09 dez

Leitura contra a barbárie: narrar para resistir

“A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”

Antônio Cândido, “O direito à literatura”

Em “Leitura e liberdade”, texto que integra a nossa publicação Pra que serve a literatura?, Yves de La Taille conta a história do pequeno Alexey, menino pobre que, no final do século XIX, se refugiava das hostilidades do entorno familiar e social nos livros:

“Com os livros, Alexey encontrou ‘amigos’, seja na figura dos autores, seja na figura das personagens por eles criadas, ‘amigos’ esses que dilataram sobremaneira o seu universo. E, um dia, um pouco mais velho, ele resolve sair de casa e andar por esse mundo anteriormente descoberto pela leitura. E se tornaria ele mesmo escritor com o nome de Maxim Gorki”.
Gorki, em russo, quer dizer amargo. Reinventar o próprio nome, revestindo-se de um pseudônimo dentro do qual reconheça sua condição, parece ter sido um recurso formidável para o escritor se apropriar do conflito que o impelia a escrever. Uma vez se apropriando disso e escrevendo, podia então superar a hostilidade, resistir, transcender.
Rememorando livremente algumas das histórias de Gorki, logo nos damos conta do quanto a narrativa como resistência e superação permeia a sua obra. No belíssimo conto “O Túnel”, por exemplo, vemos já nas primeiras linhas um homem sentado à beira de uma estrada, à espreita de um transeunte a quem possa contar suas façanhas na construção de um túnel gigantesco dentro do qual homens de origens diferentes se encontram, na cena mais comovente da história. A certa altura ficamos sabendo que o pai do narrador, pressentindo a própria morte antes da conclusão do trabalho, pede ao filho que vá a seu túmulo, se tudo acabar bem, e diga que o trabalho foi concluído – “Para que eu saiba”, explica o pai.
E o que dizer de um outro conto, “Bolês”, em que uma mulher analfabeta, completamente marginalizada, inventa para si mesma um namorado, para quem envia cartas de amor? Com a ajuda de um estudante a quem presta alguns serviços domésticos por gratidão, as respostas do namorado fictício são também escritas e endereçadas à mulher, que experimenta nessas horas a sensação de ser amada.
O projeto literário de Maxim Gorki, como não podia deixar de ser, um dia se confundiu com a vida. Em 1940, Milena, a amada do escritor Franz Kafka, foi enviada a um campo de concentração com uma amiga. Para resistir ao horror, ambas recorriam aos livros lidos muitos anos antes mas que ainda traziam na memória. Entre os textos mais rememorados, estava “Nasce um homem”, de Gorki. A história de um jovem que ampara uma mulher faminta e grávida, foragida das misérias de seu vilarejo, foi o refúgio das duas amigas e, se não conferiu sentido ao seu sofrimento, fez-se uma réstia de claridade – o quanto bastou para que ali houvesse algo da antítese da barbárie.
Um menino que, contra as adversidades da vida, teve livros e se alimentou da potência das palavras, um dia se descobriu pleno delas – isto é, potente também – e as utilizou para plasmar um mundo. Se, como diz Antônio Cândido sobre a literatura, “pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza”, literatura é, indiscutivelmente, um direito de todos. E se é assim, cuidar de meninos e meninas, de jovens, idosos e adultos – cuidar do outro e de si – implica também no acesso ao direito a Gorki, a Guimarães Rosa, Pessoa, Drummond… Cuidar da vida é garantir a todos os seres humanos o acesso à prosa e à poética do mundo.
Equipe responsável: Instituto Ecofuturo
Texto: Reni Adriano

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