10 out

Leitura pública na Virada Sustentável

No dia 30 de agosto, o Instituto Ecofuturo promoveu uma ação de leitura dentro da programação da Virada Sustentável. Quatro amigos leitores públicos – Gracco Liveira, Matheus Sagitário, Mônica Rodrigues, Silmara Gonzaga – e eu fizemos leituras públicas por todo o dia, das 10 às 17 horas, no Parque da Juventude, em São Paulo. O local, onde funcionou a tenebrosa Casa de Detenção do Carandiru até o início dos anos 2000, hoje abriga a imensa Biblioteca São Paulo, que emprestou boa parte do acervo que utilizamos naquele sábado ensolarado.

A ideia inicial era lermos, de hora em hora, para grandes grupos. Mas, não havendo grandes grupos no local, apenas pequenos agrupamentos dispersos, decidimos oferecer leitura o tempo todo, por todo o parque, para quem quisesse: gente sozinha, gente com cachorro, gente com gente, gente com duas gentes,  três, quatro, dez… Não nos importavam os números, mas a qualidade do encontro. E o resultado foi um dia extremamente intenso e surpreendente.

Teve o homem solitário dizendo à Silmara “você salvou o meu dia” (com Guimarães Rosa). Teve a funcionária do Parque emocionada com minha leitura de um texto de Eliane Brum. Teve skatista falando com o Gracco sobre “A flor no asfalto” do Drummond. A moça no salto alto chorando com a Cora Coralina que a Mônica propôs. Adolescentes descobrindo Amós Oz e Jorge Amado com o Matheus…

Teve leitura para morador de rua. Para os manos do Hip Hop. Casais de namorados. Teve gente simpática, gente sorumbática, gente errática… Teve os pequenos gêmeos que pareciam dois curumins acompanhados dos pais, um dos meninos fascinado com o título do livro A bicicleta epiplética – juramos que, quando nos encontrarmos novamente, quem tiver descoberto primeiro o significado de “epiplética” vai contar para o outro… Teve o homem sem dentes que riu para as três mulheres com quem dividia um banco, talvez pela primeira vez descuidado de esconder a boca ao sorrir. Teve intensidades muitas.

Tanta, mas tanta, que eu não seria capaz de contar tudo sozinho. Então peço a Silmara Gonzaga que me ajude a contar o resto da história. É dela a palavra, a partir daqui.

Estado de Graça. É como posso descrever simploriamente a energia que me cerca até o presente momento! Quando pensamos que estamos doando algo ou ajudando alguém, descobrimos, em meio ao turbilhão de emoções, pensamentos, sensações e ideias, que nós é que estamos sendo gratificados e presenteados ao desfrutar de uma oportunidade única!

Depois desse dia, uma série de clichês foi quebrada: o de que as pessoas não tem interesse por leitura, o de que não gostam de ler, o de que não têm paciência para textos grandes, o de que não entenderão textos profundos… Muito pelo contrário: vivenciamos o verdadeiro encontro entre humanos permeado pelo universo da palavra. Encontramos pessoas mais do que atentas, mais do que carecendo, abertas, prontas para se surpreender, exclamativíssimas sobre os textos, as estórias, os pensamentos, os sentimentos, pessoas que se conectaram conosco e com os textos despertando as potências que trazem em si… Encontro de humanos, ornados de palavras trazidas pelos poetas, alcançando a suspensão do espaço e do tempo!

Confesso que, ao pensar nos textos para levar ao parque, por diversas vezes me questionei se deveria priorizar obras curtas, de escrita mais simples, talvez menos densas, mais divertidas, que, de repente, atrairiam mais atenção… Depois concluí que deveria confiar nos meus aliados, nos grandes escritores e nos poderes que eles têm, oferecendo minha voz a algo muito maior do que eu! E então pude, no olhar do outro, descobrir que, verdadeiramente, não escolhi nenhum texto: as presenças que carregava na bolsa, como uma grande bagagem de parceria de vida, era quem escolhia as pessoas, era quem tinha algo a dizer! Então eu estava apenas dando voz ao texto e não a minha voz: a voz de Guimarães Rosa, de Drummond, de Homero, Fernando Pessoa, Cora Coralina, entre outros, dos Grandes que estavam comigo…

Para esse encontro não precisou de nada mais além de gentes, o livro e a leitura, trazendo as entonações apenas das intenções do texto, sem outros recursos, e isso foi suficiente para o despertar de exclamações: “Nossa, muito bom esse texto!”, “Só em pensar que eu queimava meus livros quando ainda estudava, porque a escola me desencantou com a leitura!..”. Ou a mãe que, ao ser abordada, diz que vai chamar a filha para ouvir a história e se surpreende quando é dito a ela que a história será lida para ela mesma, e que isso não é coisa só para crianças! Em outro ponto do parque, pessoas que nem se conheciam, mas que dividiam o mesmo banco, após a saída do leitor público, ficavam conversando sobre o texto… Talvez nunca fossem conversar entre si não houvesse a leitura qualificando aquele encontro.

Lágrimas e risos e silêncios que por si sós iam falando de muitas coisas que com certeza não nos é dado compreender, como a voz daquela moça que saiu murmurando baixinho sobre algum ente literário que a fisgou: “Ele sou eu, ele sou eu…!”

Passei por outras duas pessoas que, caminhando pelo parque com o Roteiro de Leitura Pública com que nós os presenteamos, discutiam leitura – suas leituras…

O parque estava rodeado por uma aura de gratidão mútua… Não sabemos o que causamos nos outros. Despertamos afetos sem saber ao certo o que o outro carrega ou se há ali alguma necessidade, mas confiando na sintonia, na energia, na palavra, nos poetas. Como a leitora Mônica lustrou: a palavra é um bisturi que, em nível cirúrgico, abre as camadas que estão prontas para serem rompidas e então, eu acrescento, a lagarta está pronta para não mais rastejar e sim, a partir de então, a voar como uma linda borboleta em noite de estreia.

Confiando apenas no texto, invertemos a perspectiva da leitura escolarizada onde se prioriza a história da época ou mesmo da vida do autor, o seu enquadramento nos modelos literários. O texto e o que está sendo dito vêm antes de tudo isso, e é essa a beleza que realmente importa. O mais, quem achar por bem procurará por si, pois sem a prévia da paixão, nada se colocará em movimento. Primeiro é preciso SENTIR e é isso que as pessoas buscam, pois é ao sentir é que descobrem o que é ESTAR VIVO.

Sabemos que para ser leitor é necessário suportar uma carga muito forte, toda uma fissura de mudança, um caos primordial, e o mediador então é aquele que dá as mãos e ajuda o outro nessas passagens.

A experiência nos faz refletir que a literatura não precisa ser “Poliana”, mas também não precisa se colocar como arma de confronto. Pode ser profunda e de qualidade, mas trazendo antes de tudo a humanidade para a aproximação, a beleza para a troca, pois é preciso, antes de ser um leitor público, ser um humano que está disposto, no encontro com o outro, a abrir um espaço interno e receber esse outro. Olhar no olho, quebrar a barreira, sem pré-julgamentos.

Muitas vezes, não é o texto todo que fará sentido ou despertará algo em quem ouve. Pode ser uma metáfora, um gesto, uma imagem, uma palavra que pode marcar o outro pelo resto de sua vida. Quem sabe numa decisão. Quem sabe no salvamento da alma.

É limitado o pensamento de que só se deve oferecer às pessoas algo que vá “de encontro com a realidade delas”. O que oferecemos foi de alta linhagem, para ampliar horizontes, causar mesmo o estranhamento, pois é justamente aí que se abrem novas janelas, que se ampliam as perspectivas.

Eu leio porque a palavra me salvou. Leio pro outro porque quero ajuda-lo a se salvar. E ele, sem saber, então, estará me salvando ainda mais.

 

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