Para ler

Ivan Angelo
| Paciência, motorista, com o pobre do carroceiro. Cala a tua buzina irritada, que o homem que ali vai, puxando sua carga enorme e desequilibrada, trabalha para o teu bem. Não é muito o que ele pode fazer, ele não é mais do que uma formiga na paisagem, um nada, mas faz sua parte mínima com a força e a teimosia das formigas, leva para o seu buraco os restos que espalhamos pelos caminhos. | ![]() |
O homem da carroça, o burro sem rabo, meu caro motorista, está aí por um conjunto de circunstâncias: para ele existir, tem de haver pobreza, tem de faltar trabalho, tem de sobrar lixo nas ruas, tem de faltar educação, respeito, planejamento, desenvolvimento sustentado.
Considera que ele nas ruas é mais verde – mais limpo – do que tu: seu carro não emite gases, não buzina, ele não é um consumidor de artigos descartáveis, não produz esse lixo, antes o leva para reciclagem. Vê que curiosa contradição: quanto a isso ele é atual (inconsciente, porém), uma pecinha na grande engrenagem do avanço, enquanto que tu, participante da poderosa cadeia de consumo e visualmente moderno, está com um pé nos séculos passados (inconsciente, também), ligado àquela descuidada atitude que formou a sociedade atual: pegar, usar e largar.
Pensa, senhor cidadão de primeira categoria: que homem é esse? Um descartado – como as sobras que transporta. Ele não conta, não usa CD, DVD, celular, ipod, cinema, universidade, casa, transporte, televisão, roupa nova, geladeira, vídeo game, sapatos – na grande cidade, é um resto. Um rejeito levando rejeitos.
É justo haver carroceiros? É preciso haver?
Ele é apenas um personagem-símbolo do grande problema, da pobreza, da exclusão, da carência. E também da resistência. Tome-o como símbolo de uma idéia. A idéia da reciclagem.
Calcula-se que cada brasileiro produz 1 kg de lixo por dia. (Três vezes menos do que produz um povo rico como o americano, 3,2 kg.) Assustador: 190.000 toneladas por dia! 71,5% do lixo recolhido nas cidades indo para depósitos a céu aberto! Infiltrações do caldo fétido dos lixões contaminando mananciais e aqüíferos! Gás metano dos lixões e aterros sanitários aquecendo mais o planeta do que o CO² dos combustíveis! Despojos jogados em rios, barrancos, buracos, alagados, baías, mangues, baixadas, córregos! Ratos, insetos e bactérias multiplicando-se em berço esplêndido!
Lixo é o sintoma – não a doença. Não sejamos ingênuos: o medo do lixo não vai mudar a produção. Seria preciso que lá atrás tivessem sido tomadas precauções obrigatórias das quais houvesse nascido um costume, uma tradição, uma interdição cultural ou educadora. Tipo “não matarás”.
Alguma coisa está sendo feita. Com a ajuda pequenina daquele carroceiro ali, meu caro motorista, prezado cidadão contribuinte, com a ajuda dessa formiguinha aí, 9 bilhões de latinhas são levadas para reciclagem, 87% de toda a produção de latinhas de cervejas e refrigerantes, e mais papéis, papelões, e latas de flandres de embalagens, de leites diversos, de óleos e conservas, de tintas e vernizes, e sucata de tudo quanto é eletrodoméstico, portões, grades, bicicletas, skates, carros velhos e restos das demolições são levados para os fornos – o Brasil recicla 70% de todo o aço que produz!
Isso te surpreende, cidadão motorista? É o que diz o Cempre, Compromisso Empresarial para Reciclagem. São recordes mundiais, mas que não expõem o lado da pobreza. Centenas de milhares de miseráveis vivem de catar o aproveitável nos lixões e aterros. Quanto maior é o número de pobres em um país, mais podre é o seu lixo, nele predominam materiais orgânicos. E plástico, muito plástico.
Um modelo diferente, sem pobreza, seria construir usinas de incineração verdes, como a que existe no Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, particular. Tóquio tem 20 plantas dessas. É um esquema industrial limpo, que gera energia elétrica utilizável e toneladas de bens reciclados, gera empregos, poderia transformar catadores de lixões em pessoal de triagem, com carteira assinada e plano de saúde. Não custaria tanto assim para o Ministério das Cidades, em parceria com os estados, municípios e particulares: R$ 19 milhões é o custo de uma usina, algo como 10 dossiês de sanguessugas. Vinte usinas, 200 dossiês. Não é muito para quem quer fazer alguma coisa, e ajudaria bastante. Vinte usinas por ano, mixaria para um poder que gasta R$ 1 bilhão com publicidade, não é verdade, meu caro motorista?
Tenho um amigo autoritário cheio de idéias. Já dei muita risada com ele, mas é sério, como todo maluco-beleza. Uma das idéias dele é proibir saquinhos de plástico nas feiras livres, ressuscitar o velho embrulho de jornal e as sacolas de lona. Para os mercados, sugere a volta dos sacos de papel reciclado. Reduzir garrafas pet, voltar o óleo de cozinha para as latas. Solventes e combustíveis, só em latas. A idéia mais original é o que fazer para acabar com os saquinhos de plástico: tornar obrigatório enfiar todos eles nos buracos dos tijolos furados e dos blocos de cimento de todas as construções do país, pequenas e grandes. “Vão sumir para sempre da paisagem”, diz. E outra, para reduzir drasticamente o lixo orgânico de milhões de residências: passar no liquidificador todas as cascas de frutas e restos de alimentos, todo dia, jogar no vaso sanitário e dar descarga. Redução de 70%, garante. Se eu rio, ele diz: “É por isso que ninguém faz nada. Dão risada”. Abaixo a cabeça, consternado.
Penso: que coisa macro poderia ser feita? As religiões, antigamente, tinham um grande poder educador, havia certa noção de pecado proibindo desperdícios, bater na mãe, roubar, mentir, matar, fazer covardia. Lá atrás, deveriam ter pregado não a salvação da humanidade, apenas, mas da vida na terra. É tarde? E se todos os bispos, padres, aiatolás, cheques, rabinos, pastores, pregassem essa nova idéia em todos os templos, haveria uma nova consciência mundial? Faltam santos, faltam pregadores globais, mas o fato é que sem a religião da vida vamos todos mais cedo para o beleléu.
É por isso, meu já paciente motorista, que levo a sério todo mundo que faz alguma coisinha para ajudar. Os que não levam saquinho de plástico para casa. Os que não compram produtos de empresas poluidoras. Os que repreendem quem joga até palito de picolé no chão. Os que levam saquinho para apanhar cocô de seu cachorro na calçada. E os que levam lixo das ruas para a reciclagem, como esse nosso carroceiro, mesmo que ele faça isso apenas para ganhar um dinheirinho.
Para ir além
Ivan Angelo, nascido em 1936 e mineiro de Barbacena, começou a escrever aos 21 anos. Tornou-se escritor e jornalista premiado, com livros publicados na França, nos Estados Unidos, na Alemanha e na Áustria.

