30 jan

Tornar a vida mais fácil de ser vivida

Em lugar de ficar formulando conceitos e cagando regras, prefiro contar uma história. Nunca esqueço Lourdes Prada, minha professora no curso fundamental, naquela época chamado de primário. No primeiro dia de aula, ela distribuía a cada aluno (éramos poucos, uns 25) um caderninho preto, capa envernizada. Cabia no bolso. “Levem sempre com vocês e anotem tudo o que verem e ouvirem por aí de engraçado, triste,  esquisito, louco. No fim do mês vocês vão escrever uma redação sobre a vida no nosso bairro.” Não entendemos, quisemos saber porque. E ela: “Porque aqui é a escola, onde vocês se preparam para a vida que vão levar. Lá fora vocês vão conhecer a vida, as pessoas, ver as diferenças, vão conhecer o bem e o mal.”

Assim foi que, para ganhar uma boa nota, parte dos alunos (admito,  não foram todos, mas o mundo é assim) se esmerou e viveu momentos curiosos. Um descobriu um pomar que nem sabíamos existir e onde podíamos pegar a fruta que quiséssemos. Outro, um jardim incrível, escondido por muros.  Conhecemos um professor aposentado que nos convidava para ouvir histórias e nos emprestava livros. Conhecemos criações de galinhas, de patos, de porcos, de carneiros, bicho que a gente só via em presépio e gravuras. Libertamos um cachorro que o dono mantinha preso em corrente e que morria de fome. A mulher de um dentista no mostrou a sala da casa dela, cheia de quadros que ela pintava sobre o bairro e as pessoas que ali moravam.

Achamos divertido aquilo, podíamos brincar e ganhar nota. Depois, a Lourdes mandava reescrever histórias como Branca de Neve, A Bela Adormecida, João e Maria, ensinando que reescrever é a  melhor maneira de aprender a escrever. Além disso, ela lia em classe o que considerava as melhores redações e éramos nós que dávamos a nota. “Assim, vocês aprendem a analisar, a julgar, a criticar, qualidades que vão precisar na vida.” Interessante é que esse método acabou “contaminando” outros professores de outras escolas.

Havia ainda um concurso inter escolas bem divertido, o de sinônimos. Os concorrentes juntavam-se como para um vestibularzinho, recebiam uma lista e precisavam colocar os significados de palavras. Fáceis uma, dificílimas outras. Nunca me esqueço de pandemônio, catapulta, gêiser, colapso. Havia o Dia das Dificílimas, recebíamos a lista hoje, podíamos responder até amanhã, o que nos obrigava a ir aos parentes, aos dicionários. Aprendemos a pesquisar.

Assim nos preparamos para a vida e o que seríamos, nos comunicamos melhor, porque sabíamos mais palavras, escrevíamos melhor, a vida foi mais interessante, tínhamos sidos preparados para ser curiosos, observadores. Acho que as professoras tinham razão, daquela geração saiu gente como Zé Celso Martinez Correa diretor teatral, Sidney Sanchez advogado que chegou a presidência do Supremo Tribunal Federal, Salinas Fortes professor de filosofia e tradutor de Sartre; Marco Antônio Rocha advogado e editorialista do jornal O Estado de S. Paulo. Quanto a mim, tornei-me escritor e jornalista e sou feliz. Ler nos deixou a vida mais fácil de ser vivida.

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