lugar qualquer; na hora que a criança vai pegar no livro, você diz: “Não, esse não, esse você não vai entender, isso você deixa para mais tarde”. Você pode ter certeza de que, no dia seguinte, essa criança estará lendo esse livro escondida.

CF: Insubordinação, não é?

JM: É claro! É uma forma negativa, mas de incentivar a leitura, que funciona em muitos casos e desperta a curiosidade. “Ah, não pode, é livro para outra idade”. Vamos tentar.

CF: O senhor falou da sua idéia de a escola ter a hora, o momento.

JM: A idéia da Maria Betânia aperfeiçoou muito, não é?

MB: Segundo recreio.

JM: Segundo recreio, é.

MB: É isso o que a gente tem que oferecer ao Brasil: segundo recreio com livro.

JM: E a gente consegue, sabe?

MB: Consegue.

JM: É o segundo recreio, no sentido de participação. Uma pessoa que participa de uma idéia vai em frente. Então, pegar um livro e pôr a criança sentada para ler não vai funcionar, não é? Eu tive muita sorte, sempre gostava de, por exemplo, ler poesia em voz alta, com a sorte de que a Guita preferisse ouvir a ler a poesia. Então. o que se leu de poesia aqui em casa não tem tamanho. Havia a história de um casal americano, em que o marido obrigava a mulher, depois do jantar, a ficar ouvindo a leitura dele em voz alta, durante uma hora, uma hora e meia. Aí, ela pediu o divórcio por maus tratos e conseguiu.

(Todos dão risada.)

CF: O senhor falou que teve sorte...

JM: Eu falei que tive a sorte de não fazer análise lógica de Camões no ginásio…

MB: ...o que era uma tortura usual.

JM: É, eu conheço gente que detesta Camões porque, em vez de lhe terem mostrado a beleza do texto, construção, estilo, tinha que fazer aquela coisa... Métrica é aquela coisa. Eu tive a sorte de não fazer. Então, fui ler Camões já crescido, e aí ficou para o resto da vida.

CF: Se o senhor pudesse deixar um pedido para os educadores, qual seria?

JM: Bom, liberdade, eu acho, e respeito pela criança. A criança não é um ente formado para receber conselhos, palpites e ordens, não é? Eu detestava sermão – e também evitei sermões. É preciso tratar a criança de igual para igual, com a imagem da autoridade paterna ou autoridade do professor. Essa autoridade do professor e respeito do aluno pelo professor vêm da forma de tratar a criança. Agora os professores levam uma vida muito difícil; a profissão ficou degradada. Eu lembro que, na minha mocidade, a gente via as alunas da Escola Normal que se formavam como professoras. Era um título honroso, era uma certa glória: “Ela é formada pela Escola Normal”. Agora, coitadas, têm que trabalhar nos cafundós, sem apoio real, ganhando um absurdo de pouco. Então, pedir a esses professores que leiam e transmitam o gosto pela leitura é uma aberração, eu acho. A gente tem que lutar para que a carreira do professor seja respeitada e estimulada, que o professor tenha prazer no que está fazendo, não é? Tudo são coisas óbvias, mas que não são atendidas, na prática.

CF: O senhor falou da importância das bibliotecas, não é?

JM: Ah, eu acho que a biblioteca é a chave do envolvimento da população com a leitura, porque a maior parte da população brasileira vive com salários baixos. Muitas vezes, uma família tem três, quatro salários mínimos. Querer que, com esses salários mínimos, as pessoas comprem livros é uma ilusão total, não é? Então, eu sempre tenho defendido a tese de que ter o livro não deveria ser condição para ler. Quando digo isso, as pessoas me criticam, dizendo: “Bom, isso é fácil para você dizer, porque você tem uma biblioteca”, mas, realmente, eu acho que a pessoa, para ter uma biblioteca, precisa ter um nível de vida de médio para cima, não é? É muito difícil um operário ter biblioteca. Eu tenho visto no Centro Cultural de São Paulo, na Rua Vergueiro, operários que vão ler depois do trabalho. Eu estava uma vez lá e eu vi operários lendo livros de importância literária e tudo. Comecei a conversar com eles, que trabalhavam em construção civil e, quando acabava a obra lá do bairro, iam para a biblioteca ler.

CF: Ou seja, brasileiro gosta de ler, não é, Sr. Mindlin?

JM: É. O brasileiro gosta de ler, o brasileiro tem interesse por cultura. Eu fui Secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia em 1975 e achava que era muito importante o contato com o interior do Estado, não concentrar o que se fizesse em matéria de cultura nas cidades grandes. Eu vi que havia essa sede de cultura. São coisas que, como eu disse há pouco, parecem óbvias, não é? Imaginar que no interior não há interesse por cultura é um despropósito, porque o livro é uma janela para o mundo. O leitor descobre coisas absolutamente inimagináveis. Quando eu assumi a Secretaria de Cultura, um repórter me perguntou o que eu estava lendo. Quando disse que estava lendo O Conde de Monte Cristo, ele olhou para mim espantado: “Como? Lendo uma literatura de segunda ordem?”. Isso é um grande engano; é boa literatura. A gente vê: você começa a ler Três Mosqueteiros, Conde de Monte Cristo e não consegue parar. Cada situação provoca novas situações – uma inventividade espantosa. A gente, realmente, não pára de ler. Então, imagine a visão de mundo que as pessoas dos séculos XV e XVI, quando o livro começou a ser difundido, foram descobrindo. É a mesma coisa que acontece hoje no Brasil.

Hoje, fala-se que o analfabetismo praticamente acabou, o que eu acho uma ilusão. A alfabetização, por si mesma, não quer dizer que a pessoa sabe ler. Se quiser dar Guimarães Rosa para uma pessoa que começou a ler aos 20 anos, tem que esperar alguns anos. Então, eu acho de uma importância capital o trabalho de promoção de leitura, isso que vocês (do Ecofuturo) estão fazendo, porque acompanham o processo de formação do leitor, não é? Aí vem a questão do trabalho nas escolas. Não basta mostrar os livros para as crianças; é preciso que o professor saiba transformar a leitura em um prazer. Para isso, é preciso que ele tenha uma vida muito melhor, para poder, ele próprio, ter na vida o prazer da leitura. Não é possível um formador de professores, de divulgadores de leitura, que não goste de ler, que não tenha paixão pela leitura. Pode parecer exagerado falar em paixão pela leitura, mas devemos gostar de ler, não é? Não dá para ensinar as crianças a gostarem de ler se o próprio professor não tem isso. Então, a coisa é bastante complicada, tudo é entrelaçado, mas eu sou um otimista incorrigível. Eu tenho uma grande amiga, a Regina Cazar, gravadora e artista, que diz que meu otimismo é irritante.

(As entrevistadoras riem.)

CF: O senhor se lembra de quando aprendeu a ler? Como isso aconteceu ou veio a acontecer?

JM: Olha, eu tenho a vaga idéia de uma sensação de deslumbramento quando vi as letras se combinarem em palavras e as palavras em sentenças. Eu não me lembro que livro foi, mas a sensação eu tenho até hoje, de ver que parece que se abriu um mundo novo. Eu acho que isso é a grande descoberta da infância: aprender a ler. Aí, a criança se afirma mesmo, não é? Agora as crianças aprendem a ler com cinco, seis anos, com a maior facilidade. Eu aprendi com quase sete anos.

CF:
Qual a importância que o senhor dá à leitura em voz alta, para a introdução de um leitor?

JM: Pois é, parece que começa a fomentar as idéias da pessoa que ouve. A pessoa começa na leitura em voz alta; acontece muitas vezes de a pessoa deixar de prestar atenção na leitura porque vem a própria imaginação, que começou a funcionar, não é? Isso é uma coisa que acontece muito. Para despertar a imaginação, a leitura em voz alta é mais eficaz do que a leitura do texto, mas é claro que a leitura do texto é muito mais rápida e indispensável. Depende; muitas vezes, a pessoa lê em voz alta e não dá a expressão adequada, não é? É, mas as duas coisas são importantes: a leitura e a leitura em voz alta.

CF: Qual a grande dica que o senhor daria para dar esse impulso às bibliotecas, Sr. Mindlin? O senhor fala que o livro na prateleira não é suficiente.

JM: Olha, não há receita para isso, que vem com a própria leitura. O livro é um companheiro inseparável e que não cria caso em momento algum. Você deixa o livro esquecido na prateleira, cinco ou dez anos, e aí, quando pega o livro, ele se deixa manusear e saborear. É um grande companheiro na vida, não é?

CF: O tema desse concurso de redação foi O Melhor Lugar do Mundo. Nós recebemos 30 mil textos de crianças de seis anos, adultos, educadores e estudiosos de 85. Eu gostaria de perguntar – até para mostrar a todas essas pessoas – o que é, para o senhor, o melhor lugar do mundo?

JM: Bom, o mundo tem muitos lugares que são “os melhores”; este não é o único (apontando sua biblioteca em volta), mas este é um lugar onde você encontra a diversidade da natureza humana, do talento, da criatividade, da imaginação – o mundo de redação, porque isso ajuda a formar a própria individualidade. Eu entrei para a redação de O Estado de S. Paulo em maio de 1930 e completei 16 anos em setembro. Fui o mais novo redator e repórter, naquele tempo uma coisa só. Eu sentia dificuldade na redação, em trechos para uma coisa pequena, uma notícia de coluna social sobre um evento, coisa de dez, 15 linhas. Comecei a escrever, me lembro disso muito bem. Tive que refazer quatro, cinco vezes, porque não saía uma coisa bem escrita. Fui aprendendo a escrever, na escola – o jornal para mim foi uma escola insubstituível, porque eu aprendia a escrever numa linguagem correta, clara, simples, acessível a um leitor médio, e isso me valeu para o resto da vida. Depois, trabalhei como advogado quase 15 anos, e as pessoas têm a impressão de que advogado fala muito. Na realidade, escreve muito mais do que fala, não é? Quando eu era criança, falava muito; então, todos diziam que eu ia ser advogado, porque a noção era essa, mas não é verdade, porque o advogado tem que escrever. Você vê, hoje em dia, razões de advocacia ou sentenças de juízes numa linguagem embolada, complicada, difícil de a gente se integrar. Assim, esse concurso de redação faz revelações e incentiva a escrever cada vez melhor não é? Eu acho uma grande idéia.

CF: Qual mensagem o senhor enviaria a esses 62 ganhadores que receberam a premiação?

JM: Primeiro, dizer que acho uma grande coisa eles já estarem fazendo redação; depois, que continuem, não parem com isso, leiam muito, porque dificilmente a pessoa consegue ser escritor sem ler muita coisa. Não é para imitar, mas para desenvolver a imaginação, a criatividade. Seria esta mensagem: não parem; continuem lendo e escrevendo.

CF: Se o senhor fosse fazer uma redação sobre o melhor lugar do mundo, que lugar o senhor descreveria?

JM: Uma biblioteca.