27 mar

Professor

De repente eu estava frente a uma sala com 25 alunos de uma das escolas da extinta Casa de Detenção de São Paulo, e o Coordenador das escolas dizia: “Pessoal, esse é o professor de vocês; professor, esses são seus alunos. Tenham uma boa aula”. Virou as costas e saiu, fechado a porta da sala atrás de si. Fiquei ali, olhando aquele povo, sem saber o que dizer. Urgia falar e as palavras foram brotando simples e claras. Tinha filhos e esposa para sustentar fora da prisão e dando aulas ganharia um salário que faria toda diferença. Pedi, humildemente, que os companheiros me ajudassem.

O respeito e a atenção com que me receberam foram comoventes. Meu compromisso foi tornar-me o melhor professor do mundo para eles. Aprendi a planejar e montar aulas e, aos poucos, conquistei a sala toda. Ninguém faltava, estava tendo resultados rapidos e percebi que realmente conseguia passar a meus alunos o que era necessário. Vivi minha vida toda correndo atrás de algo que devia estar, mas nunca esteve. Jamais soube o que fosse e nem a que distância estava. E era ali, bem na minha frente. Foi como se tivesse encontrado meu lugar no mundo. Nascera para ensinar. Mesmo preso, sentia algo de liberdade nas salas de aula que jamais soube definir. Eu estava integrando-me ao mundo, sendo útil, fazendo algo verdadeiro.

Paulo Freire dizia que: “na medida que o ser humano conhece os códigos de comunicação da humanidade, faz uma nova leitura da sociedade.” Comigo estava se dando exatamente como o mestre prenunciava e eu podia contribuir para que acontecesse com os outros também. Depois de mais de 30 anos preso, fui libertado. Meu primeiro livro “Memórias de um Sobrevivente” fez sucesso. Por conta disso, conheci muita gente e pude realizar várias oficinas de literatura. Na primeira vez, fui contratado para acompanhar uma garotada de uma escola em um passeio ecológico dentro do Parque das Neblinas, administrado pelo Instituto Ecofuturo.

Após o divertido passeio, pissas doces foram distribuidas: a meninada vibrou. E então veio minha parte: falei sobre as árvores, plantas e todo o sistema ecológico ali tão bem cuidado. Distribui folhas de papel e pedi que escrevessem suas impressões do passeio. A intenção era fazer com que pensassem para que retivessem mais. Fui ajudando um a um, sugerindo idéias e convencendo-os a escrever o que estava sentindo. Desdobrei-me e consegui dar conta do recado; todos escreveram. Até que o Anderson, um garoto extremamente esperto, começou a tumultuar. Testei minha capacidade didática e, aos pouco, eu o convenci a escrever. Fiquei tão feliz ao receber sua redação que as lágrimas encharcaram meus olhos.

Esse foi um dos momentos mais livres de minha vida: natureza, crianças alegres, a gente simples do Parque e a mais gratificante e feliz das profissões do mundo: ensinar!

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