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Poema Limpo, por Luiz Alberto Mendes

Fui convidado para conhecer o Parque das Neblinas, junto com crianças e adolescentes do Projeto Gracinha. Depois disso ficou fácil escrever.

POEMA LIMPO
por Luiz Alberto Mendes*

Minha missão seria estimulá-los, sem parecer chato, a reproduzir por escrito as sensações vividas na visita. O Parque das Neblinas é exemplo da capacidade de auto-regeneração da natureza. A área foi devastada pela exploração do carvão. Ao adquiri-la, a Companhia Suzano de Papel e Celulose a transformou em parque ecológico, dando chances que a natureza se auto-recuperasse. Já na chegada, a alegria foi sem tamanho. Aqueles jovens haviam ilustrado um livro lançado pelo Instituto Ecofuturo, com textos de grandes nomes da literatura nacional, pesquisadores e outros. Como tenho texto nesse livro, esse era um dos motivos de minha presença.

Nada sabia daquela história, mas como o convite havia partido de Christine, diretora de Educação e Cultura do Instituto, fiquei tranqüilo. Dois biólogos e dois guias da região nos acompanhariam nas trilhas que percorreríamos. A casa de recepção é um luxo em artesanato de madeira. Cavacos esparramados como serragem grossa dividem o piso da casa com a grama que ajardina o entorno. Carol, a bióloga que comandava a expedição, imitava Xuxa no meio da criançada, passando regras. Colocados na trilha, saímos em dois grupos. Fiquei com as crianças menores. Estive longe de crianças décadas, estar com elas hoje é um prazer. Dizem que loucos se dão bem com cães e crianças. Cães me seguem e crianças me amam. A caminhada era por entre árvores com os pés sobre solo recamando de folhas.

Perfumes da mata invadiam a mente; ao longe grito de ave. Árvores em profusão e as indefectíveis bromélias, grudadas nelas, lançando flores encarnadas, pescavam nosso olhar.

Andando sobre as árvores

O rio surgiu como entidade dominante. O fundo e as pedras acinzentadas pareciam acariciados pelo cristalino da água fluindo como um manto. As crianças se apropriavam sérias. De repente éramos parte daquilo, flutuávamos na magia do sol atravessando a mata em flechas de luz. O rio teimava em nos acompanhar como cão fiel.

Quando o fundo do rio perdeu para as pedras e as margens se estreitaram, virou cachoeira. Era para matar de êxtase depois de décadas entre grades de ferro e muralhas de concreto. Pedras enormes compunham uma mesa natural por onde a água geladíssima espumava.

Voltamos por um caminho construído no alto das árvores. As crianças trepidavam: atravessariam uma ponte suspensa que balançava por cima das árvores. Gritavam, sem conseguir conter a explosão de alegria.

Aquela é a mata atlântica, o metro quadrado mais rico em biodiversidade do mundo, a mãe das matas. O prazer ali se transforma em êxtase, e o meu foi mais completo por estar vivendo aquilo tudo em companhia tão especial. As crianças compunham versos, somando estrofes com as árvores, o rio, os pássaros e a cachoeira daquele poema limpo.

*Luiz Alberto Mendes, 55, é autor de Memórias de um sobrevivente, em que narra seus 30 anos longe das árvores.