07 mar

Noivas do Cordeiro

Belo Vale, Minas Gerais, meados de 1890. Maria Senhorinha de Lima se casou com Arthur Pierre – marido que ela não escolheu e que foi imposto pelo pai. A moça foi infeliz. Anos depois, ainda casada, Senhorinha conheceu Chico Fernandes e ambos se apaixonaram. Passaram a namorar escondidos. Um dia ela ficou grávida do amante. Este enredo básico e até trivial que por séculos tem alimentado uma infinidade de romances foi o quanto bastou para condenar à vergonha pública toda uma comunidade, segregando e amordaçando mulheres até a quinta geração.

Senhorinha abandonou o marido e foi ter o filho na casa de uma irmã. Nascida a criança, foi morar com Chico, com quem construiu uma casa e teve nove filhos. “Naquele tempo, isso não se usava”. O uso era desmoralizar mulheres, em nome de um machismo institucionalizado e de certo “jesuitismo mineiro” numa região marcada pelo catolicismo. A palavra de ordem então veio do padre: Senhorinha e Chico foram excomungados – e a maldição, segundo o reverendo, deveria se estender também aos filhos do casal até as quatro gerações seguintes.

Senhorinha estava condenada à vida privada, sem direito à sociabilidade nem mesmo entre as outras mulheres. As outras eram “de família”; Senhorinha era pecadora, com status de prostituta. Embora Chico também fosse discriminado, o fardo do moralismo oprimia sobretudo à mulher – e exatamente por isso, por ser mulher, estigmatizada pela ousadia de pensar merecer viver e amar como qualquer outra mulher do planeta. Pelas décadas seguintes, a casa dos dois, na parte mais isolada da cidade, entraria nos imaginários das sucessivas gerações como um prostíbulo tão pecaminoso que ninguém ousaria pôr ali os pés. Na escola, as crianças daquela casa não teriam os mesmos direitos das outras. E mesmo a saúde pública negligenciaria aquela gente.

Cinquenta anos depois da união do casal, na década de 40, o pastor Anísio Pereira chegou à região e se casou com Delina, uma descendente de Chico e Senhorinha. Foi morar com a família da moça e converteu a todos ao protestantismo, fundando a igreja Noiva do Cordeiro. A rigidez doutrinária imposta pelo pastor, que elevava a expressão religiosa ao fanatismo mais exaltado, apartou de vez o povoado do restante do mundo, tornando Noiva do Cordeiro uma nova “cidade”. Se de fora, aos olhos dos outros, era uma espécie de Sodoma, internamente acreditava-se que apenas os aldeões da Noiva ganhariam a salvação eterna.

E foi com uma noiva que a história começou a mudar. Às vésperas do casamento, Noeli, filha do pastor, ousou pedir música para embalar a cerimônia – artigo de luxo, proibido no povoado onde imperava a austeridade moral. Talvez movidos pela comoção e azáfamas dos preparativos, resolveram aceitar. Finda a cerimônia, na qual alguns pela primeira vez descobriram a música, os tocadores resolveram esticar mais um pouquinho e improvisaram um forró. Nenhuma doutrina foi capaz de conter tamanha pulsação, e homens e mulheres descobriram a dança. Desde então, alastraram-se os questionamentos e a igreja foi abandonada. Desde 1990, não há religião em Noiva do Cordeiro, e cada um leva seu Deus na mente e no coração.

O confinamento fez aquele povo experimentar picos insuportáveis de pobreza e os homens foram para Belo Horizonte trabalhar, retornando apenas aos finais de semana. O resultado foi o surgimento de uma sociedade essencialmente matriarcal. São as mulheres que plantam, colhem, cozinham, costuram, bordam, lavam e lavram, em regime totalmente comunitário. Todas trabalham para todas. Tudo é repartido. O que uma tem, a outra tem. Nada é de ninguém e tudo é de todos.

Com o tempo, fundaram uma associação para se fazerem representar no local e um dia descobriram que os votos de seu povo eram suficientes para eleger entre elas uma representante na Câmara Municipal de Belo Vale. Após se tornar a primeira comunidade rural a contar com serviços de internet, outra Noiva do Cordeiro foi descoberta pelas comunidades vizinhas. E como o fato chamou a atenção da imprensa, a cada jornalista que por ali aportava para reportar a novidade tecnológica local, descobriam outra extraordinária realidade: um povo que atravessou o século XX oprimido por imaginários os mais inadmissíveis e arcaicos, a apenas 100 quilômetros da Capital do Estado. E é desse mesmo imaginário inóspito que essas mulheres reuniram forças para ensinar ao mundo o que o mundo ainda não consegue fazer de mais avançado: a convivência harmoniosa entre pessoas, cada uma ocupada em garantir a sustentabilidade da vida de todos. Antropólogos de todo o mundo chegam a Noiva do Cordeiro para ouvir essas mulheres que finalmente recobram o direito à palavra.

Recentemente, o canal GNT produziu o documentário “Noivas do Cordeiro”, com direção de Alfredo Alves. Se compartilhar é preciso, é o que fazemos abaixo. Ouçamos o que as noivas nos falam.

Equipe responsável: Instituto Ecofuturo

Texto: Reni Adriano

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe seu comentário