23 abr

O romantismo e a realidade

No final do ano passado participei de uma oficina de desenho. O pedido era que fizéssemos uma sequência de três desenhos de observação, em duplas. Primeiro desenhamos o próprio rosto observando em um espelho. Em seguida, cada um deveria desenhar o rosto do outro. E no final, devíamos fazer um desenho de memória do próprio rosto. E claro, observar as sensações, emoções, observar o próprio fazer. Essa atividade me trouxe alguns insights muito fortes e por isso gostaria de compartilhá-los com você.

Todos os desenhos foram surpreendentes. O meu primeiro desenho até que saiu bom. Não que o resultado tenha sido bom, mas é que percebi que gostava e me esforçava para representar cada pequena ruga, cada manchinha, cada imperfeição do meu rosto. Senti carinho por elas. Até senti falta de saber representar os cabelos brancos… mas gostei do que desenhei. Eu me olhava no espelho e trazia à tona o enorme esforço de décadas para aceitar a mim mesma. Se eu fosse uma desenhista mais hábil, talvez o resultado saísse melhor, imaginei. Mas depois fiquei pensando qual deles me representaria de verdade. Qual seria a minha imagem real? A realidade, até aqui, eu só podia reconhecer nos meus sentimentos, na maneira com que eu realizava os comandos da professora e como tomava consciência do processo. Minhas percepções sensíveis eram a minha única realidade, sem interpretações ou idealizações. O desenho em si não podia deixar de ter interpretações! Nem o meu nem o de um grande artista!

Ao comentar a experiência do primeiro desenho com a minha parceira de exercício essa percepção se confirmou. Ela havia desenhado um rosto totalmente idealizado e o frescor e a beleza que eu via nela simplesmente não apareceram na sua interpretação. Achei isso intrigante: tudo o que fazemos são interpretações? O que queremos dizer quando nos referimos à “realidade”? A moça com quem eu estava fazendo o exercício não via, nela própria a beleza que eu via. Depois ela me contou que apesar de ver-se no espelho, seu lápis não conseguia deixar de ir na direção da imagem de si mesma que ela tinha em sua memória.

O próximo desafio era desenhar o rosto uma da outra. Eu me esforçava para não deixar o lápis adiantar-se ao meu olhar, observando aquele rosto com cuidado. Então senti que ser objetiva para mim, naquele momento, naquele exercício, era olhar com a máxima atenção e cuidar de cada detalhe do que conseguia ver. Ao fazer isso percebi que a atenção focada fazia desenvolver em mim um sentimento, um afeto. Quanto mais eu me concentrava nos detalhes daquele rosto, mais eu gostava dele. Me lembrei do professor Allan Kaplan[1] quando ele disse: “Amar é prestar atenção!”, e eu estava vivenciando o processo inverso: prestar atenção converte-se em afeto. Essa percepção estava tão clara para mim que vi que poderia generalizá-la para todas as experiências que podemos ter na vida. Quando terminamos esse segundo desenho e começamos a conversar para compartilhar a experiência, contei que percebia que se fôssemos ter como modelo vivo para desenharmos, um bandido horroroso e imundo que encarnasse todo o mal do mundo ou então um desses políticos corruptos, e prestássemos atenção redobrada em cada detalhe do seu ser, terminaríamos por gostar dele, ainda que sem aprovar suas atitudes. Essa foi uma revelação muito forte para mim.

Com o exercício de prestar atenção, e aprofundando-se nisso cada vez mais, como fica a compreensão do que é objetivo e o que é subjetivo? Quando a gente realmente presta atenção, a realidade viva do “objeto” observado se torna viva em nosso “sujeito”, em nosso próprio ser, deixando de ser algo exterior e tornando-se uma percepção sensível. Sem uma profunda observação a realidade do mundo sempre vai ser uma interpretação, e esta será proporcional ao nível de atenção que estivermos colocando em ação naquele momento. Isso muda muito as coisas, você não acha?

Na maior parte do tempo estamos interpretando o mundo a partir dos nossos repertórios e das ideias e experiências dos outros. Se tivermos os parâmetros bem claros nossos comentários serão considerados “objetivos”. Mas se conseguirmos sair desse dualismo “objetivo-subjetivo” para aparentarmos ser objetivos, e passássemos a verdadeiramente observar aquilo que desejamos conhecer, estaríamos semeando pelo mundo um campo de inclusão e afeto, até pelo que não gostamos. Penso que se consigo incluir num mesmo continente tanto aquilo que gosto como o que não gosto, minha experiência se amplia, minha realidade se amplia, e consequentemente a realidade do mundo se amplia. E muito provavelmente se torna mais amorosa. Isso não significa que devemos ficar apáticos em relação as coisas inaceitáveis que existem. Muito pelo contrário!

Você pode estar pensando que essa abordagem é totalmente romântica, mas se relembrarmos que o romantismo é definido como um olhar que falsifica ou dissimula a realidade, como seguir nosso diálogo? Será que o romantismo, o realismo ou o naturalismo ainda são conceitos passíveis de serem aplicados na atualidade? Eu pessoalmente acho que não. Se a realidade do mundo é cheia de fatos que nos envergonham como seres humanos, talvez isso se deva ao fato de olharmos para esse mundo sem a atenção e o cuidado necessários, permitindo que emerja de nós sentimentos, pensamentos e ações distanciados da verdadeira realidade das coisas, que é intrinsicamente bela. Será preciso ter olhos para vê-la!

Faltou contar a experiência do terceiro desenho, livre, do próprio rosto. Tanto o meu como o da minha dupla saíram bem sem graça e com poucos detalhes, dando-nos a percepção do quando nos falta para alcançar a realidade de nós mesmas. Que dirá a do mundo à nossa volta! Não somos seres acabados mas em pleno processo de desenvolvimento. Ao invés de ficarmos desanimados e de nos sentirmos impotentes diante da realidade, podemos encontrar em nós mesmos a força e o entusiasmo de transformar a realidade a partir de um olhar inclusivo e amoroso. Não podemos desanimar: ainda temos muito trabalho pela frente!!

Autora: Rita Mendonça

[1] Allan Kaplan, é consultor de desenvolvimento e autor do livro “Artistas do Invisível”, publicado pelo Instituto Fonte e Editora Peirópolis, São Paulo em 2005.

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