30 maio

Caminhos para ver e ser

Havia um menino que não lia. E, por que não lia, pensava que não sabia.

Mesmo pensando que não sabia, ele conseguia fazer do seu mundo um lugar como poucos. Porque seu olhar não se prendia nas letras dos livros que ele tanto amava. Navegava por imagens, cores e formas o levavam a um lugar incomum, repleto de fantasias ditadas por sua imaginação.

Havia uma moça. E ela sabia.

Onde ficavam os livros, como encontrar as respostas, como diminuir a dúvida, como ordenar tudo, de modo que quem queria saber, com sua ajuda, encontrava o caminho.

Ele não lia as palavras. Lia as figuras.

Ela achava que livros assim não eram importantes. Onde já se viu, precisar de tanta cor e tanta figura, quando as palavras e que deviam ser valorizadas, para ensinar quem não sabia, para educar quem precisava.

O menino que achava que não sabia, de uma coisa sabia muito bem: onde moravam os livros.

Sempre entrava lá e deparava-se com a moça, envolta em regras e códigos, organizando tudo para que ninguém ficasse sem saber.

Pois para ela tudo deveria ficar no lugar certo, na ordem alfabética, numérica, alfanumericamente ordenado.

Um dia, o menino estava lá onde os livros moravam. E percebendo um livro fora do lugar, correu para entregá-lo a moça organizadora.

— Já li esse livro — disse o menino — e gostei muito. E meu livro preferido!

— Pois eu não gostei — disse a moça, séria. — Pouco texto, muita invencionice. Não é um livro sério.

— Quero esse livro de novo — disse o menino, com um sorriso.

A moça emprestou o livro, achando estranho alguém se interessar por um assim, tão pobre em palavras.

O menino, que gostava da moça sem imaginação, pensou em lhe fazer uma surpresa. Ele queria que ela também visse o que ele via naquele livro colorido.

Então, durante toda a semana, o menino desenhou em seu caderno tudo o que o livro lhe contava: a vida das fadas, as brincadeiras das crianças, as poções das bruxas, os vestidos das princesas, a floresta dos bichos, as aventuras do príncipe.

Levou seu caderno de desenhos junto com o livro para devolver.

E disse a moca que ordenava que tinha arrumado um jeito de fazer com que ela gostasse de seu livro preferido.

A moça viu os desenhos do menino. Depois leu as palavras do livro, e com um sorriso perguntou:

— Mas de onde você tirou tudo isso? Não está escrito nada disso aqui!

— Claro que está. Eu não li, mas vi tudo isso. O livro me contou.

Aposto que agora você também vai gostar desse livro tanto quanto eu.

A moça sorriu novamente.

Largou seus códigos e suas listas alfabéticas e sentou-se com o menino.

Leu com ele e para ele.

Retribuindo, mostrou o que ele não tinha visto nas letras.

Porque o menino tão generosamente tinha mostrado o que ela não tinha visto durante toda a vida.

O tempo foi passando e a amizade foi crescendo.

Um cuidando do outro, cada dia um pouquinho mais.

Ele pouco depois estava lendo. Então soube que já sabia.

Ela em pouco tempo se habituou a ver.

Aquele encontro fez mudar a vida dos dois.

Eles descobriram que podiam saber mais, descobrir além do que pensavam que já sabiam.

Porque quando ha alguém para ir junto, fica mais fácil trilhar o caminho.

 

 

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