05 jun

Eu, você, nós e os outros

Nossa sobrevivência sempre depende dos outros. Desde pequenos, temos que nos valer do cuidado alheio para não desaparecer, logo nas primeiras horas de vida. Após o parto, um potro demora uma hora para se equilibrar nas próprias patas, enquanto nós demoramos em torno de um ano. Ele ainda vai depender da mãe para seu alimento por algum tempo, como todos os mamíferos, nós, inclusive. Mas ele já pode caminhar, independente e livre, assim que nasce. Um filhote de tartaruga-marinha rompe a casca do ovo, vence a areia, e no mesmo instante já consegue se arrastar da praia para o mar, pronto para se alimentar sozinho. Pode terminar no bico de uma gaivota, ou nas pinças de um caranguejo, mas se arrastou sem ajuda da mãe. A mãe nem está mais naquela praia, e ele nunca vai vê-la. E nós nos achamos independentes quando saímos da casa dos pais entre os 20 e os 30 anos. Ok, em média. Não se ofenda, se você saiu antes dos 20, ou depois dos 30, ou mesmo se ainda não saiu: cada um tem a sua hora de independência. Mas, será que existe em algum momento esta tal independência? Em algum momento acaba nossa dependência em outras pessoas, coisas e situações?
 
Nós somos completamente indefesos, sob múltiplos aspectos, até muitos anos depois do nascimento. Aprendemos a nos relacionar com os outros na base da troca, por interesse. Não se espante, leitor; interesse não é uma coisa essencialmente ruim. Engraçado como pode-se classificar algo como ‘interessante’, aquilo que desperta atenção, que ativa a curiosidade, mas quando se diz que algo foi feito ‘por interesse’, parece que só há mau sentido.
 
Não é assim. Fazemos as coisas por interesse em algum retorno, ou resposta, seja esta resposta afetiva, estratégica, ou até mesmo financeira. Nada de ruim nisso. Quando uma criança chora, sabe que este sinal despertará a atenção de sua mãe, e ela receberá o alimento instantâneo. Assim, choramos movidos por interesses. Pela expectativa de retorno alimentar pós-choro. Trabalhamos igualmente por interesse. Interesse na profissão que escolhemos, e pela espera do retorno que virá, fruto da troca de nossas horas produtivas e criativas por algum resultado que interessa comercialmente a alguém. E nos aproximamos de alguém por interesse: as amizades surgem por interesses mútuos, convergências temáticas, ou divergências complementares. E quando esse interesse é tão grande que cogitamos a idéia de não nos separarmos mais do outro, surge algo um pouco mais complicado, que alguns chamam de amor, e tentam explicar de forma simplificada. Mas não é simples.
 
Relações humanas, em geral, não são simples. Não é à toa que tantas pessoas hoje em dia achem bonito dizer: ‘quanto mais conheço as pessoas, mais amo os animais’. Ora, amar um animal é fácil: não existem divergências, não existem discussões de relacionamento, não existem suspeitas de infidelidade. Animais são regulares, menos elaborados, e, tendo suas necessidades básicas de sobrevivência garantidas, serão infinitamente fiéis.
 
Pessoas são complexas, portanto, relacionamentos com pessoas são complexos. Nada substitui a relação humana, e só através dela é que podemos exercitar nossa tolerância, aprendendo a lidar com nossos próprios limites e os limites dos outros. Entender a posição alheia é difícil, exige dedicação, exige atenção e cuidado. Mas é só questão de hábito: podemos nos educar para isso. Basta direcionarmos nosso olhar em direção ao outro. Simples assim, mas nestes dias de individualidade em que vivemos, no ritmo desequilibrado da vida nas cidades, sejam grandes ou pequenas, é um exercício esquecido por muita gente. Quando temos um problema, queremos vê-lo resolvido. E quando a resolução deste problema causa problemas para outras pessoas? Somos todos conectados, portanto, o que me afeta, afeta meu semelhante. Mas o que me afeta de forma benéfica nem sempre vai afetá-lo do mesmo modo. Nossa tendência imediata é resolver nossas questões, e esquecer o outro, quando o necessário seria resolver nossas questões considerando os efeitos imediatos no outro. Assim podemos raciocinar para tudo. Sempre que estivermos em contato com outras pessoas (exatamente o que você pensou: quase o tempo todo!) temos que lembrar que nossa posição é só mais uma entre muitas. Precisamos de uma grande dose de interesse no próximo para acertarmos esse olhar. Estabelecer qual a medida de envolvimento com o outro. Quanto território vamos ceder ao outro e quanto vamos reconhecer como nosso. Saber que espaço ocupamos no mundo, e o que somos em relação aos outros. Nossas necessidades e nossas vontades são mediadas pelas dos outros. Dependemos de coisas, sentimentos e pessoas. A palavra-chave, então, não é independência, mas interdependência.
 
Mesmo cessando a fragilidade da idade infantil, continuamos contando com apoio de muita gente. Dependemos de cuidados médicos, quando sentimos alguma dor (ainda não sabemos como funciona direito nosso corpo!). Dependemos de suporte intelectual, que pode vir de várias fontes, como educação formal, leitura, vivência cotidiana, convívio social, e, neste momento, também no meio digital em que estamos. E precisamos, principalmente, de apoio emocional, que vem da família, dos amigos. Apoio de quem nos ama. Deve existir gente que pensa não precisar de ninguém nesse mundo. Mas em algum momento essa convicção vai ser posta à prova. Temos contato com muitas pessoas. Colaboramos, coabitamos, coexistimos, convivemos. E isso é bom!
É preciso conviver. Se não se aprende desde pequeno, pode ser muito doloroso aprender depois. É complicado, mas é bom: ninguém é coisa alguma sem a mediação do outro. As coisas existem por comparação: eu, sozinho em uma ilha, sou quase ninguém. Apenas o ambiente faz essa mediação. Ninguém precisa me entender, ninguém precisa decodificar os meus sinais. Uma pessoa é um universo de possibilidades; duas, juntas, outro conjunto único, rico e novo. Acrescentem-se pessoas, e a dinâmica vai se alterando. Somos partes de conjuntos variados. Finito dentro do infinito. Quando convivemos, nossa tangência com o outro produz resultados. Nossa essência é transformada pelas essências dos outros, e ao mesmo tempo, transformadora delas. Serve para família, trabalho, serve até para amor! Basicamente, serve para tudo. Isso não é elaborar demais as coisas? Dá pra ser mais simples? Claro que dá. Não é muito o que se espera de nós no dia-a-dia. Delicadeza, cuidado, respeito pela opinião alheia, acolhimento, sensibilidade com as limitações e dificuldades do outro, apoio aos que se mostram mais vulneráveis, mais suscetíveis às dificuldades da vida. Como nós mesmo somos, em algum (ou mais de um) momento, e sabemos que sempre podemos contar com alguém. Sempre.
 
Nascemos fracos, morremos vulneráveis. Expostos como filhotes de tartaruga-marinha, lutando pra vencer a areia, com um oceano inteiro de possibilidades pela frente. Dependemos do universo para existirmos.

Somos atores entrando e saindo de cena. Como diz a personagem Blanche Dubois, nas cenas finais de ‘Um bonde chamado Desejo’ de Tennessee Willians: ‘Não importa quem você seja… eu sempre dependi da bondade de estranhos.” Ela representa todas as nossas fragilidades, toda nossa necessidade de afeto, de aceitação, e de cuidado. Todos precisamos de cuidado. Blanche Dubois c’est moi. Blanche Dubois sou eu e você, nós e os outros.

 

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