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Violência e orgulho - Ives de La Taille

A violência é definida habitualmente como ato de coagir alguém física e/ou psicologicamente.

A coação implica que a pessoa que comete o ato violento tem, pelo menos momentaneamente, mais força, mais poder que sua vítima. Porém, mesmo assim definida, nem toda coação pode ser interpretada como violência. Logo, nem toda coação é moralmente condenável.

Por exemplo: pais que obrigam seu filho a ir para a escola, na prática, coagem-no, privam-no da liberdade de ficar em casa brincando.

No caso dos pais que obrigam um filho a ir à escola, eles só podem exercer tal poder porque, de alguma forma, estão em uma posição de maior força do que ele. Porém, nesse caso, podemos falar em exercício legítimo da coação, e não em violência, porque o beneficiado é a própria pessoa coagida: é para o bem da criança que alguém a obriga a estudar.

A violência está presente em duas formas de coação:

  • A primeira: quando a coação, mesmo se exercida para o suposto benefício da pessoa coagida, se traduz por alguma forma de desrespeito à dignidade da vítima. Permanecendo no exemplo da relação pai/filho: se o pai, para fazer seu filho estudar, o espanca ou humilha, há flagrante desrespeito. Logo, há violência.
  • A segunda: quando a coação é exercida em benefício do agressor. Por exemplo, quando alguém ameaça outrem de ataque físico ou psicológico para roubar-lhe seus pertences.

Vamos refletir sobre o segundo caso de coação violenta, a que se traduz pela instrumentalização de outra pessoa para atingir um fim que interessa apenas o agressor (ou ao seu grupo).

Devemos então nos perguntar: que fins serão esses que levam alguém a empregar a violência?

Evidentemente, podem ser vários.

Por exemplo: matamos o inimigo para nos apoderarmos de suas terras.

Outro exemplo: batemos em alguém para que nos obedeça.

Outro exemplo ainda: coagimos sexualmente uma pessoa para experimentarmos prazer.

Poderíamos multiplicar os exemplos, porque, infelizmente, os motivos egoístas que levam à instrumentalização de outrem são numerosos.

Eu queria, aqui, deter-me sobre um deles: o orgulho de ser violento.

Nesse caso, o objetivo da pessoa violenta é ver a si própria como pessoa de valor. Logo, a violência passa a ser um valor em si, e não apenas instrumento para conquistas materiais.

Do ponto de vista psicológico, cada indivíduo tem representações de si próprio que podemos chamar de “representações de si”. São imagens por intermédio das quais a pessoa concebe a si mesma. Concebe e julga a si mesma. Com efeito, as representações de si são sempre valores. Por uma razão bem simples: valores são investimentos afetivos (positivos ou negativos), e é claro que, inevitavelmente, investimos afetividade em nós mesmos. Por isso podemos dizer que pensar sobre si implica julgar-se no sentido de avaliar-se. E, inevitavelmente também, temos a necessidade psíquica de procurar nos perceber de maneira positiva. Nada é mais doloroso do que ter uma avaliação negativa de si: sente-se vergonha, e a vergonha é sentimento penoso, às vezes letal.

No que acaba de ser dito, reconhecemos a importância psicológica do que se tem chamado de “auto-estima”. Porém, nada mais perigoso que pensar que quem tem boa auto-estima é necessariamente uma pessoa “de bem”, uma pessoa pacífica, uma pessoa moral. Tudo depende dos valores que a pessoa associa às representações de si mesma.

Uma pessoa pode estar satisfeita consigo por achar-se fisicamente bonita; outra, por julgar-se profissional competente; outra, por prezar o fato de ser inspirada por ideais de justiça.

Porém, pode muito bem acontecer de alguém julgar-se pessoa de valor por considerar-se esperto, poderoso, e também por ser violento.

Nesses casos, a vergonha não vem julgar-se desonesto, tirânica ou brutal, mas, pelo contrário, do medo de se ver como otário, súdito ou fraco. Logo, ser violento pode ser motivo de orgulho para alguns, esses mesmos para quem ser pacífico seria motivo de vergonha. Nesses casos, a pessoa não emprega a violência para atingir certos fins que lhe interessam: ela usa a violência como uma forma de valorizar a si mesma, e, para que tal valorização possa se alimentar, para que essa forma de orgulho possa existir e se manter, torna-se necessário coagir outrem, física ou psicologicamente.

Nos dias de hoje, assistimos a essa valorização narcísica da violência. “Ser alguém” depende mais do poder que exercemos sobre os outros que dos próprios méritos.

“Ser alguém” não é tanto ser inteligente, ser talentoso, ser justo, ser generoso; “ser alguém” é ser “mais” que o vizinho, mais forte, mais poderoso. Trata-se de uma forma de heteronomia, pois o orgulho de ser violento depende da referência assimétrica a outra pessoa, que é vitimizada de várias formas.

O violento transforma o outro no instrumento de sua auto-estima.

Para se sentir forte, investe em fazer o outro pequeno, ao invés de elevar-se de sua condição.

Se aceitarmos essa interpretação da violência, fica claro que uma ação educacional que vise combatê-la não enfrentará necessariamente a tão lamentada “falta de limites”.

Existem, sim, pessoas que cometem atos de violência por falta autocontrole, ou de disciplina. Falta de limites. Para essas, aprender a se controlar é imperativo.

Todavia, para o “violento orgulhoso” não é a disciplina que está em jogo. Aliás, ele pode até ser muito disciplinado, arquitetando lenta e minuciosamente formas de violentar o próximo.

Para se trabalhar com o “violento orgulhoso”, é preciso focar o sentido que ele dá para a sua vida e para si próprio - trabalho mais difícil do que o de lidar com falta de limites. Para que o “violento orgulhoso” passe a ser, como toda pessoa moral, um “violento envergonhado”, todo um trabalho de desconstrução deve ser realizado; desconstrução das representações de si valorizadas, para que outras possam tomar o seu lugar.

Mas como fazer isto?

Como disse, é difícil, pois a construção de representações de si mesmo se dá no contexto cultural amplo, e não apenas na família e na escola. Com efeito, não é fácil enfrentar a ideologia social vigente, que valoriza a glória, a fama, o sucesso, a competitividade, e que pouco fala da honra, do mérito, da cooperação.

Difícil, porém, não quer dizer impossível.

Se eu fosse dar um conselho eu sugeriria que a escola encontrasse uma forma de trabalhar as chamadas “virtudes morais”.

Chama-se de virtudes algumas qualidades do ser. Logo, as virtudes relacionam-se diretamente com as representações de si.

Algumas virtudes não são necessariamente morais, pois não é a referência ao outro que está sempre em jogo. É o caso, por exemplo, da “prudência”, essa virtude pragmática que implica calcular ganhos e riscos. Ao “violento orgulhoso”, como aos outros tipos de pessoas que empregam a coação para fins egoístas, não falta necessariamente essa virtude. Pelo contrário: é quase sempre o mais fraco que ele escolhe como vítima de seus atos, porque sabe que ele pouco o ameaçará, pouco reagirá. Mas faltam ao “violento orgulhoso” outras virtudes que implicam a referência ao outro: a justiça, a generosidade, a lealdade. Ele também costuma carecer de virtudes que se relacionam com qualidades humanas como a humildade, a coragem, a simplicidade.

As virtudes que acabamos de citar – como justiça, lealdade, humildade – são chamadas de virtudes morais.

Não se trata, em absoluto, de optar por uma pedagogia que vise “formatar” pessoas virtuosas: isso equivaleria a um trabalho de lavagem cerebral visando criar “bons meninos” e “boas meninas”.

Trata-se, isso sim, de dar a oportunidade para os alunos, violentos ou não, de pensar sobre variadas possibilidades de associar valores às suas representações de si.

Trata-se, portanto, de abrir o universo de valores para além daqueles que a sociedade contemporânea mais preza (beleza, força, sucesso, etc.) e, assim, permitir uma reflexão sobre a construção alternativa de identidades.

Em pesquisa recente*, minha esposa e eu pudemos verificar que a maioria dos jovens do ensino médio valoriza mais a justiça, a humildade e a responsabilidade que a competência profissional; valoriza mais os amigos que a fama; e acredita ser a moral mais importante para a sociedade que a ciência e a religião. Logo, creio que existe um campo fértil para um trabalho sobre virtudes que possa aumentar a probabilidade de o “violento orgulhoso” começar a sentir vergonha de sua postura ou, pelo menos, aumentar a probabilidade de cessar a admiração que não raramente ele desperta em algumas pessoas.


Para ir além


- *Veja o texto “Valores de Jovens de São Paulo”, de Yves de La Taille e Elizabeth Harkot-de-La-Taille, no apêndice do livro Moral e ética: dimensões intelectuais e afetiva (Porto Alegre, Atrmed, 2006).

- Clique aqui para conhecer o livro: A vida que a gente quer depende do que a gente faz.

- Clique aqui para fazer o download do livro: Inventário do que podia ser bem melhor e será, o melhor lugar do mundo


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