27 jun

Sobre batatas e homens.

Contrariando a frase clássica de Freud sobre o charuto, uma batata nunca é somente uma batata. Explico.   

Para chegar ao prato de um trabalhador de qualquer grande cidade (brasileira ou mundial), seja ela frita, cozida ou processada em outros alimentos mais industrializados, uma batata passa por um ciclo produtivo. Para que se produza nossa exemplar batata (uma raiz, já encontrada em sítios arqueológicos peruanos com mais de dez mil anos), e ela chegue ao prato, pronta para ser consumida e digerida, é preciso que ela seja plantada, regada, adubada, colhida, lavada, armazenada, embalada, comprada, transportada, armazenada de novo, transportada de novo, exposta, comprada de novo, transportada de novo, lavada de novo, processada, vendida, e consumida. Mudam alguns passos, se ela for comprada para consumo em um restaurante, ou em uma casa, mas é mais ou menos isso. Uma saga cinematográfica. Centenas de atores, principais e coadjuvantes, interagem no roteiro em que a comida, seja ela qual for, é a protagonista.  Insumos são gastos, energia é consumida, e sobram resíduos (e impactos ambientais) inevitáveis.

Uma batata em um prato só é possível graças à existência de todo o resto que não é a batata. Do conjunto de tudo que foi insumo, ferramenta, mão-de-obra, estrutura, equipamento e combustível para que o ciclo completo de produção da batata acontecesse. Esta é a chave para entender do que de fato nós tratamos quando falamos de sustentabilidade. Falamos de interdependência de eventos e coisas, e da noção de que tudo está conectado. Da harmonia que se deve buscar na cadeia entre os diversos aspectos (às vezes, incontáveis) envolvidos na existência de um dado evento humano, seja ele a produção de um alimento, uma viagem de avião ou um festival de música. Toda atividade gasta energia e deixa resíduos. Muitas coisas são necessárias para que se produza algo, e isso vale não somente para alimentos. Mas nesse momento falamos sobre eles.

Os alimentos são parte de nossa preocupação cotidiana. Para você que me lê neste ambiente web, usando algum equipamento eletrônico, posso arriscar dizer que, apesar desta importância óbvia quanto à nutrição, a alimentação não é para você um fator de segurança pessoal. Nossa alimentação é uma conseqüência imediata de nossa cultura, nossas atividades profissionais, disponibilidade de tempo, e rotina. Ainda assim, uns mais, outros menos, todo mundo pensa em comida. Mas realmente pensamos no que consumimos?

Em ‘História da Alimentação’, excelente livro organizado por Jean-Loius Flandrim e Massimo Montanari, vários autores identificam a elaboração alimentar como índice de desenvolvimento: em um dos textos, aponta-se a substituição do binômio caça+coleta por criação+agricultura como a primeira evolução. Mais ainda, o conjunto carne+manteiga+leite dando lugar a pão+azeite+vinho, produtos que não se obtém por mera coleta ou extração (exigindo fixação no território, desenvolvimento de processos produtivos, planejamento e armazenagem) seria um dos primeiros sintomas de evolução de um grupo social. Os hábitos alimentares são elementos culturais,  afetivos e sociais.

Algum ancestral não muito distante (afinal, nosso tempo de existência enquanto espécie é uma bobagem em termos da idade do universo, ou mesmo do planeta), nesta mesma hora do dia, provavelmente pensava em algum aspecto relacionado a seu estoque de suprimentos: afiar uma ponta de lança, salgar a carne para que não estragasse, ou colher os vegetais que seriam consumidos na semana, eram aspectos de preocupação cotidiana. Hoje, não temos que lutar por comida, ou dedicar grande parte do nosso tempo pensando no tema. Não, mesmo? Isso, lamentavelmente, ainda é uma realidade em muitas comunidades no Brasil e no mundo. Comida é cultura, mas também é política e poder. Diz Quincas Borba: ‘… ao vencedor, as batatas!’. Machado de Assis não fala do valor das batatas, mas do valor das coisas e das pessoas.

Alimentação ainda é sinônimo de luta pela sobrevivência para muitas pessoas. A julgar pelas notícias da imprensa em geral, pode-se dizer que falta comida no planeta. Ao mesmo tempo, estima-se que um terço da produção de alimentos no mundo se perca antes de chegar a qualquer consumo, por motivos diversos, como problemas de armazenagem, transporte e conservação, ou depois de seu destino, pelo simples desperdício. As sobras de alimento, confrontadas com a quantidade de pessoas que ainda passam fome no mundo, mostram que o produzido atende à demanda, ou seja, o planeta tem condições de suprir o consumo de alimentos. Basta mudarmos algumas estruturas e pensamentos, e considerar novas (e antigas) estratégias de ação. O que sobra na sua mesa, falta na mesa de alguém. Isso, considerando que todos tenham mesa, e em volta da mesa, uma casa, e considerando que cada um desses produtos tem também seu ciclo de produção, consumindo e gerando resíduos, fica mais e mais complicado. Veja a confusão que causamos ao produzirmos as coisas das quais necessitamos. Pense nisso quando for consumir. Do que necessitamos?

Nossa sobrevivência depende da transformação diária da energia solar em energia celular. Como não temos capacidade de fazê-lo diretamente, temos que nos alimentar de seres que fazem esta transformação, como os vegetais, ou de outros animais que se alimentam deles. No início da evolução, grande parte da energia do homem era gasta na providência de alimento. Hoje, transferimos estas responsabilidades (como cultivo, produção, colheita, abate, processamento e transporte) para terceiros. Perdemos algumas habilidades e interesses, e adquirimos outros. Restam, se tanto, os últimos passos da sequência, variável de acordo com hábitos e interesses variáveis de cultura para cultura, e de indivíduo para indivíduo: a compra e o processamento. Em alguns casos, somente a compra. Não costumamos citar estatísticas, e não faremos isso agora, mas muitas pessoas no país já abandonam completamente o hábito de cozinhar em casa. O que antes era algo de que somente se comentava como hábito alimentar estrangeiro, e estranho, agora se encontra entre amigos. Os motivos, vários; entre eles, a escassez de tempo para tratar do assunto.

A elaboração alimentar, que era índice de evolução, ainda vale como parâmetro? Ao industrializarmos tudo, certamente perdemos algo. Deixamos de raciocinar a respeito de todos esses ciclos que mencionamos. Fazemos parte de processos que desconhecemos. Não sabemos mais de onde vem a batata! Ela aparece milagrosamente na gôndola do supermercado, lavada, imaculada e cara. Ou já frita, processada por sabe-se-lá quantas mãos e máquinas, e é comida por nós, pecinhas quase finais do processo, engrenagens girando na triste fila do restaurante por quilo. Não percam a fome por causa disso, mas a responsabilidade não é da batata. Batata: é nossa.

A batata é exemplar em mais um importante aspecto, que diz respeito à segurança alimentar: o progressivo desaparecimento das muitas variedades existentes de um produto, para cultivo das comercialmente mais viáveis. Batatas azuis, amarelas, vermelhas e púrpuras, todas foram cedendo espaço ao cultivo das brancas. Pode parecer sem importância, mas quando o mundo começa a perder as cores, não é um bom sinal. Perdemos diversidade, o que é um problema tanto para o meio ambiente, que deixa de contar com a interação natural entre as espécies, disseminadas proporcionalmente, quanto para as culturas locais, homogeneizadas e uniformizadas. Passamos a operar em monocultura, o que significa, entre outros aspectos, maior suscetibilidade a pragas, monopólio de matrizes e controle de preços. Isso acontece com a batata, com o trigo, com o feijão, e tantos outros produtos.

O abandono desse envolvimento com a alimentação tem seu preço. E não estamos falando apenas de valor econômico, mas também dele. Iniciativas pontuais tentam a retomada de uma produção local de suprimentos, que resolveria muitas questões diretamente relacionadas à qualidade da alimentação em si, mas também aspectos muito amplos, derivados dela. Produção local exige menos movimentação, menos transporte. Isso significa menos caminhões e trens rodando, menos consumo e poluição. Significa alimentos mais frescos, com menos necessidade de conservantes. Essa é fácil, todo mundo sabe. Outro aspecto menos claro é que o estímulo à produção local significa circulação da riqueza em caráter local: consumir o que seu vizinho produz, seja este vizinho a casa ao lado ou a zona rural da sua cidade, faz com que seu dinheiro estimule o crescimento local. Parece bom. Parece lógico. Porque é.

O uso de tecnologias atuais, aliadas a hábitos ancestrais de cultivo familiar, aproveitamento de espécies locais e sazonais, resulta em maior segurança alimentar. Independência de consumo, possibilidade de escolha e proteção às oscilações de preços do mercado garantem conforto e tranqüilidade a famílias, comunidades e países. Pense nisso quando encarar a próxima batata.    

 

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