26 jan

O valor das florestas

Artigo publicado no site da revista Veja

Por David Feffer*

Com a entrada em vigor do novo Acordo de Paris, o valor da economia florestal tende a aumentar. E o Brasil tem todas as potencialidades para ser o ator principal deste novo roteiro

Em vários estados, em áreas de intensa pressão de desmatamento e fragmentação florestal, a Suzano Papel e Celulose abriga diversas Áreas de Alto Valor de Conservação (AAVC). São milhares de hectares de florestas nativas nos biomas amazônico, mata atlântica e cerrado onde crescem espécies endêmicas e ameaçadas da fauna e da flora.

Toda floresta tem valor ambiental e social, mas essas áreas, conhecidas com AAVC, são consideradas especiais. De acordo com o conceito estabelecido em 1999 pelo Forest Stewardship Council (FSC), para uma floresta ser definida como AAVC deve concentrar espécies endêmicas, ecossistemas e paisagens, habitats singulares, serviços ambientais críticos, recursos vitais às comunidades e valores culturais excepcionais. A empresa classificou, dentre todos os importantes fragmentos de conservação situados em suas áreas, 31 como AAVC.

As florestas nativas sustentam a biodiversidade e a agricultura, estabilizam o solo e o clima, regulam os recursos hídricos e a chuva e proporcionam habitat para polinizadores e predadores naturais de pragas agrícolas, além de insumos biológicos, enzimas e fármacos. Quando integradas às culturas agrárias locais, aumentam a produtividade e estabilizam a segurança alimentar da população, proporcionando alimento, energia e renda.

Enquanto as estiagens e o desmatamento intensivo degradam os solos, reduzindo a rentabilidade e a produtividade da agricultura e da pecuária, a restauração e a conservação dos remanescentes florestais induzem à recuperação econômica, ampliando as opções de emprego, melhorando as condições sociais da população do entorno e levando desenvolvimento para o interior do país.

Nos 1,2 milhão de hectares de ativos florestais da Suzano no país, 518 mil são destinados a conservação. Em São Paulo, na reserva florestal de mais de 6 mil hectares do Parque das Neblinas, em Mogi das Cruzes, a empresa desenvolve, há anos, tecnologia de restauração, manejo florestal, proteção de recursos hídricos e educação ambiental.

O mais importante: nós não estamos sozinhos nesse esforço! A conservação florestal já foi incorporada à racionalidade do setor de papel e celulose e avança nas indústrias de móveis, painéis de madeira, pisos laminados, carvão vegetal, siderurgia, produção de energia, biomassa e construção civil. No total, as indústrias brasileiras de árvores zelam por 132 mil km2 de florestas privadas, dos quais 78 mil km2 são florestas plantadas e 54 mil km2, florestas nativas conservadas (área equivalente à metade do Estado de Pernambuco). Para cada 1 hectare de floresta plantada, outro 0,7 hectare, em média, é destinado à preservação.

No futuro, a economia será cada vez mais influenciada pela mitigação do aquecimento global gerado pela emissão dos Gases de Efeito Estufa. Estudos científicos vêm alertando para os graves impactos ambientais, econômicos e sociais das mudanças climáticas. Florestas que removem enormes quantidades de carbono da atmosfera e o armazenam por longos períodos dão uma contribuição decisiva para o clima. Nesse sentido, os serviços ambientais, a expansão dos estoques florestais e o comércio de carbono tendem à valorização.

Dispostas em Áreas de Proteção Permanente (APP), Reservas Legais (RL) ou Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), as florestas naturais conservadas pela indústria florestal estocam 2,4 bilhões de toneladas de carbono equivalente (tCO2eq) no Brasil, enquanto as plantadas estocam 1,7 bilhão de tCO2eq. A diferença decorre do fato de a vegetação mais densa das florestas nativas armazenar mais carbono do que a das plantadas. Juntos, os dois tipos de floresta armazenam 4,1 bilhões de tCO2eq, o que não é pouco – quase o triplo dos 1,5 bilhões de tCOeq emitidos em 2013 por todo o país.

Em novembro, entrou em vigor o novo Acordo de Paris da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, destinado a incentivar a economia de baixo carbono globalmente. Ao ratificá-lo o Brasil assumiu a meta de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas (120 mil km2), até 2030, e de desenvolver sistemas agroflorestais integrados à agricultura e à pecuária. Um desafio decisivo tanto para o governo quanto para o setor florestal privado. Aqui, o setor florestal tem papel fundamental na contribuição para o atingimento da meta, pois desenvolve programas estruturados, através de pesquisa e desenvolvimento, para restauração de áreas degradadas. Por ser um setor extremamente legalista, o cumprimento do Código Florestal Brasileiro, por si só, agregará novas áreas nativas, através de seus programas de restauração, contribuindo fortemente para o compromisso assumido. O Brasil é considerado uma potência ambiental, pois reúne diversos atributos para tal, mas ainda requer ações, principalmente no âmbito de políticas públicas, para incentivar e tornar viável o cumprimento de compromissos ambientais, principalmente por pequenos e médios produtores rurais. A meta de restauração é ambiciosa e de alto custo, por isso, viabilizar a cadeia da restauração, através de ferramentas de incentivo, é fundamental para que cumpramos a meta estabelecida.

* David Feffer é presidente da Suzano Holding e do Conselho de Administração da Suzano Papel e Celulose, e vice-presidente do Conselho do Ecofuturo.

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