23 maio

Civilidade ou agressivilidade?

O homem tem que se defender do que está à sua volta. Esta informação deve estar gravada em algum lugar de nosso cérebro, pois é a base da civilização humana. Já dividimos a Terra com outros hominídeos menos elaborados, e os outros desapareceram. Sobrevivemos nós, os mais preparados. Ou nós, os mais violentos? Nosso equipamento físico é despreparado para as condições do ambiente que nos cerca, e sempre tivemos que contar com nosso engenho para a sobrevivência. Asperezas do meio físico, privação de água, ou abundância, excesso de calor, ou ausência: tudo nos atinge e pode ferir ou destruir. Somos animais medianos, para condições ambientais medianas. E há somente poucas centenas de anos abandonamos a maior parte das características animais. Animais são boa companhia, mas não são bons exemplos: apesar da visão idílica (já abandonada, e contemporaneamente renovada) da natureza, e dos animais de estimação elevados à categoria de membros da família, as coisas não são tão simples assim. Animais eliminam inimigos de outras espécies com frieza pragmática, devoram suas próprias crias e expulsam membros do grupo por questões de supremacia. E não vai aqui nenhum juízo sobre isso: é assim que a natureza opera. Qualquer semelhança com as dificuldades e desafios do mercado de trabalho não é mera coincidência. Somos nós, sem o verniz civilizatório.

Nos dias de hoje, o adjetivo ‘humanista’ assume várias leituras possíveis. Serve para designar aquele que tem uma visão das coisas baseada na inclusão do fator humano como preponderante: processos e produtos devem se adequar à felicidade e bem-estar do ser humano. Mas dois sentidos novos têm se apresentado: temos visto o adjetivo ser usado pejorativamente para descrever a ingenuidade dos que acreditam nas características intrinsecamente boas do ser humano, e em sua capacidade de harmonização dos conflitos. Pessimista demais, não? Pode ainda ser usado para descrever aqueles que acreditam na hegemonia da espécie humana sobre as outras. O homem como vetor da destruição das outras espécies para o estabelecimento de seu domínio e conforto, o homem egocêntrico. Em nossa  modesta opinião, um pouco exagerado, dentro da concepção contemporânea de ecologia. Debate complicado, papo para muitas conversas acadêmicas e de botequim.

Nesta altura do texto, boa parte dos leitores, que ama animais já poderia se incomodar com a associação entre animais e agressividade. Não se incomodem com isso. Nem tudo é bonitinho na natureza, e isso é bom. A superação do conceito de que somente o que é belo, manso e agradável deve ser preservado é um dever de todos que se preocupam com o meio ambiente. Muitas espécies desapareceram por conta dessa valorização do belo, seja pelo excesso (como troféus) ou pelo descaso (como insumos). Todos os organismos devem ser respeitados, independente de seu lobby e sua imagem de mercado. Mas é preciso admitir: a natureza é violenta, e demoramos séculos de civilização para abandonar as agressividades do meio natural, ou para nos protegermos dela. Para isso, criamos roupas, utensílios, refrigeração, aquecimento, computadores, medicamentos e equipamentos cirúrgicos. E armas.

 Isso demonstra que existe uma agressividade latente, que um esforço conjunto de todas as sociedades (umas mais, outras menos) se dedica a minimizar. Mas não é possível abandonar esses impulsos completamente, nem de uma vez só, é preciso que se diga. É um longo, diário e difícil processo. Muitas vezes, trocamos a agressividade natural pela agressivilidade artificial (perdão pelo neologismo desajeitado). O conceito de civilidade, que vem do termo romano civitas, que é, ao mesmo tempo, o agrupamento de cidadãos, a cidade enquanto corpo físico, e o conjunto de regras para se viver em grupo, caracteriza um pacto de não-agressão. Mas essa trégua acordada só valia entre os membros da mesma civitas. Aos outros, os forasteiros, os diversos, os desiguais, sobrava o fio da espada, ou, no caso de misericórdia, a escravidão. Qualquer semelhança com o enclausuramento da vida cotidiana nos condomínios monitorados 24 horas das metrópoles atuais não é mera coincidência. Somos nós, com medo, esperando a entrega da pizza.

Não adianta, entretanto, construir cidades dentro de cidades, especializações do tecido urbano, ilhas de regras à parte, castros de defesa do outro. Não é possível acreditar que a violência ficará da porta pra fora. Mesmo que não verbalizado, esse conceito assume que, se não se pode mudar o mundo, que ele fique do lado de lá das grades, e daqui pra dentro só os nossos pares. Guardaremos nossa civitas com a força de nossas espadas e nossas cercas eletrificadas. Bem, más notícias para os vendedores de sistemas de segurança e vigilância patrimonial: isso não tem funcionado muito. Na verdade, ingenuidade achar que isso é uma má notícia para essa indústria: o medo acelera as vendas.

Quanto mais se abandona o uso regular dos espaços públicos, menos chances dele ser um ambiente adequado a todos, e seguro para todos. Ninguém pode viver o tempo todo em ambientes artificiais, vigiados e controlados. Em algum momento, a membrana se rompe, e a violência pode ser um dos múltiplos sintomas dessa enfermidade urbana. E violência se propaga, ou se combate. É uma questão de atitude, e de como se quer que a cidade seja.

O investimento das administrações públicas na qualificação dos espaços de uso coletivo é um fator fundamental de avaliação de comprometimento destas administrações com a valorização do cidadão e da sociedade. Cidades saudáveis têm ruas, parques e praças saudáveis, ocupados por usuários de todas as idades, estratos sociais e universos culturais. Têm equipamentos públicos eficientes, e mobiliário urbano (bancos, abrigos, passeios, refúgios) acolhedor e inclusivo. Microcosmos agradáveis e diversos, onde se pode observar a vida da cidade acontecendo, e ser parte dela. Não é o espaço que faz a sociedade (como um dia o urbanismo e a arquitetura do movimento Moderno acreditou firmemente) e nem só a sociedade o que molda o espaço (como, de certa forma, contrapôs o Pós-Moderno). Hoje é possível vislumbrar que uma combinação de forças concordantes entre sociedade viva e espaços qualificados é o que transforma a vivência da cidade em uma experiência de cidadania. Produzir o espaço é vivenciá-lo.

Nesse sentido, ocupar a cidade e seus espaços públicos é uma tomada de posição política, no sentido grego da palavra: polis, a cidade, e politikos, os cidadãos. Ações de retomada da vida dos centros urbanos por toda a população, sem restrições, são fatos a serem celebrados. A festa, a arte e a cultura como aglutinadores de reocupação do espaço coletivo são portadores de boas notícias. Sinais de que a cidade adormecida pode se levantar e se reconstruir, e dar espaço a todos que nela vivem, sem distinção. Leva tempo para se moldar de novo o respeito ao bem comum, ao espaço que é de todos, ao livre exercício da cidadania, ao cuidado com o outro. Conflitos e acordos sempre haverá, pois somos ainda os mesmos humanos, animais um pouco mais especializados, mas ainda propensos à disputa. Mas quanto antes começarmos, mais cedo teremos as cidades que queremos, com igualdade e generosidade para todos os que vivem nelas.

Comentários

  1. Parabéns, pelo artigo, pela sensibilidade e vidência na análise do tema. Isto me remete a “Arqueologia da desigualdade”. Onde existe civilidade tudo acontece naturalmente, não precisamos de alterar o tom da justiça e das relações humanas. Temos que nos empenhar no estimulo dos princípios de civilidade que na sequência a humanidade responde, corajosamente. Gratíssimo

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