10 maio

Narrar: um modo de ler. Breve olhar sobre Dom Quixote das Crianças

Os dois primeiros capítulos de Dom Quixote das Crianças dão mostras de uma enorme sabedoria de D. Benta em aproximar as crianças dos clássicos literários sem ser chata nem superficial. Empreendimento que será bem sucedido em diferentes aspectos.

Começa pelo interesse de Emília em alcançar os livros mais distantes na prateleira. Concretamente: a curiosidade e o desafio imposto pelo objeto por si só já interessante. Em seguida, vencido o primeiro desafio, com o livro já ao alcance, o nível de interesse passa por um estágio intermediário, entre o concreto e o abstrato: as gravuras que recheiam abundantemente a edição primorosa de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha.
O contato com o objeto, sem qualquer informação adicional sobre ele, faz Emília, se apropriando do livro, implicar com questões ortográficas. Assim, “Saavedra”, sobrenome do autor, terá um “a” suprimido pela boneca, que não entende por que dois “a” se um só tem o mesmo efeito… Imediatamente a isso, aparece a referência ao famoso ilustrador, que de pronto o narrador, pelo olhar de Emília, trata com total intimidade: “… dum tal de Gustave Doré, sujeito que sabia desenhar muito bem”… Tudo isso, somado às esppeculações do porquê haver ratinhos nas ilustrações (que não trazem nenhum gato), vai aproximando leitor e personagens na construção de uma memória.
Emília, ao lidar com o peso do livro, como se este tivesse criado raiz, sugere uma enxada para movê-lo do lugar. É notável que o “como se fosse” raiz tem efeito de ser realmente raiz, rompendo a separação entre metafórico e literal, até o Visconde esclarecer que para casos de livros pesados o ideal é uma alavanca.
Essa mistura do real e o metafórico merece relevância, sobretudo, porque vemos que é através de um “como se fosse”, de um “faz de conta”, de uma história escrita por Cervantes e narrada por D. Benta, misturada ao imaginário do Sitio do Picapau Amarelo, que Emilia virá a se humanizar!
Na primeira página a boneca sua, e nas últimas páginas chegará a chorar. Será a primeira vez que Emília chora – ela, de quem já se disse no início de Dom Quixote das Crianças que não se importa com o acidente do Visconde por ela não ter coração. Ora, que coração será esse que ao longo da história se desenvolve a ponto de a boneca se emocionar com o livro e jamais aceitar a morte do quixotesco fidalgo?
A curiosidade inicial de Emília, puramente instintiva (o suficiente para interessar-se por conhecimento, desde que este tome forma lúdica) é sutilmente orientada para a problemática do humano.
Lidas poucas páginas, já vimos referências a Thomas Edison, Gustave Doré, aos Viscondes de Castilho e de Azevedo, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Alexandre o Grande, Cide (lendário herói espanhol), Orlando Furioso e, claro, Miguel de Cervantes. Na referência aos que lidaram com a língua portuguesa, é observada a obrigatoriedade de se passar por eles, uma vez se querendo “saber o português a fundo”.
Tudo isso funciona como preparo não para o que os interlocutores devam agora decorar, mas para sugestão de uma memória que desde já se firma como promessa de enobrecimento: daquilo que eles ainda hão de conhecer, para participar ativamente da história humana. É o começo de um armazenamento de referências que desde já darão norte ao futuro das crianças do sítio – e, claro, aos leitores.
Feito isso, D. Benta pode tornar o clássico palavras suas – dela, D. Benta… Mas “palavras suas e de Tia Nastácia e minha também, e de Narizinho, e de Pedrinho, e de Rabicó”, como dirá Emília.
A herança dos clássicos, prova-se, pode ser transmitida em diferentes palavras, desde a tradução portuguesa rigorosa que as crianças não entendem às conjeturas extravagantes de uma boneca asneirenta totalmente imersa no nosso imaginário.
Assim:
Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga e galgo corredor.
Transmite-se também dessa forma:
Em certa aldeia da Mancha (que é um pedaço da Espanha), vivia um fidalgo aí duns cinqüenta anos, dos que têm lança atrás da porta (sugestão da Emilia, pois que lança não se põe em cabide…), adarga antiga, isto é, escudo de ouro, e cachorro magro no quintal – cachorro de caça.
Algumas palavras serão suprimidas e, outras, para aumentar o vocabulário das crianças, surgem acompanhadas do seu significado.
Veremos ainda como a história é narrada e simultaneamente discutida pelas crianças – o que mostra outro aspecto daquela promessa de enobrecimento: lançar-se na história como num território nosso (porque memória) e participar inteligentemente do destino da humanidade.
Discutir algo lido ou ouvido é tomar parte na narrativa.  Nas histórias de Monteiro Lobato, narrar algo vivido é também uma forma de ler.
Equipe responsável: Instituto Ecofuturo
Texto: Reni Adriano

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