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Entrevista com o padrinho do Ler é Preciso Ariano Suassuna

Em 28 de março de 2005, Ariano Suassuna recebe e aceita o convite para ser padrinho do Projeto Ler é Preciso, do Instituto Ecofuturo, que já implantou 70 bibliotecas comunitárias até 2007, sendo 24 em Pernambuco.

Nesta edição da newsletter, homenageamos Ariano Suassuna pelo seu apoio ao Programa Ler é Preciso, reeditando uma entrevista realizada em 2005, no calor de uma tarde recifense.

Confira este dedo de prosa com o escritor, criador e síntese de seus personagens e histórias. Como ele mesmo já afirmou, tem pólos de personalidades: cangaceiro manso, palhaço frustrado, frade sem burel, mentiroso, professor, cantador sem repente e profeta (por Marcus Augusto Ferreira).

Como o senhor se sente com a reedição de suas obras principais, o assédio da imprensa, as capas nos segundos cadernos e os pedidos de autógrafos?

Eu fico muito contente, evidentemente. Sou um escritor de poucos livros e poucos leitores, mas tenho essa alegria de que, nos quatro gêneros nos quais eu escrevo – ensaio, poesia, teatro e romance –, encontro leitores. O mais conhecido é o aspecto do dramaturgo e, em segundo lugar, o do romancista. Apesar disso, de todo o trabalho que escrevi, o livro que considero mais importante é o Romance d’A Pedra do Reino. Então, só posso ficar contente com a reedição do livro depois de 20 anos fora de catálogo.

O senhor sempre se declara um autor de poucas obras e poucos leitores. Esse fato não lhe causa nenhuma angústia?

Eu não me incomodo, não – e não é pelo fato de as ruas estarem verdes para mim. Eu prefiro ter um leitor que me leia três vezes a ter 10 mil leitores que só me leiam uma vez e não alcancem o que escrevi. Sou um leitor que, quando gosta de um livro, lê quatro, cinco, dez vezes. Se você me fizer qualquer pergunta sobre os quatro maiores romances de Dostoievski, é muito difícil eu não saber responder. Se você me fizer qualquer pergunta sobre Dom Quixote, de Cervantes, acho que sei responder. Eu não gosto de viajar. As minhas viagens são feitas através da literatura. Eu tenho vontade de conhecer dois países: Portugal e Espanha. Quando eu estou com essa tentação, pego Dom Quixote e leio. Quer guia de viagem melhor do que Cervantes? Então, eu prefiro ter poucos leitores que sejam como eu a ter um monte de leitores que leiam por obrigação ou interessados em outra coisa.

O ato de escrever é fundamental, como o senhor costuma afirmar. No entanto, com todo esse cerimonial que o tem rodeado, é bom sentir essa sensação do livro como objeto de mercado?

Eu sou um entusiasta do livro. Já me disseram muitas vezes que o livro está ultrapassado, veio gente aqui em casa me convencer de que o livro está ultrapassado, mas eu gosto do livro e gosto do objeto livro. Gosto tanto que, nesse romance, que considero o mais importante (já disse que se tivesse que salvar apenas uma obra e queimar todas as outras, eu salvava o Romance d’A Pedra do Reino), o personagem é um bibliotecário. É bom lembrar um fato, também: um dos maiores escritores latino-americanos, Jorge Luis Borges, era um entusiasta da biblioteca. Para mim é fascinante.

Na tentativa de convencê-lo de que o livro está em extinção, quais têm sido os principais argumentos?

Já foi a televisão e, atualmente, é o computador. Eu digo o seguinte: enquanto existirem pessoas como eu, o livro tem sua vez. Eu só gosto de ler deitado, o prazer de ler pra mim é deitado. Então, eu não vou ficar deitado, me embolando com o computador. Quero o objeto livro.

Para um apaixonado por livros e biblioteca e padrinho do projeto Ler é Preciso em Pernambuco, como pode se dar a relação com o livro?

Para mim, o livro é uma coisa fundamental. Não tenho o hábito da leitura; tenho a paixão da leitura. Agora, eu não vou impor a ninguém, não. Se não quer ler, problema é dele. Acho que as pessoas que não lêem estão perdendo uma grande coisa, mas posso estar enganado. Cada um sabe de si. Da minha parte, a literatura é uma coisa sem a qual eu não poderia viver – tanto a que eu escrevo quanto a que eu leio. Quando leio um livro que me toca, é como se um mundo novo se abrisse diante de mim, é como se o velho mundo que eu conheço ganhasse coisas novas, formas novas e possibilidades novas de alegria.


Fonte: Revista Idéia - nº 23 - Suzano Papel e Celulose